Pensar a independência e revisitar a história é o percurso que se faz entre as obras patentes nas galerias do Kulungwana e no IGR – Instituto Guimarães Rosa, em Maputo. A distância entre as duas galerias, uma na Estação Central dos Caminhos de Ferro de Moçambique e outra na esquina entre as avenidas Karl Marx e 25 de Setembro representa por si a metáfora do caminho onde se pode igualmente visualizar as nuances de um país que se transforma enquanto se recusa de desfazer-se de velhos hábitos.
A baixa da cidade é ainda colonial, na arquitectura, nos edifícios que se perdeu a data da sua edificação, entre o velho da relíquia com um certo charme e a degradação emergem edifícios novos que simbolizam uma cidade moderna e que se quer cosmopolita.
Todo esse cenário prepara-nos para uma mostra que vai desde os artistas que se mostraram pela primeira vez quando Moçambique era colónia portuguesa e os que nascem com a República outros aindas contemporâneos, diaga-se, nascidos quando o país se refazia entre acordos de reconciliação e pacificação até estes tempos do boom tecnológico.

São mais de 60 artistas, representados principalmente através da escultura. Obras de autores desconhecidos e nomes que são o símbolo da cultura moçambicana como Reinata Sadimba, Victor Sousa, Pekiwa, Gonçalo Mabunda, Jorge Dias, Gemuce, Simione, entre outros.
“Três Dimensões: percursos, densidades e possibilidades” é uma homenagem à escultura moçambicana como símbolo de resistência, identidade e criatividade.
Organizada pela Associação Kulungwana e pelo Instituto Guimarães Rosa-Maputo, em parceria com instituições culturais e especialistas da área, esta mostra marca o arranque de um ciclo de quatro exposições que se prolonga até ao primeiro semestre de 2026, acompanhadas por debates e projecções.
A exposição revisita e actualiza a mostra homónima apresentada em 2021, agora repensada para integrar o espírito de celebração da história do país. Através de materiais como madeira e argila, “Três Dimensões” propõe uma reflexão sobre cinco décadas de escultura moçambicana, revelando a riqueza simbólica e a diversidade técnica que marcam o percurso artístico nacional.
A exposição inclui ainda obras de novos talentos formados pela ENAV (Escola Nacional de Artes Visuais) e do colectivo MUVART-Movimento de Arte Contemporânea, reforçando a continuidade e inovação na escultura moçambicana.

As peças, provenientes de acervos institucionais como o Museu Nacional de Arte, TMCEL, IGR Maputo, CCFM, bem como de colecções privadas, oferecem um olhar transversal sobre temas como a transformação social, a construção da memória colectiva e os desafios contemporâneos.
Este evento constitui um marco na valorização das artes plásticas moçambicanas, numa altura em que se reflecte sobre o legado e o futuro da nação. É, sobretudo, um convite à contemplação, à escuta e ao reconhecimento do poder simbólico da arte na construção de uma identidade plural.
Fotografia de Yácia Nhantumbo





Deixe um comentário