Texto: MARIA MANJATE
Cheguei a Antananarivo no início de junho, num momento em que o país se vestia de celebração. Bandeiras tremulavam em casas, escolas, mercados e praças, e o sentimento de pertença nacional pulsava, mesmo em meio à precariedade quotidiana. Eram as vésperas do Dia da Independência de Madagáscar que se celebra a 26 de Junho. Em Moçambique, o mês de junho também tem essa carga simbólica da independência, da memória da luta colonial e da tentativa de construir um projecto colectivo de nação, o que ofereceu um terreno fértil para reflectir sobre o papel da memória e das práticas patrimoniais no Sul Global.
Foi nesse estado de atenção sensível que comecei a jornada pelo programa de Mobilidade AléVini, promovido pela Comissão do Oceano Índico (COI) e financiado pela Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD), uma iniciativa voltada a apoiar intercâmbios e facilitar o acesso a mercados criativos.
Mais do que uma actividade técnica ou um roteiro institucional, procurei fazer uma imersão crítica, orientada para uma escuta atenta à valorização, apresentação e interpretação do património cultural junto às comunidades locais, e buscar capitalizar práticas resilientes face às mudanças climáticas nos bens culturais, sendo os dois países, Moçambique e Madagáscar, propensos à crise climática.
Realizado em Antananarivo, ao longo de 10 dias, com o apoio do parceiro local Entreprendre à Madagascar, o programa incluiu visitas técnicas a locais culturais, encontros com especialistas, participação em eventos locais e trocas estratégicas de conhecimento.

Neste tempo em que o passado é pressionado pelo presente marcado por crises climáticas, fragilidade institucional e heranças coloniais, comunicar o património vai além da preservação de ruínas. É interpretar sentidos, desafiar ausências e imaginar futuros possíveis em África, em particular nos dois países que partilham o Oceano Índico.
Por isso afastei-me da abordagem técnica ou turística de conservação, para explorar a mobilidade como ferramenta de deslocamento epistemológico e imersão em realidades complexas, onde clima, território e cultura se entrelaçam. A experiência permitiu também reflectir sobre os sentidos da mobilidade no Sul Global, a urgência de descentralizar narrativas e investir em interpretações contextualizadas do património africano, estabelecendo contrapontos com o contexto moçambicano.
Práticas de apresentação e interpretação do património cultural

Antes de discutir como o património é apresentado, importa definir os seus significados. Apresentação do património é o modo como ele é exibido ou disponibilizado ao público em diferentes espaços e contextos. Interpretá-lo, por sua vez, é dar-lhe sentido a partir do contexto histórico e cultural, das experiências do presente, activando narrativas, memórias e símbolos que conectam as pessoas ao seu território. Comunicar o património é, assim, um acto político e pedagógico. Trata-se de tornar visíveis histórias invisibilizadas, de torná-la acessível e permitir novas leituras do que se preserva.
Antananarivo, capital de Madagáscar, é um palimpsesto de tempos e símbolos, onde o histórico e o mitológico se cruzam. Durante o programa, visitei parte das 12 colinas conhecidas como rova, Ambohimanga, Ilafy, Ambohidratrimo, Rovan’ny Madagasikara, que compõem um sistema de organização espiritual, política e territorial herdado do antigo Reino Merina.
A Rova d’Ambohidratrimo, também conhecida como o Palácio da Rainha, serviu de residência real e é um emblema do Reino de Merina. O museu oferece uma experiência imersiva na cultura e nas tradições de Madagáscar, desde a impressionante paisagem, com plantas e árvores endémicas que sustentam o solo, o rio Ikopa, um dos principais cursos de água da região também deixa a sua marca, à arquitectura que reflecte a fusão única dos estilos malgaxe e colonial, evidentes na estrutura de pedra e madeira, nas esculturas, túmulos reais e no design.
Considerada também uma colina sagrada, é um centro vivo de saber, onde se aprende sobre os costumes, as tradições e as expressões artísticas do povo Merina, um sentido e prática de sacralidade que permanece até hoje. Aqui, a preservação e as visitas guiadas são conduzidas inteiramente por membros da comunidade.
Já o Rovan’ny Madagasikara (Palácio Real) e a colina de Ambohimanga, Sítio do Património Mundial da UNESCO, revelam a fragilidade diante das mudanças climáticas. Erosão, espécies invasoras e degradação estrutural são realidades que escapam às respostas técnicas convencionais.
No Rovan’ny Madagasikara, os vestígios do incêndio de 1995 continuam visíveis e permanecem como ferida aberta na paisagem urbana. Os esforços de restauração revelam fragilidade diante do clima e da urbanização. A degradação dos elementos estruturais, somada à falta de apoio técnico e financeiro adequado, à ausência de medidas preventivas regulares e de políticas públicas consistentes e adaptativas frente às mudanças climáticas, evidencia a precariedade, apesar dos esforços de restauração que têm sido levados a cabo nos dois locais.

O museu comunitário Rovan’ Ilafy, apesar da morbidez e precariedade das estruturas físicas, que desafiam qualquer discurso de preservação, apresenta a herança real de Madagáscar por meio da sua arquitectura, artefactos do tempo colonial e exposições culturais permanentes e itinerantes, oferecendo uma leitura da história e cultura da ilha. E, apesar de todas as limitações de recursos, abrem-se diariamente as portas para repetir o refrão de narrativas que perpetuam o legado colonial, alheias às vivências e vozes das comunidades circunvizinhas.
A mobilidade foi também catalisadora de diálogos sobre adaptação climática e gestão do património a partir das realidades locais. Durante o processo, destacaram-se soluções comunitárias e governamentais, inovação tecnológica e o protagonismo juvenil e de actores de base.
Entre as práticas inspiradoras mapeadas estão modelos de créditos de biodiversidade, através do Ministério do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável; a ONG Juventude Activa para o Desenvolvimento Sustentável (JADD) , que promove a inclusão dos jovens, mulheres e pessoas com deficiência na gestão sustentável dos recursos naturais; educação para o desenvolvimento sustentável nas comunidades e escolas, abordando mudanças climáticas, reciclagem de resíduos e prática agricultura sustentável; a Associação Mitsinjo, referência em ecoturismo comunitário e reflorestamento; e o Parque Nacional de Andasibe onde o uso de drones para monitoramento florestal diário representa uma inovação concreta.
Este contacto directo com iniciativas sustentáveis lideradas por e para comunidades locais, com tecnologias adaptadas a contextos precários, pode inspirar soluções no contexto moçambicano. Em paralelo, as discussões com a Ponto Focal para a Convenção da UNESCO de 2003 revelaram que o aproveitamento deste instrumento junto das comunidades tem sido essencial para a aplicação do conhecimento tradicional e ecológico na resiliência climática local. A prevenção de riscos, a gestão comunitária de resíduos e da biodiversidade, e a governança intersectorial foram destacadas como áreas em andamento para reformas e investimentos junto do Ministério do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável.
Decolonizar as narrativas do património

O que sobrevive, sobrevive por teimosia das pessoas, não do sistema. Estar em Madagascar foi um exercício de escuta. Contrastar contextos e olhar diferentes espelhos. Património não é apenas o que resta, mas o que resiste. E resistir, neste contexto, é continuar a plantar, educar e narrar apesar das complexas dificuldades.
Trazer Moçambique à conversa é ampliar a lente. Assim como Madagascar, o país viveu um processo de independência tardio, uma luta anticolonial intensa e um modelo de gestão patrimonial centralizada e ocidentalista. Tanto em Maputo quanto em Antananarivo, persiste a dificuldade de descentralizar as narrativas do património, ainda dominadas por critérios ocidentais e com pouca participação das comunidades locais.
Em Moçambique a interpretação do património cultural também permanece amplamente institucional e limitada. A gestão é centralizada e pouco sensível às dinâmicas comunitárias. A narrativa patrimonial continua ancorada em discursos oficiais e comemorativos, muitas vezes desconectados da vida real das populações que habitam ou coexistem com esses espaços.
Os processos de interpretação raramente envolvem comunidades ou a juventude. Falta a descentralização, faltam mecanismos de escuta e, sobretudo, falta formação crítica sobre o que significa comunicar património num país marcado por camadas coloniais, guerras e reconstruções.
Em Moçambique o património cultural enfrenta desafios estruturais. Os museus, os centros de documentação incluindo o Arquivo Histórico, operam com recursos limitados, infraestruturas degradadas e sem políticas públicas plenamente consolidadas para a sua preservação.
Embora existam instrumentos legais, como o Sistema Nacional de Arquivos do Estado (SNAE) e outras normas de proteção patrimonial, a fragilidade na sua implementação compromete não só a conservação desses bens, mas também o seu papel como recurso educativo.
Já em Madagáscar, o Arquivo Nacional, apesar dos esforços de digitalização com apenas um funcionário utilizando um laptop, uma câmera e um scanner, e uma funcionária na sala de restauração de documentos com uma máquina “doméstica”, a utopia da salvaguarda da memória nacional e do conhecimento é real.
A precariedade dos recursos revela um cenário comum no Sul Global. Financiamento escasso, equipamentos insuficientes, carência técnica, degradação física dos acervos, exclusão da comunidade local. Pensar África vai além de “trocar experiências”, exige reconhecer que as lutas são interligadas. Comunicar o património hoje implica também comunicar ausências, riscos e urgências. Entre Madagascar e Moçambique, entre a África e os espelhos europeus. Esta mobilidade não ofereceu respostas prontas. Ofereceu, antes, a possibilidade de problematizar:
Quais passados importam? Quem interpreta e apresenta o património? Quais futuros são possíveis?
Moçambique e Madagascar vivem dilemas semelhantes: edifícios ameaçados, arquivos fragilizados, florestas em risco, juventudes inquietas. Pensar também no património imaterial e na conservação comunitária é também pensar em projectos colaborativos de digitalização, aplicação de metodologias de gestão adaptativa e inclusiva em territórios vulneráveis ao clima; para a descentralização de saberes e práticas. Mediação cultural é também fundamental para um diálogo intercultural de escuta real, capaz de comunicar as dinâmicas locais, sobretudo em contextos onde as línguas locais ou nacionais são predominantes, como se verificou em Antananarivo.
Comunicar património não se trata apenas de restaurar estruturas, mas de restaurar relações entre as pessoas e seus territórios, entre a juventude e as políticas, entre o passado e os futuros possíveis. É fundamental encontrar outras formas de cuidar, narrar e proteger.
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