Em 1945, terminou a Segunda Guerra Mundial, com estimativas que apontam para entre 60 a 70 milhões de mortos. Este período foi marcado tanto pelo rasto de destruição deixado pelo conflito como pela reflexão profunda sobre a essência e o destino da humanidade. Os rastos da guerra dominaram os debates intelectuais e culturais da época, com a abordagem de questões relacionadas a condição humana e as suas (im)possibilidades. Este ambiente possibilitou o surgimento de uma indústria literária pujante, que no mundo ocidental revelou nomes como Günter Grass, Heinrich Böll, Albert Camus, Jean-Paul Sartre, Vassili Grossman, entre outros.

Importa referir que, mesmo durante a guerra, e apesar da forte censura, a actividade editorial não parou. Pelo contrário, funcionou como farol de resistência num mundo que procurava silenciar a produção e circulação de ideias. Não é por acaso que, ainda em 1945, Karl Popper publica “A Sociedade Aberta e os seus Inimigos” e, dois anos mais tarde, Hannah Arendt publica “As Origens do Totalitarismo”. Enquanto Popper desconstrói ideias tidas como canónicas na história da filosofia ocidental, classificando-as como inimigas da sociedade aberta, Arendt expõe as fragilidades de dois dos principais movimentos filosófico-ideológicos da época: o evolucionismo e o marxismo. Ambos, segundo a autora, assentam numa análise linear da evolução, natural, no caso do evolucionismo, e histórica, no caso do marxismo.

Este ambiente de efervescência intelectual é, acima de tudo, marcado pelo questionamento da realidade. A realidade deixa de ser evocada como um sagrado a defender, para passar a ser a base a partir da qual se imaginam novas possibilidades de “fazer o mundo”.

Em países como a França, o surgimento de instituições como a Éditions Gallimard, fundada por Gaston Gallimard e conhecida por publicar autores como Gide, Proust, Malraux, Sartre e Camus, serviu de referência para o renascimento literário do pós-guerra. Ser editor continuava, assim, a representar um símbolo de resistência.

Em 1947, Alioune Diop fundou em Paris a revista “Présence Africaine”, que mais tarde se transformaria numa editora e livraria. Esta desempenhou um papel fundamental na promoção da cultura, política e literatura africanas e afrodescendentes. A “Présence Africaine” foi responsável pela divulgação das ideias dos movimentos pan-africanista, da negritude e das lutas pela descolonização, promovendo o intercâmbio de ideias entre figuras como Senghor, Césaire e Richard Wright.

Nas últimas semanas, estive a ler “O Primeiro Leitor”, de Luis Schwarcz, fundador da Companhia de Letras, um ensaio de carácter memorialístico onde o autor traça o seu percurso enquanto editor e relata a sua imersão num mundo editorial marcado por um Brasil que, até 1985, tentava desmontar os escombros da ditadura militar. Sem querer entrar em detalhes sobre o livro (que irei resumir noutra ocasião), aprendi com ele que a indústria editorial é fundamental para a construção de um outro mundo, ainda que apenas imaginado, e que sobrevive através da resistência a todas as correntes que tentam provar a sua inviabilidade. Neste livro, compreendi que uma editora é uma oficina onde profissionais criativos pensam e promovem a circulação de novas ideias em espaços onde afectos mantêm os sonhos vivos.

Em todos os contextos aqui mencionados, o editor, que não é necessariamente uma pessoa, mas pode ser um colectivo que ele representa, surge como figura essencial num espaço que pretenda construir uma verdadeira indústria do livro. Apesar de que ser editor muitas vezes significa navegar num mar incerto, depois destes nove anos de actividade, posso afirmar que vale a pena dedicar-se a isto como carreira, mas acima de tudo, como uma carreira de resistência.


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