Ela desligou o celular assim, do nada, tal como havia ligado. Antes de cortar a chamada ela disse, tens ideias pré-concebidas, Martins. E depois fez uma deixa como se encerrasse uma actuação deixando a plateia em delírio, acorda, baby, é a Anacélia, não te podes preparar para nada quando se trata dela. Sobre não me preparar para nada, venho a treinar. Senão vejam, passei dois anos a tentar roubar um beijo da Carla e não consegui. Minto. Consegui, mas já depois do tio Zefanias morder a corda — e olha que ele tardava a morrer, já estava velhinho, velhinho, já me tinha sido por duas vezes solicitado elogios fúnebres na esperança que ele fosse para junto do Pai, mas logo depois ele punha-se de pé, de súbito, resuscitado — ou então depois do burro morto. Sinuoso destino dos burros, morrem comigo todos os dias. Chego sempre no final. No quase, mesmo à beirinha das portas se abrirem, as portas do abismo, numa derrapagem a 200 km por hora.
Antes dela começar a contar o que contou, disse-lhe que estava metido numa enrascada.
— Qual foi a alhada desta vez? — perguntou ela, esperando muito que lhe dissesse a enrascada em que fui me encaixar de peito aberto.
— Estava à beirinha da morte, nem imaginas — disse-lhe.
— Pois. Problema é que imagino. Deves ter apanhado um motorista louco que guiou-te até ao abismo — ficou em silêncio à espera da minha reacção.
— Não é que foi mesmo isso isso?
Como ela pode conhecer-me tão bem. Há só 9 meses que estamos juntos e ela pode adivinhar-me os pensamentos assim? Pior, os acontecimentos. Isto aconteceu de verdade. Não é como nas vezes em que minto. Os escritores gostam de mentira. Tenho fingido todo este tempo ser um escritor. Grande novidade, diria ela se me escutasse a confissão.
— Martins, vais contar logo ou posso dizer-te ao que te liguei, relhou.
— Espera, espera.
Estava aflito que ela se adiantasse como sempre. Imagina, conversar com alguém que se mete no meio dos discursos, assim, de repente e a dizer de forma sucinta o que devia ser eu a dizer, com os tempos verbais que me convém. Só que ela faz melhor. Diz com uma beleza que me faz querer beijá-la. É estranho, eu sei. Devia me chatear, eu sei. Nós os retardados temos o direito à lentidão com que as nossas palavras nos vêm à boca. Pudessem, os outros, ouvir-nos sem dizer palavra, porque nós pensamos muito rápido, só tarda a dizermos o que nos vai à cabeça. Ainda mais nos custa ser breves, afinal tanto custou achar as palavras que pretendemos dizer.
— Martins?
— Ah, sim, o motorista que apanhei no aplicativo hoje é um avariado. Ouviste o áudio que enviei-te?
— Sim, deves ter notado que vi, não saíram-te os dois tracinhos azuis?
Saíram os sinais. Sabia que ela havia lido. Mas não custava nada ela apenas responder que sim, né? Não lhe saía nada, né? É disso que falo. Gente que tende a exacerbar-se na razão.
— Mas custava dizer alguma coisa? Um sinal de preocupação ou um riso, por exemplo? O gajo estava a ouvir The Weeknd. Imagina, quem escuta a música desse gajo à noite numa autoestrada estará com boas intenções?
Fiquei calado.
— É mau presságio. Mas a culpa não seria dele, The Weekend é que é má influência, reagiu ela.
Tentei voltar a tomar as rédeas da conversa, o acontecido foi comigo, a novidade era minha, a catástrofe era comigo, azar o meu que tenho a vida a pender para os abismos. Mas ela continuou, disparada. Disparatada é o que eu quero dizer, mazé.
— Então, ele conduzia em alta velocidade, meteu-se entre camiões e buzinou ao tipo da frente para acelerar de modo que o camião não lhe batesse de trás. E tu ficaste recostado contra a cadeira, com as mãos levantadas, os pés esticados como se pisasse nos travões — contou ela. — Foi mesmo isso, sem tirar nem meter — confirmei. E ela riu-se.
— Estás tá rir de quê, Carla.
Digo «Carla» e ela entende que estou irritado. E quando é assim ela chama-me «baby». Irrita-me isso também, tenho um certo complexo de inferioridade, eu sei. Dizem baby, vem-me o Bobi na cabeça. Bobi é o cão que minha mãe tanto adorava, para o bem e para o mal. Era capaz de assar-lhe um frango inteiro, mas também de lhe enfiar, garganta abaixo, um ovo acabado de sair da panela a 100 graus de temperatura, por ele ter mexido com os ovos das suas galinhas. O pobre Bobi, no dia que lhe deram a comer o ovo a ferver, com a mamã a abrir-lhe a boca com toda a força dos seus braços que carregaram os meus nove irmãos, ficou a chorar a manhã inteira, como um cão ferido. Aquilo não foi latir, sentia-se de longe as lágrimas a evaporar pelos olhos. Aquele ovo deve ter ido parar no coração. O Bobi a penar de angústia fervente não imagino a mamã que ainda descascou aquele ovo com o lume a arder. Devia querer matar-se os sentimentos antes de «ensinar» ao cão o respeito às galinhas e ao seu direito à reprodução.
Carla está em silêncio e eu com a cabeça no cão. Reflectimos os dois sem dizer palavra. Se não fosse ao telemóvel agora nos beijávamos, talvez. Desde que passaram os dois anos a tentar roubar-lhe um beijo até que finalmente ela tomou a iniciativa de envolver-me nos seus braços, igual uma criança assustada com o tamanho do desejo, beijo-a por qualquer razão. Tenho medo de a perder, na verdade. Tenho medo de ela achar que estamos discutidos e desentendidos, que a relação acabou. Estamos separados. E não posso perdê-la. Foram dois anos a tentar beijar aqueles lábios vermelhos. Muito tempo para desperdiçar em apenas nove meses de beijos espontâneos, sem promessa, é verdade, mas melhor do que nada. Ela odeia sentir-se comprometida. Odeia o sentido da frase «minha namorada», disse-me todas as vezes que lhe pedi que fôssemos namorados. «Quero que sejas minha namorada», disse-lhe por nove ocasiões. Todas as vezes que celebramos o aniversário do primeiro beijo eu lhe pedi em namoro. Todos os dias 13. E ela disse-me não no mesmo número de vezes. Todos os dias 13.
Teria morrido, com o motorista chanfrado ao volante naquela auto estrada à madrugada naquele «until I feel your touch», tentei chamar a atenção dela para o sentido de perda. Para a grande perda que significaria a minha morte. Uma perda definitiva, Carla.
— Não exageres — respondeu-me com uma explosão de gargalhadas. Adoraria que fosse em minha presença. Ia beijá-la, pois claro. E depois deixava-se abraçar.
— Agora posso contar-te a novidade ou vais continuar no teu drama, melhor, na tua quase morte. Mais uma, né?
Ela queria mesmo falar, caramba.
— Diz, diz — apelei antes que ela se fartasse das minhas lamúrias.
— A Anacélia arranjou um namorado.
— A Anacélia!
— Disse que é um hospedeiro.
— Hospedeiro?
— Estás surdo ou estás burro?
— É que disseste hospedeiro.
— Pois foi. É o tipo que ela arranjou.
— Isso se parece com a descoberta de um vírus. Não?
Queria que isso fosse engraçado, mas não foi. Ela não fingiu sequer ter achado graça.
— Oh Martins, calhou mesmo a sorte das boas. Um hospedeiro — disse, tendo depois assobiado. Com Carla é assim. Assobios, capoeira, fórmula 1 e uns copos. E eu fico a ver National Geographic, o mundo a definhar, Mayday, Mayday.
— Onde ela apanhou um assistente de bordo? — afinei no português. Ela conhece esses meus truques de fazer-me de inteligente. Então desvaloriza e repete o que acha certo.
— O hospedeiro? Num avião, certamente.
— Mas qual avião?
— Esqueces que ela acaba de retornar de uma viagem?
— Não, não esqueço.
— Então, ela se encantou com o gajo por aí.
— Mas será?
— Oh! Que achas?
— Diz-me, Carla, num país com apenas uma companhia aérea, com apenas um avião, como é capaz alguém apanhar uma hospedeira?
— Quando é uma mulher, é hospedeira, não é? Então se é homem, é hospedeiro, ponto final e basta.
— Espera, espera, — ela ia desligar o telemóvel — é só uma forma de dizer.
— Mas também é verdade que não passa pela cabeça de ninguém que a companhia aérea, que está à caça de passageiros, já que ninguém apanha esse único avião, tenha um tipo como assistente de bordo. Para você ver como a sorte é armalhona — disse Carla e desligou finalmente.
FOTO: Imagem de freepik
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