Nasceu na Polana Caniço, bairro onde a realidade diz mais que o nome: começou com casas de caniço, evoluiu para madeira e zinco, depois chegou o bloco de cimento que fez as paredes, mantendo-se o telhado de zinco. Até hoje grande parte das vedações entre residências é de chaparia velha. É o oposto da Polana Cimento, mas ambos partilham Julius Nyerere, o pai da independência tanzaniana, um grande africano que quando se escuta o nome em Moçambique, pensa-se numa avenida que concentra a elite política, económica, instituições diplomáticas, restaurantes caros e hotéis de luxo. Por outro lado estão os bairros dos indesejáveis, os que têm uma vida comunitária, feita de partilha involuntária de espaços de tão apertadas que são as ruas e as casas. A quem é da Polana Caniço, sobra o sonho, atiçado pela miragem ao nobre que está mesmo a um par de olhos de distância.
É nesse cenário que nasce e cresce Phambi (n.1996), que não escolheu ser artista, mas a arte escolheu-o e, tendo se visto na encruzilhada, decidiu deixar-se levar pelo ópio de imaginar e fazer do belo o seu único caminho. Sem muitas opções decidiu procurar as personagens para desenhar em revistas e jornais. As mãos de Phambi, Isac Abílio Tivane nessa altura, não contiveram-se ao traço, ao esboço em tudo que era papel que encontrava pela frente. O carma é tramado, diz o adágio, mas a arte é mais implacável ainda. Ou se nasce ou não se é artista.
Nas mãos de um mestre

Foi numa revista que leu sobre um de tal Butcheca, a quem mais tarde veio a conhecer quando foi a uma exposição sua no “Franco-Moçambicano”. Antes de tudo o que chamaria de arte, Phambi desenhou aquele que é definitivamente seu mestre, Butcheca. Este que convidou-o a visitar o seu atelier então no bairro da Malhangalene. Ali o horizonte, o belo ficaram nítidos.
É nas frequências à oficina do artista plástico Butcheca onde aprende a distinguir aquele acto ingénuo de borrar o papel para a dimensão artística da espontaneidade, o talento aliado à técnica, à prática, enfim, o belo artístico.
Com a técnica, o traço, as formas e a narrativa, moldou-se ali, o menino da Polana Caniço que aprendeu a enxergar na cor a dimensão complexa da vida, da teoria da condição humana, feita de subversão e mistério. Ali se moldou o artista que hoje está no meio de nós, um autodidata que surpreende pela técnica apurada, pelas cores nada subtis, que roçam o grotesco, mas sem perder de vista a leveza, preenchendo as telas com metamorfoses.
Mahanhela: finalmente a revelação

Aos 29 anos de idade pode considerar-se esta a primeira vez a apresentar-se num plano mais visível. Entre colectivas e workshops Phambi chega agora a uma exposição em que muito do seu trabalho se expõe ao público, como nunca antes. Na galeria de uma prestigiada casa das artes, a Fundação Fernando Leite Couto e estar ao lado de Mapfara, outro nome que ficou cravado na arte contemporânea com devido merecimento, colocou-o na rota de uma visibilidade que já estava premeditada “quando rasgou o ventre da sua mãe”.
Na exposição assertivamente intitulada “Mahanhela” (vivências ou modos de vida do xiChangana) encontram-se as obras de Phambi, pintura em acrílico sobre tela, uma crónica que se escreve no quotidiano comunitário e individual, das gentes do subúrbio, seus estilos de vida, comportamentos e peculiaridades.
As narrativas constroem-se à volta da casa, nos ângulos do que se vê e do que se pensa que se vê. As individualidades que se destacam no seio da família e o que carregam para a rua as gentes. Em algumas obras vê-se a figura masculina, com os ombros encurvados, com a mulher às costas, o que se pode compreender pela ideia do homem como quem assume as responsabilidades do orçamento familiar, tal destino representado em jeito de quem dá o próprio corpo para suportar o peso da vida.

Estão patentes os subterfúgios por detrás da ideia concebida de vida adulta, tanto para homens, como para mulheres. O lobolo ou o casamento, o trabalho para o “sustento”, a pobreza, essa nudez que se camufla nas fardas do labor incessante, a feitiçaria que pode ser entendida como a extensão da miséria e das desigualdades (ainda que associada ao subúrbio e ao meio rural), essa consequência de uma vida de cobiça de “coisas alheias” e da inveja. E no culminar, há a frustração mal digerida que se traduz na entrega à boémia, bebericar, chorar e dançar a angústia e a desgraça.
Nessas vivências representadas com cores que se impõem aos olhos, com a deformação dos rostos e dos corpos, como que a envolver-nos numa imersão dentro do ractângulo, encontra-se a realidade da juventude que se apega ao lazer e ao entretenimento para ludibriar as carências. Numa altura em que cada “beco” dos bairros periféricos encontram-se jovens estacionados no álcool, nas festas, no sexo por pura descontração ou sobrevivência — no bairro não há prostitutas nem prostitutos, são marandzas e gigolôs —, a obra dialoga com o contexto. Mas a mensagem é mais profunda do que o simples materialismo ou o exacerbar da precariedade.
A pintura de Phambi tem um toque de crueldade até quando retrata a celebração. Ao mesmo tempo ele goza com a ideia da “realização” conforme o padrão estabelecido pela sociedade — no meio suburbano casar e ter filhos simboliza um “subir na vida”.
A imagem das mulheres é apresentada com uma certa agonia e uma lágrima retida no sacrifício de manter a boa imagem de um lar harmonioso definido no casamento. Por fora é o homem que parece carregar a mulher nos ombros, mas é na mulher que se segura a instituição familiar.

Talvez por isso, também, são as mulheres feiticeiras, porque elas têm a capacidade de deitar-se no leito dos desamores e ainda conseguirem manter a imagem social de prestígio do homem e o sentido de lar àquelas casas onde muitas vezes estão sós, acompanhadas pelo televisor — e as telenovelas mexicanas — ou pelo smartphone, onde tem algum acesso a um mundo de fantasias.
O enredo, em Phambi, é tão completo que se consegue ler que à noite cada uma das personagens vai lidar com o desgosto como pode: numa vassoura irromper sobre os céus; numa cama com o corpo a arder de um prazer mal resolvido, enquanto o homem satisfaz o seu próprio desejo ou vai iludindo a esperança até chegar o amanhecer, com novas promessas.
Visto tudo isso em um artista jovem, pode depreender-se que o seu futuro é promissor e honra a tradição das artes plásticas moçambicanas, feitas de nomes que se confundem com o próprio país, Malangatana, Victor Sousa, Chichorro e, já agora, o próprio mestre de Butcheca e o seu discípulo.






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