Texto: Fernanda da Lena [1]

Desde então, não ouso pronunciar aquela data sem sentir a cicatriz latejar dentro de mim, lembrando-me de Dezembro que deixou marcas indeléveis em minha alma e feridas que mantém-se abertas.

Tudo começou com um sopro traiçoeiro, roçando-me a pele como quem ensaia um beijo furtivo. O céu, cúmplice inconsciente, sorria azul, como se fosse testemunha de um encontro inocente.

Mas logo a respiração dele tornou-se áspera. Suas mãos ousadas encontraram e tocaram meu corpo e, sem pedir licença, deslizaram entre vales e colinas, arrepiando-me até aos ossos. Senti-o a abrir o caminho à força, penetrando por onde eu era mais frágil, arrancou-me as vestes de zinco e lançou-me-as ao alto em revoadas metálicas, como quem exibe troféus. Mordeu as minhas paredes de barro até fazê-las ceder, tombou as minhas árvores, espalhou-as pelo chão como corpos indefesos.

Os bambus se espalharam pelo espaço, rodopiando meus filhos: homens, mulheres, crianças e animais — num striptease forçado, impotentes diante da fúria que os dominava, contorceram-se até caírem no abraço frio da morte. Tentei fechar-me, mas ele empurrou-me inteira, as suas investidas violentas que arrancaram suspiros de dor e pedaços de mim. Gritei, gritei até me rasgar por dentro, mas os meus clamores se perderam nos assobios dele, tão altos que ofuscavam qualquer brado de socorro.

Perdi forças. Senti o corpo a dissolver-se no torpor da dor, e os meus olhos cerraram-se, não sei por quanto tempo. Quando voltei a enxergar ao redor, lá estava Raimundo Condenado, ajoelhado na terra encharcada, desenterrando Miséria, sua esposa, com a ânsia faminta de um cão vadio atrás do osso — e cão ele sempre foi. Lembro-me das inúmeras vezes em que os vizinhos meteram-se entre os dois, arrancando Miséria de suas garras, livrando-a das pancadarias que lhe moldaram o rosto à feição da tristeza.

Foi pela mão direita que ele a reconheceu. Entre os bambus partidos e as folhas das árvores, aquela cicatriz antiga brilhava como farol. Tinha-a desde o dia em que, exausta das humilhações, tentou incendiar o próprio corpo com o petróleo que comprara no mercado, mas antes que as chamas a engolissem inteira, os vizinhos arrombaram a porta e a livraram do fogo, que deixou apenas as queimaduras que o tempo não apagou.

Estou farta de ouvir essa gente a repetir, de boca em boca, que os bons se vão cedo e os maus teimam em ficar. É um provérbio que atravessa gerações, feito maldição que se recusa a desfazer-se.

Enquanto Chido se abusava de mim, abrindo as veias de terra, dissolvendo-me em matope de adobe, os sobreviventes de Majune agarravam-se às preces. Pediam ao vento que lhes desse um resto de fôlego. Mas quando, enfim, tudo se calou, para muitos, viver já não fazia sentido.

Apeteceu-me beber xivotxongo[2], mas não, tudo que é líquido parecia ter fugido de mim, recusando-se a acalmar a sede ou lavar a alma. Fechei os olhos, não sei por quanto tempo, mas tempo suficiente para que mãos e mentes realizassem engenharias rudimentares, reconstruir o que a tempestade ceifou, tentar dar sentido ao caos. Confesso. Teria sido melhor continuar adormecida, na esperança de uma ressurreição que me devolvesse a terra inteira.

Voltei a abrir os olhos, vi meu  povo Chewa, com os corpos banhados de erupções cutâneas, manchas que brotavam como sementes rebeldes sobre a pele. Era impossível não sentir um nó na garganta. Mpox arruina a vida do meu povo, marcando em mim mais uma destruição.

Ahhhhhhh! Que raio de culpa tenho eu por ser esta província? Por ter o ouro escondido nas veias da terra? Por ter o Lago Niassa que reflecte o céu com a profundeza das águas serenas? E ainda assim, receber a os golpes da vida?

Queria eu ser Deus, para controlar o destino do mundo. Para que os anjos estagiários não fizessem mais estragos no céu. Mas a vida é imperfeita. E assim,  resta-me apenas dançar neste carnaval de dor.

Fernanda da Lena

[1] Fernanda da Lena, nascida em Maputo, é jornalista que espreme o sumo das notícias e o serve temperado em literatura. É escritora e crítica de arte. Com artigos publicados no jornal O País e no site Mbenga Artes e Reflexões. Deixou o poema “Memória sem Túmulo” ancorar no Guia Poético e Afectivo de Moçambique, promovida pela Gala-Gala Edições e tem traços marcados na antologia de contos “Todas as Coisas Visíveis” (Catalogus, 2025).


[2] Xivotxongo— bebida de baixo custo e com teor de álcool muito elevado fabricada em Moçambique


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Uma resposta para “Maremoto de desespero”.

  1. Texto bastante intrigante cheio de verdades.

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