Texto: Esmeralda Gomes[1]
O avião pousou em Luanda como quem retorna ao abraço de uma mãe cansada, mas cheia de histórias para contar.
Lá fora, o calor tinha o cheiro de poeira e mar. O som das buzinas misturava-se ao canto dos vendedores ambulantes, que gritavam os preços das mangas maduras, dos amendoins torrados e das bolachas embrulhadas em plástico colorido.
Cresci entre o vermelho da terra batida e o dourado do pôr do sol africano. Cada rua do meu bairro parecia guardar um segredo: um sorriso cúmplice, um olhar curioso, uma criança correndo descalça atrás de um pneu velho como se fosse o brinquedo mais valioso do mundo.
No Cazenga, a vida é barulhenta, intensa, e às vezes dura, mas o riso sempre encontra espaço para nascer.
Viajar por Angola e por África é viajar para dentro de si. É entender que as estradas não são apenas caminhos de asfalto ou de terra, mas pontes para outras histórias.
Lembro-me de quando atravessei as ruas poeirentas de Benguela e vi mulheres com panos coloridos na cabeça carregando bacias cheias de peixe fresco.
Vi crianças brincando na praia da Baía Azul, mergulhando sem medo nas ondas salgadas.
E, ao entardecer, sentei-me num banco qualquer para assistir ao espetáculo gratuito que o sol nos oferece todos os dias, pintando o céu de laranja, rosa e dourado.
Mas África não é só beleza.
É resistência.
É o mercado confuso de Kinshasa, onde o caos parece orquestrado.
É a calma de um café em Maputo, onde o tempo desacelera.
É o cheiro forte das especiarias em Zanzibar, onde o mar conta histórias de navegadores antigos.
É o silêncio profundo do deserto do Namibe, onde a areia conversa com o vento.
Viajar pelo meu continente é perceber que cada sorriso é um acto político e cada abraço é um manifesto de esperança.
É ver que, apesar das dificuldades, aqui ainda sabemos dançar. Dançamos quando o salário atrasa, quando a luz falta, quando a chuva chega depois de meses de seca. Dançamos para celebrar a vida, porque a vida, apesar de tudo, insiste em florescer.
Numa viagem por África, aprendi que não se volta a ser o mesmo. Porque África não cabe numa mala nem num passaporte ela cabe no peito.
E, quando menos se espera, ela acorda dentro de nós, com o cheiro de pão acabado de sair do forno e o som distante de um batuque chamando para festa.
E é por isso que, mesmo quando viajo para outros continentes, levo comigo a poeira vermelha da minha terra.
Ela está colada nos meus sapatos e na minha memória, como tatuagem eterna.
África é o meu ponto de partida e o meu ponto de chegada Sempre.
Foto de Jonathan Quiúma

[1] Esmeralda Gomes é angolana, licenciada em Ciências da Comunicação, apaixonada por contar histórias que capturam a essência de África. Viajante por natureza e observadora atenta, busca transformar memórias e experiências em narrativas que emocionam e inspiram.





Deixe um comentário