Escrevo estas linhas a olhar o Rio Zambeze, esta vasta bacia que leva as suas águas através de quatro países: Angola, Botsuana, Malawi, Zâmbia, Zimbabwe e Moçambique. Encontro-me concretamente na cidade de Tete, onde decorre o Festival Nacional da Cultura, evento que celebra a diversidade cultural moçambicana, reunindo artistas, criadores e gestores culturais de todo o país.

Vim até aqui com uma mala de livros editados pela Ethale Publishing. Estão expostos na Feira do Livro e da Arte, no Pavilhão Municipal. Para além dos livros, há também outros bens culturais, e participam igualmente várias editoras.

Quando Moçambique conquistou a independência, em 1975, o Estado investiu na produção de livros, com destaque para os escolares, publicados então pela Diname e pelo INDE, e para os literários, a cargo do INLD, que lançou uma notável colecção de literatura africana. Foi graças a essa colecção que conhecemos grandes nomes da criação literária da África Ocidental.

Mais tarde, a AEMO – Associação de Escritores Moçambicanos assumiu a dianteira na actividade editorial, trazendo ao público livros de uma geração que ficaria conhecida como a “geração charrua”, muitos dos quais se estrearam nas páginas da já extinta revista Charrua.

O século XXI trouxe o predomínio das editoras privadas que, embora nacionais, são frequentemente braços locais de grandes grupos internacionais. Contudo, à medida que crescia o número de pessoas desejosas de publicar a sua escrita, começaram a surgir pequenas editoras à procura do seu próprio espaço – as chamadas editoras independentes.

Na prática, é este o rosto maior do sistema editorial moçambicano: editoras independentes que sobrevivem com receitas modestas, entre vendas de pequena escala, serviços editoriais, fundos de responsabilidade social e, por vezes, um merchandising residual.

O aumento de editoras, acompanhado pelo crescimento do número de escritores, trouxe à tona outra urgência: era necessário formar mais leitores. Era preciso criar, como diria o sociólogo Carlos Serra, verdadeiros “combatentes pela mentalidade sociológica”, no caso específicos, através dos livros.

Eis o que move os editores que percorrem quilómetros até Tete para expor livros, conversar com potenciais leitores e difundir a leitura como acto nobre. Compreenderam, pela história, que um editor não se limita a fazer livros: forma também leitores.

Essa formação faz-se de diversas maneiras:

  1. pela disponibilização de livros cuja proposta temática e estética dialogue com as expectativas e inquietações dos leitores;
  2. pela fixação de preços compatíveis com as condições do público;
  3. pela criação de iniciativas que incentivem o gosto pelo livro e pela leitura.

A história demonstra que, em diferentes contextos, os editores souberam usar engenho e criatividade para tornar o livro acessível e popular. Entre os marcos mais notáveis, destacam-se os seguintes de acordo Beatriz Sertório:

Uma invenção do século XV

Com a imprensa de Johannes Gutenberg, a cultura escrita deixou de estar confinada a mosteiros e universidades, alcançando um público mais vasto. Surgiu, então, a necessidade de livros práticos e acessíveis, desafio brilhantemente enfrentado por Aldo Manuzio. Instalado em Veneza, no final da década de 1480, introduziu o formato in-octavo, imprimindo 16 páginas por folha dobrada três vezes – o que resultava em pequenos volumes fáceis de transportar.

Adoptou ainda o tipo de letra criado pelo gravador Francesco Griffo, que permitia mais caracteres por página e ficaria célebre como “itálico”. Publicou clássicos como Platão, Xenofonte, Esopo, Horácio e Virgílio, e os seus livros rapidamente se tornaram indispensáveis, sobretudo para mercadores, que os levavam como fiéis companheiros de viagem.

O boom dos livros de bolso

Embora o formato tenha nascido no Renascimento, os livros de bolso só se popularizaram no século XX. Em 1935, a britânica Penguin Books, fundada por Allen Lane, revolucionou o mercado ao lançar a primeira colecção de paperbacks de qualidade a preços acessíveis. A inspiração surgiu quando Lane, à espera de um comboio, constatou a ausência de leituras baratas e portáteis. Decidiu então lançar livros ao preço de um maço de cigarros – acessíveis, sobretudo, às classes trabalhadoras.

O livro (de bolso) como arma

Na Segunda Guerra Mundial, os soldados norte-americanos não levavam apenas armas de fogo, mas também livros – as famosas Armed Services Editions, criadas em 1943. Em quatro anos, imprimiram-se cerca de 120 milhões de exemplares, distribuídos desde as praias da Normandia até às ilhas do Pacífico. Não eram apenas passatempo: representavam os ideais de liberdade e democracia pelos quais combatiam. Enquanto os nazis queimavam livros, os aliados usavam-nos como símbolo de resistência e de esperança.

Que os livros continuem, pois, a resistir a estes e a outros tempos turbulentos da humanidade.

Image by jcomp on Freepik


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