Texto: Amosse Mucavele
Num país onde faltam editoras, livrarias, financiamento ao sector cultural e pouca valorização institucional da literatura, Jerónimo Salvaterra, escritor e professor são-tomense em conversa com o poeta moçambicano Amosse Mucavele afirma que o papel do intelectual não é isento de desafios e contradições.
“A busca pela objectividade, a relação com o poder e a responsabilidade social são questões que permeiam a trajectória do intelectual, exigindo constante reflexão e engajamento”.
Salvaterra, de 72 anos, boa parte dos quais dedicada à pedagogia e literatura, incluindo a luta pela preservação da cultura são-tomense, é autor de livros como “Mangungo”, que aborda mitos e provérbios da ilha, e “Tristezas não pagam dívidas”.
Quem eram os desterrados que vieram para São Tomé e Príncipe durante o período colonial?
Os desterrados que foram enviados para São Tomé e Príncipe durante o período colonial eram, na sua maioria, criminosos e pessoas consideradas indesejáveis pela administração colonial portuguesa. Incluíam-se indivíduos condenados por crimes diversos, desde roubos até oposição política, bem como pessoas com doenças contagiosas ou consideradas socialmente marginais. O objectivo era a utilização da mão de obra forçada na produção de cacau e outros produtos, além de servir como uma forma de “limpeza social” nas colónias. As condições de vida e de trabalho eram extremamente duras, marcadas pela exploração e violência.
Por que essas comunidades continuam, até hoje, à margem da história oficial do país?
A persistência da marginalização de comunidades na história oficial são-tomense é um fenómeno complexo, enraizado em dinâmicas de poder, exclusão e falta de representatividade. Diversos fatores contribuem para isso, como a perpetuação de narrativas históricas que priorizam determinados grupos sociais, a ausência de acesso a recursos e oportunidades, e a invisibilização de suas experiências e contribuições. A falta de reconhecimento e valorização de suas identidades, culturas e histórias nos espaços oficiais e nos media reforça essa marginalização, perpetuando desigualdades e impedindo a construção de uma história mais inclusiva e diversa.

Acredita que o Estado santomense e os países de origem desses desterrados (como Moçambique) têm alguma responsabilidade histórica ou moral a assumir?
A questão da responsabilidade histórica e moral de São Tomé e Príncipe e dos países de origem dos desterrados, como Moçambique, é complexa e multifacetada. Historicamente, as decisões políticas e sociais tomadas podem ter contribuído para o deslocamento e sofrimento dessas pessoas. Moralmente, pode existir um dever de reconhecimento, reparação e prevenção de futuras injustiças. A avaliação da extensão dessa responsabilidade exigiria uma análise aprofundada dos contextos históricos e das políticas implementadas.
Que caminhos vê para um possível reconhecimento ou reparação dessas comunidades e seus descendentes?
Esses processos envolvem diversas etapas. Primeiro, o reconhecimento formal da comunidade e seus descendentes, muitas vezes através de legislação específica ou declarações oficiais. Em segundo lugar, a reparação, que pode incluir compensações financeiras, acesso a recursos, programas educacionais, projetos de desenvolvimento comunitário e preservação da cultura e história. O diálogo com as comunidades afetadas e a participação ativa delas em todas as etapas são fundamentais para um processo justo e eficaz.

Que papel desempenharam jornais na resistência ao colonialismo em São Tomé?
Os jornais desempenharam um papel de relevo na resistência ao colonialismo, funcionando como plataformas de disseminação de informações, ideias e propaganda anticolonial. Eles permitiram a organização e mobilização de movimentos de resistência, fornecendo espaço para a articulação de identidades nacionais e a denúncia de abusos coloniais. Através de artigos, editoriais e notícias, os jornais promoviam a consciência política, inspirando a luta pela independência e servindo como um contraponto à narrativa oficial do poder colonial.
Qual era o risco enfrentado pelos jornalistas e intelectuais que ousavam criticar o regime colonial?
Restrição à liberdade de expressão: censura prévia de publicações, fechamento de jornais ou revistas que criticavam o regime, além de proibição de divulgar certas informações ou opiniões. Prisão: muitos jornalistas, intelectuais e ativistas eram presos por suas críticas. As prisões podiam ser temporárias ou prolongadas, e muitas vezes envolviam condições precárias e torturas. Perseguição e exílio: além da prisão, havia casos em que os críticos eram perseguidos de forma contínua, ameaçados ou obrigados ao exílio para evitar represálias. Castigos físicos e tortura: em alguns casos, as autoridades utilizavam tortura física como método de punição e intimidação para dissuadir a oposição. Multas e punições económicas: multas pesadas eram aplicadas a jornais, intelectuais ou organizações consideradas subversivas. Desaparecimentos forçados e assassinatos: em situações extremas, críticos eram sumariamente desaparecidos ou mortos, muitas vezes sem investigação ou punição. Essas punições reflectiam o clima de repressão do regime colonial, que buscava silenciar Vozes dissonantes e manter o controlo político e social.

Como avalia o estado atual da imprensa em São Tomé e Príncipe: há liberdade real ou há limites impostos, formais ou informais?
A liberdade de expressão de pensamento, de reunião, de associação e de manifestação são garantias previstas na lei são-tomense, assim como a liberdade de professar uma religião. Contudo existem laivos de intromissão da política no setor.
A imprensa hoje continua, de alguma forma, o legado da crítica social e política exercida pelos jornais do passado?
Alguns jornalistas estão afetos ao poder como forma de sobrevivência. Aqueles que estão ligados a RTP fazem um trabalho mais isento.
Existe, de facto, um espírito de cooperação entre os PALOP ou ainda há muita fragmentação ideológica/estratégica, como SE explica que Moçambique não tem embaixada em São Tomé e vice-versa?
A questão sobre o espírito de cooperação entre os PALOP é complexa. Embora existam esforços de cooperação, como acordos comerciais e projetos conjuntos, a realidade demonstra sinais de fragmentação. A ausência de embaixadas entre Moçambique e São Tomé e Príncipe, por exemplo, pode indicar desafios de ordem política ou estratégica que dificultam a cooperação plena. Estes desafios podem incluir diferenças ideológicas, prioridades nacionais divergentes ou questões de recursos. A cooperação entre os PALOP é um processo em desenvolvimento, com avanços e recuos.
Por fim, acredita que a memória histórica pode influenciar positivamente o futuro político e social dos PALOP?
Acredito que a memória histórica nos PALOP, ao ser preservada e analisada criticamente, pode influenciar positivamente o futuro político e social ao fornecer lições aprendidas com o passado, fomentando a identidade nacional, e promovendo a coesão social. Ao compreender os erros e sucessos históricos, é possível construir instituições mais sólidas, promover a justiça social e prevenir a repetição de conflitos. A memória histórica serve como um guia para a tomada de decisões, permitindo que os PALOP enfrentem os desafios atuais com maior sabedoria e resiliência.

Qual é o balanço que faz dos 50 anos da independência de São Tomé e Príncipe?
A avaliação do progresso político, económico e social do país, nos 50 anos da independência de São Tomé e Príncipe revela-se caótica, marcada por instabilidade governamental e políticos focados nos seus interesses em detrimento do povo. O desenvolvimento económico, a melhoria na educação e saúde, e desafios como a pobreza e a instabilidade mostram-se desoladores. Apesar de algum progresso, a ganância são-tomense impediu avanços mais significativos. A avaliação deve ainda considerar o papel de São Tomé e Príncipe na comunidade internacional e as suas relações com outros países. A dependência externa, tanto a nível financeiro como em termos de apoio técnico, continua a ser uma pedra no sapato para a autonomia e soberania nacional. A corrupção, enraizada em diversos setores, mina a confiança nas instituições e desvia recursos que poderiam ser investidos no bem-estar da população. A falta de transparência nos processos de tomada de decisão e a impunidade generalizada alimentam o descontentamento popular e a descrença no sistema político. A necessidade urgente de reformas estruturais, que promovam a boa governação, o combate à corrupção e o investimento no capital humano, é inegável. Apenas com uma liderança comprometida com o bem comum e com a participação ativa da sociedade civil será possível superar os desafios e construir um futuro mais próspero e equitativo para São Tomé e Príncipe.
Qual é o Lugar e o papel do intelectual em São Tomé?
O papel do intelectual em São Tomé e Príncipe, envolve a análise crítica, a produção de conhecimento e a influência no debate público, podendo contribuir para o desenvolvimento social e político. Essa atuação pode ocorrer em diversas áreas, desde a academia e a literatura até a militância política e a comunicação social. No entanto, o papel do intelectual não é isento de desafios e contradições. A busca pela objetividade, a relação com o poder e a responsabilidade social são questões que permeiam a trajetória do intelectual, exigindo constante reflexão e engajamento. A história nos mostra intelectuais que defenderam causas nobres e outros que se alinharam a regimes autoritários, evidenciando a importância da análise crítica e do compromisso ético na actuação intelectual.
Foto de destaque: viagemsaotome





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