Em 1963, Kwame Nkrumah publicou o livro Africa Must Unite, onde defende que a independência política dos países africanos só seria real se acompanhada de emancipação económica e de união continental. Denuncia o neocolonialismo como uma forma mais subtil e perigosa de dominação, em que as antigas potências coloniais mantêm o controlo através do comércio desigual, de empréstimos financeiros e da influência cultural. Para ele, aceitar a fragmentação nacional seria perpetuar a vulnerabilidade africana face a interesses externos.
Como proposta central, Nkrumah advoga a criação de um governo africano unificado, com instituições políticas, militares e económicas comuns. Acreditava que apenas uma federação continental poderia garantir o controlo dos recursos naturais, evitar a exploração externa e fortalecer a posição de África no cenário mundial. Nesse sentido, sugere a criação de um banco central africano, de uma moeda comum e de uma política de defesa unificada, capazes de proteger o continente contra ingerências externas.
Além disso, Nkrumah sublinha a importância da industrialização e da cooperação económica entre os países africanos. Propõe o fortalecimento do comércio intra-africano, a construção de infraestruturas conjuntas e o investimento na educação como formas de romper com a dependência das ex-metrópoles. A luta contra o neocolonialismo, segundo ele, não deveria ser apenas política, mas também económica e cultural, visando consolidar uma identidade africana autónoma e soberana.
A questão cultural esteve sempre presente nos movimentos de libertação nacional, que se viram confrontados entre a tentação de formar as suas identidades nacionais a partir das línguas e culturas das antigas potências colonizadoras e o desafio de construir novas identidades. Entre os líderes pan-africanistas, Amílcar Cabral foi um dos que procurou pensar uma reafricanização dos espíritos que não excluísse a língua portuguesa, mas que, ao mesmo tempo, não reproduzisse relações de dominação.
Uma das dimensões que mais contribuiu para a afirmação da africanidade e alimentou o sonho de um novo futuro para o continente foi a literatura. Porém, a circulação de textos, histórias e ideias acontece através de hubs e redes.
A investigação de Noemi Alfieri destaca vários movimentos que foram fundamentais para que a literatura africana ganhasse projeção no continente e na diáspora.
A autora utiliza como estudo de caso três revistas que foram centrais para a circulação de ideias e para a construção de redes intelectuais no contexto da descolonização. A primeira é a revista Mensagem, editada em Lisboa a partir da década de 1950, que serviu de espaço de expressão à juventude angolana empenhada na luta cultural e política contra o colonialismo português. Os seus textos literários e ensaios procuravam afirmar uma identidade nacional e africana em oposição à dominação colonial.
A segunda é a revista Présence Africaine, criada em Paris em 1947, que rapidamente se tornou um polo fundamental de articulação do pensamento africano e da diáspora negra. Reunindo intelectuais de vários países, a revista combinava literatura, filosofia e política, promovendo simultaneamente a valorização da cultura africana e denunciando o racismo e o imperialismo. A sua localização em Paris dava-lhe grande alcance internacional, tornando-a uma referência incontornável do pensamento anticolonial.
O terceiro estudo de caso é a revista Black Orpheus, fundada em 1957 na Nigéria, que tinha como objetivo divulgar escritores africanos e afrodescendentes de língua inglesa. Destacou-se como espaço inovador de experimentação literária, fundamental para a consolidação da literatura africana moderna.
Ao analisar Mensagem, Présence Africaine e Black Orpheus, a Noemi Alfieri mostra como estas publicações foram veículos estratégicos na luta contra o colonialismo, na formação de redes intelectuais transnacionais e na afirmação de identidades culturais africanas.
Assim, recuperar o espírito destas publicações é, hoje, fundamental para o renascimento das literaturas africanas que, no século XX, serviram para redefinir a imagem que um continente tem de si próprio.





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