Era sábado, e eu e a minha esposa fomos convidados para um casamento. Não era daqueles luxuosos de hotéis à beira-mar ou quintas distantes; era no salão da zona, um espaço modesto, mas bem organizado. Notava-se, a cada detalhe, que o casal se tinha esforçado para além das suas posses, esticando o orçamento como capulana velha que ainda aguenta mais um nó.

Quando entrámos, fomos recebidos pelo cheiro de comida já a ferver nas panelas grandes ao fundo, pela música suave a tocar de colunas alugadas e pelas vozes dos familiares a fofocar. O salão estava bonito, limpo, digno. Não havia luxo, havia esforço. E esforço, quando é honesto, brilha mais do que ouro.

Sentámo-nos à nossa mesa, eu e a minha esposa, rodeados de alguns conhecidos e de parentes distantes do casal que só aparecem em dias de festa. Aos poucos, reparei num detalhe: havia mais pessoas do que cadeiras, mais corpos do que nomes no convite. Vários casais trouxeram crianças (algumas pequenas, outras já quase adolescentes) que não estavam contempladas. Vi primas distantes com filhos pela mão, vizinhas que talvez não tivessem sido convidadas, mas que se apresentaram como se o convite fosse herança colectiva. E, no meio disso, percebia-se um certo desconforto dos organizadores: cadeiras a serem acrescentadas à pressa, pratos a serem divididos, bebidas a sumirem-se antes do tempo.

Foi então que, na nossa mesa, começou a conversa.

— Já viste? — cochichou uma senhora, inclinando-se para o ouvido da minha esposa. — A prima da noiva trouxe três filhos. Três! Nem estavam convidados.

Um homem de fato cinzento, provavelmente tio do noivo, abanou a cabeça.

— Pois é. O casal fez as contas certas, mesa por mesa, prato por prato. Agora, com estes extras, têm de improvisar.

— Mas é tradição — atalhou outro. — Aqui, quando há festa, todos querem levar família. Não é por mal.

Eu não aguentei e entrei:

— Não é por mal, sim. Mas também não é por bem, se desvaloriza o sacrifício do casal. O convite é medida de carinho, não é muro de exclusão. Quando não respeitamos o número, não respeitamos o esforço.

A senhora de vestido de renda azul abanou a cabeça.

— Mas as crianças são inocentes. Que culpa têm elas? Querem apenas comer bolo, brincar, dançar um pouco.

— Culpa não têm — respondi. — Mas responsabilidade têm os pais. Se o casal não pôde incluir crianças, é porque tinha limites. Forçar entrada é como quebrar a porta de casa: não é festa, é invasão.

O tio do noivo pigarreou.

— Antigamente, as festas eram colectivas. O boi era abatido, as vizinhas cozinhavam, e toda a gente cabia. Hoje, querem pôr fronteiras até na alegria.

— Antigamente — retorqui —, as festas eram comunitárias, sim, mas também eram divididas em esforço. Todos contribuíam. Hoje, o casal paga quase tudo sozinho. Se não respeitamos convites, transformamos alegria em dívida.

O arroz chegou, o frango grelhado foi servido. Mas o diálogo continuava, mais temperado do que a comida.

— Mas não fica feio recusar criança à porta? — perguntou a senhora da renda.

— Fica mais feio empurrar a despesa ao casal — disse eu. — Cada criança a mais significa um prato a menos para alguém. Significa bolo mais fino, bebida dividida, lembrança que falta. Que memória fica para o casal, no dia que devia ser só de alegria?

Um primo distante, já com duas cervejas em cada mão, riu-se alto:

— Vocês complicam. Festa é festa. Quanto mais pessoas, mais alegria.

— Nem sempre — respondi. — Alegria sem medida vira confusão. É como panela: se pões mais água do que arroz, a comida fica sem sabor.

A minha esposa, sempre mais certeira do que eu, entrou na conversa:

— Temos também de pensar no que ensinamos às crianças. Se as levamos sem convite, mostramos que regras são opcionais. Crescem a achar que basta querer para entrar. Mas a vida não é assim.

As palavras dela caíram como chapada. Ninguém respondeu de imediato.

A senhora da renda tentou recuperar:

— Mas às vezes o coração fala mais alto. Não queres deixar os filhos em casa. Queres incluí-los.

— Incluir não é impor — respondi. — Incluir é perguntar antes, é negociar. Quando for a vez deles, também vão querer ordem, não caos.

O tio do noivo contou uma história:

— Lembro-me de um casamento na Beira. O casal calculou cento e cinquenta convidados. No dia apareceram duzentos e cinquenta. Houve confusão, houve choro. A noiva saiu a correr, envergonhada, porque a comida não chegava. Desde esse dia, prometi respeitar sempre convites.

— É isso — disse eu. — Convite não é luxo. É limite. E respeitar limite é respeitar amor.

Enquanto o casal fingia despreocupação na mesa de honra, pensei no que via. Cada detalhe na ornamentação era uma conta paga com sacrifício. Cada prato de arroz era resultado de noites sem dormir, a poupar. Não valorizar isso, levando mais pessoas do que foi pedido, era não enxergar o coração por detrás da festa.

— Sabem o que devíamos aprender? — perguntei, servindo um sumo. — Que casamento não é apenas palco de festa. É também aula de cidadania. Respeitar convite é respeitar afecto.

A avó da noiva, que até então tinha estado calada, falou com voz firme:

— O respeito começa no convite. Quem aceita, honra. Quem não respeita, estraga.

Todos se calaram. Até a música pareceu baixar o volume, como se prestasse atenção.

Mais tarde, ao cortar o bolo, vi o casal sorrir, cansado mas feliz. Mas eu sabia: por detrás do sorriso havia contas refeitas, lembranças improvisadas, cadeiras a mais.

Ao sair, de mãos dadas com a minha esposa, disse-lhe:

— O amor deles merecia ter sido protegido.

Ela respondeu:

— Talvez o amor seja também isso: aguentar invasões, mas não deixar de sorrir.

Concordei. Mas fiquei com a pergunta, que me acompanha ainda hoje: Quando é que, em Moçambique, vamos aprender que respeitar convites é respeitar afectos?

Imagem de freepic.diller no Freepik


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Uma resposta para “o casamento na zona”.

  1. Desrespeito mascarado de tradição, e enquanto não confrontarmos essa “tradição” com a verdade, de que a verdadeira festa não é a que tem mais pessoas, mas a que é mais autêntica e respeitosa, continuaremos a não entender que o amor não é um recurso infinito, ele pode ser esticado até o ponto de ruptura. E que nunca conseguiremos honrar o sacrifício e a generosidade de quem nos abriu as portas, e não apenas o salão da festa.
    Aprender a respeitar convites exige mais do que uma mudança de hábito, exige uma revolução de mentalidades.

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