Manhã de sábado, 9h50, um jovem dá passos lentos, com o rosto sorridente, a acenar com a cabeça, como quem aprova o gesto da multidão que se encontra no espaço minúsculo do café e recepção do Homecoming Center (The HCC). Enquanto o jovem de quem não saberemos o nome, ofuscado que estava o indivíduo pela tarefa de ordeiro, de quem alerta sobre o tempo e o fluxo dos acontecimentos, se movimenta, a pequena população composta sobretudo por jovens e mulheres, vai em direcção a uma porta, onde se escuta o tilintar dos dispositivos que lançam uma luz sobre pequenos pedaços de papéis ou ecrãs de telemóveis e automaticamente, de vermelho, passa-se à luz verde: está autorizada a entrada para o Star Theatre, um dos espaços do HCC. Vai começar mais uma sessão das conversas onde os saberes se confrontam, de forma descomplexada, mas sem ser levianas, com a profundidade que chega a ser o contraste destes tempos, onde há murais onde as verdades absolutas se espalham com a pressa dos boatos e da mentira.
É o Open Book Festival 2025 e a Cidade do Cabo está tomada por escritores, poetas, jornalistas, intelectuais, enfim, criativos de todos os géneros, ávidos por socializar, conversar, desanuviar, problematizar, atenuar e sobretudo, cultuar o conhecimento, experiência, talento e trabalho de quem escreve livros. E a cidade mais ao Ocidente da África do Sul de Mandela – a poucos metros de distância de The HCC haverá turistas que posam ao lado da sua estátua na varanda do edifício do município na Darling Street – é um ponto de convergência de sul-africanos de diferentes partes com a presença de criativos de Quénia, Nigéria, Zimbabwe, Namíbia. Entre os corredores ainda se encontram moçambicanos, um deles é o poeta Mbate Pedro.
O capítulo dos “sistemas” e a violência

Por quem os sinos dobram? É pelo início das sessões de conversas e todo o universo que se vislumbra a partir daí. O público sabia ao que ia. Quando eram 10 horas, sábado, as cadeiras do teatro completamente ocupadas, no palco já estavam posicionados, Edgar Pieterse, professor e director fundador do Centro Africano para as Cidades da Universidade da Cidade do Cabo, Rebecca Gore, advogada, escritora e pesquisadora do Centro de Direito e Sociedade, Adekeye Adebajo Pesquisador sénior na Universidade de Pretória, com a conversa a ser conduzida por Alexandra Dodd, escritora, editora e pesquisadora. O mote da conversa são os “sistemas herdados”, a herança do colonialismo que – ainda – marca as estruturas dos estados independentes, seja sob o ponto de vista jurídico, da organização social e cultural. Os três têm obras publicadas com reflexões exaustivas sobre a justiça, a violência, as sociedades, as cidades, enfim, a humanidade sob o ponto de vista da África do Sul, de África e do Sul-Global.
Como a violência, a segregação, a forma como as cidades foram edificadas, a educação (não)dada às pessoas, podem ser ainda o efeito da colonização de centenas de anos; mais ainda, como os países já independentes têm falhado na sua busca por um caminho próprio, agindo, nalgumas vezes, contra a violência com medidas agressivas, sem que se aprofunde as reais razões para os fenómenos, tendo em conta as realidades culturais das pessoas.
“As leis têm sido severas contra os criminosos, mas isso terá reduzido a existência da violência?”, essa foi a questão retórica de Rebecca Gore. No seu entendimento, o maior investimento tem de ser na prevenção contra o crime. É preciso ir fundo para compreender que o comportamento violento pode vir dos traumas, das feridas e de políticas públicas que resistem a adaptarem-se à realidade complexa das sociedades.
Para Edgar Pieterse é nas cidades onde as desigualdades e a exclusão social se reflecte, isto é, a forma como do passado colonial ao presente a disposição das pessoas, entre classes mais baixas e altas ou a forma como os ordenamentos territoriais não incluem a participação das pessoas, faz com que os verdadeiros anseios das populações não sejam ouvidos ou correspondidos.
Adekeye Adebajo, quando questionado sobre o futuro do continente, afirmou que o cenário global actual beneficia a China e o continente africano. Os chineses fizeram fortes investimentos nos países africanos nos últimos 20 anos. O momento que se segue, analisou o antigo director do Centro para Resolução de Conflitos (CCR, sigla inglesa), está do lado dos países africanos que terão de “negociar para obter vantagem e benefícios a nível económico e de segurança”.
O capítulo da poesia é do romance da confrontação

Domingo, meio-dia, o público troca o almoço por uma tertúlia com Tsitsi Dangarembga. Ao lado da escritora zimbabweana está a poeta Maneo Mohale quem escreveu estas palavras: war is a metaphor reserved for women, drugs and terror, mistakenly defanged invoked on anniversaries of violence, as if it’s only danger is on the page, or in the air. Estava sentada sem encostar na cadeira, que tinha caprichosamente pendurado um Keffiyeh, digo, o xaile que é símbolo de solidariedade, posicionamento e denúncia por Palestina. Só podia ser de uma mulher, essa que descobriu que Everything is a deathly flower, a poesia manifesto, que mostra que pode se combater com beleza.
Quando Tsitsi Dangarembga leu excerto de The book of not, o silêncio absoluto, interrompido por risos da própria autora, quando leu: ‘I still think Cape Town’s more fun than Durban’(…). ‘You’ve only got the beach in Durban. Cape Town’s got much more! In Cape Town you’ve got culture!’. Gargalhadas na plateia e a autora descobriu no que estava metida já muito tarde, declarara amor por Cape Town, em público. No final da leitura a conversa voltou a ficar séria, quando a autora revelou que o segundo livro da trilogia foi escrito num pós-trauma, depois da publicação de Nervous Conditions ter causado incómodo no Zimbabwe. Entretanto, é um livro que tinha de existir, para que a sua personagem, Tambudzai tivesse um destino que humilha seus detratores. “Essa é a mensagem para as mulheres negras, que as lutas podem ser vencidas (…), por isso coloquei as personagens numa condição forte, que se impõem”.
Talvez seja essa a essência desta edição de Open Book Festival, conferir um final feliz ao que é sofrido, doloroso, posto à margem, mas que está no pulsar das civilizações, a obra literária ou o espelho das sociedades, esse lugar para onde se volta para saber que afinal o futuro já está escrito, só não o conhece quem não lê.
O capítulo dos afectos e esperança

No final todos voltaram aonde tudo começa, o café e os estandes onde se encontram à venda os livros de cada autor presente no Open Book e onde se tornam visíveis projectos artísticos alternativos, que fazem diferença e promovem a cultura do livro e da leitura de formas criativas, permitindo que o livro se abra à mais pessoas.
A fila para autógrafos, os abraços, os encontros, de amigos e conhecidos que já há muito não se viam, dos novos laços que se criam, sebe-se lá se serão do dia a dia ou até ao próximo festival. E os escritores, esses têm sempre que autografar livros, conversar, se deixar fotografar, são os influnenciers dos bookreaders ou influenciados por quem nestes tempos, ainda prefere agarrar-se às páginas – ou mesmo ao livro digital – para que nenhuma história, nenhum poema, nenhuma verdade ou imaginação, apodreça no esquecimento.
No meio disso tudo está Mervyn Sloman, o director do festival, que circula entre as pessoas e que não se cansa de agradecer essa presença que dá vida ao evento. Aliás, neste ano, o público foi a alma do Open Book Festival, que precisou de contribuições de quem sabe que os festivais é que tornam viva a literatura, é que quebram a solidão do trabalho do escritor para o colocar o desafio de dizer mais do que escreve, mostrar-se humano entre meros mortais que acreditam no que ele faz, mesmo quando à priori já disse não passar de uma imaginação ou invenção – ou ficção, como queiram.





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