A conferência propõe-se como um espaço de reflexão crítica e multidisciplinar sobre o futuro urbano em África, com foco particular na cidade de Maputo. Num contexto marcado por urbanização acelerada, crises climáticas, desigualdade social e revoluções tecnológicas, os desafios urbanos vão além da infraestrutura física, tocando directamente questões como identidade cultural, memória colectiva, direito à cidade, e justiça social. Diante deste cenário, torna-se urgente (re)pensar os modos de viver, governar e preservar as cidades, colocando a cultura, o património cultural e a inovação no centro das estratégias urbanas.
A nível global, a cultura tem vindo a ser reconhecida como um vector transversal para o desenvolvimento sustentável das cidades. O Objectivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 11 da Agenda 2030 das Nações Unidas “Tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis” sublinha também na sua meta 11.4 a importância da preservação do património cultural e natural como parte essencial das políticas urbanas.
A Declaração da MONDIACULT 2022, organizada pela UNESCO, reafirma que a cultura é um bem público global e deve ser integrada de forma sistemática nos planos de desenvolvimento urbano, reforçando a coesão social, a diversidade e a justiça climática. Também o Pacto para o Futuro, liderado pela ONU, aponta para a urgência de abordagens mais humanas e regenerativas para as cidades, fundamentadas em valores culturais, memória histórica e participação cidadã.
Neste contexto, a Recomendação de 2011 sobre a Paisagem Urbana Histórica (HUL) orienta a integração do património nas políticas de urbanismo contemporâneo, propondo a sua valorização como referência para pensar Maputo de forma mais ampla, conectando tradição, inovação e sustentabilidade. Da mesma forma, a Convenção da UNESCO de 2003 para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial destaca a importância de proteger as expressões culturais vivas, orientando a sua implementação em contextos urbanos como forma de reforçar a identidade local, promover a participação comunitária e assegurar a transmissão intergeracional do conhecimento.
A Rede de Cidades Criativas da UNESCO constitui um exemplo de cooperação global entre centros urbanos que colocam a cultura no centro das suas estratégias de crescimento. Por fim, instrumentos como Culture|2030 Indicators oferecem uma estrutura para medir o impacto da cultura em dimensões como ambiente e resiliência, prosperidade e meios de subsistência, conhecimento e competências, inclusão e participação sublinhando a importância de soluções adaptadas às especificidades culturais de cada território.
Enquadramento Regional: África, urbanização e centralidade da cultura
O continente africano atravessa uma profunda transição urbana. Estima-se que, até 2050, a população urbana em África duplique, tornando-se a região com o ritmo de urbanização mais rápido do mundo. Neste cenário, a cultura e o património cultural não devem ser vistos como obstáculos ao progresso, mas sim como alavancas estratégicas para a criação de cidades mais inclusivas, resilientes e sustentáveis.
A Agenda 2063 da União Africana reconhece o papel das indústrias culturais e criativas no fortalecimento da identidade africana e no crescimento económico das cidades. Em consonância com esta visão, o Plano de Acção para as Indústrias Culturais e Criativas da UA defende uma abordagem intersectorial, onde a cultura contribui de forma significativa para a transformação digital, a inovação urbana e o bem-estar social.
Contudo, o legado colonial, as desigualdades estruturais e os efeitos das mudanças climáticas impõem desafios adicionais às cidades africanas, exigindo políticas urbanas integradas, enraizadas nas realidades locais e sustentadas por cooperação regional e internacional.
Moçambique e Maputo: Entre o potencial e a urgência de transformação

Em Moçambique, e especialmente na cidade de Maputo, estes desafios tornam-se particularmente visíveis e urgentes. A capital moçambicana possui um valioso património arquitectónico, cultural e simbólico, resultante de múltiplas camadas históricas que vão desde a tradição oral, memória colonial à resistência cultural.
Todavia, o crescimento urbano informal, a desigualdade de acesso à mobilidade e aos serviços públicos, a degradação dos locais históricos e a exclusão digital representam entraves à construção de uma cidade verdadeiramente inclusiva. A pressão sobre o espaço público e a carência de políticas integradas agravam o risco de fragmentação urbana e de perda da identidade cultural.
Nesse sentido, a recente aprovação da Postura Municipal sobre Protecção, Valorização e Gestão do Património Cultural da Cidade de Maputo constitui um marco importante na relevante consolidação de uma estrutura legal para a preservação urbana. Aliada à Política Nacional de Urbanização e ao apoio técnico da UN-Habitat Moçambique, abre-se uma oportunidade concreta para avançar rumo a modelos de desenvolvimento mais equilibrados e centrados nas pessoas.
Maputo tem ainda iniciado experiências de inovação tecnológica, como a digitalização de arquivos e a introdução de experiências interativas em museus. No entanto, essas iniciativas ainda carecem de uma visão estratégica de longo prazo, com investimento adequado, formação técnica e diálogo interinstitucional sólido.
Conferência Cidades do Futuro na Era Digital: Diálogos sobre Cultura, Património e Transformação Digital
Num contexto em que coexistem um rico património histórico e cultural sob pressão devido ao crescimento urbano informal, a mobilidade precária e das desigualdades de acesso, esta conferência constitui uma oportunidade singular para repensar as cidades como espaços vivos de memória, criatividade e transformação social.
Ao integrar arquitectura, urbanismo, mobilidade, tecnologia e políticas culturais, o encontro propõe-se a fomentar o diálogo entre áreas frequentemente tratadas de forma fragmentada, mas que são interdependentes no processo de construção de cidades verdadeiramente resilientes.
Temas emergentes como o uso da Inteligência Artificial (IA) e Realidade Aumentada (AR) em museus e espaços patrimoniais, abrem novas possibilidades para a interactividade, educação e acessibilidade cultural, sobretudo entre os jovens e os públicos marginalizados. A mobilidade urbana será igualmente abordada como uma questão central, tendo em conta os desafios significativos enfrentados por Maputo nessa área, desafios que impactam directamente o acesso ao espaço público, à cultura e aos direitos de cidadania.
A conferência irá explorar soluções sustentáveis, desde infraestruturas inteligentes até modelos de mobilidade culturalmente sensíveis, capazes de responder às necessidades de uma cidade em acelerado crescimento. Ao articular essas dimensões, o encontro pretende promover um debate multidisciplinar, informado com o objectivo de inspirar e contribuir para formulação de soluções urbanas inovadoras. O evento também visa valorizar o património cultural como um activo para o desenvolvimento e fomentar a criação de redes de colaboração projectando um futuro urbano marcado pela criatividade, equidade e dignidade.
A cultura e o património, muitas vezes encarados como elementos do passado, emergem hoje como recursos estratégicos para repensar o futuro das cidades. Em contextos como de Maputo, rico em diversidade cultural, memória arquitectónica e saberes comunitários, a tensão entre preservação e inovação exige uma reflexão urgente e aprofundada. Esta conferência propõe, assim, um diálogo entre os saberes locais e as agendas globais, integrando múltiplas perspectivas sobre transformação digital, mobilidade urbana, arquitectura sustentável e políticas públicas culturais.
A conferência posiciona-se como uma plataforma de diálogo interdisciplinar e multisectorial, orientada para pensar, de forma integrada, os caminhos possíveis rumo a um futuro urbano sustentável em Maputo. A conferência será, por fim, uma plataforma de reflexão sobre como a urbanização, a mobilidade e a digitalização podem ser colocadas ao serviço da construção de cidades mais inclusivas, acessíveis e sustentáveis, sem comprometer a memória e a identidade cultural.
Texto de curadoria
Fotografia de destaque: Foto de SINAL Multimédia





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