No centro de um festival literário está o livro, o escritor e o leitor. Mas quem realmente move a máquina é o editor e as editoras. É neles que está o trabalho de descobrir, resolver os sempre existentes problemas nos textos originais entregues pelo escritor, são eles que vivem os dilemas entre o comercialmente viável e o valor do conteúdo, assumem o risco de publicar para depois “ver o que acontece”.

Encontrei a editora nigeriana Bibi Bakare-Yusuf depois da conversa com o tema “Criar em África” no Open Book Festival, a 6 de Setembro na Cidade do Cabo. Dia antes ela já tinha estado a falado sobre o pan-africanismo e o atlático negro num encontro com um dos mais activos intelectuais africanos, o professor Adekeye Adebajo e a poetia e activista Maneo Mohale. Sobre criar em África estava com o escritor namibiano Rémy Ngamije e o jornalista queniano James Murua.

A realidade de boa parte dos países africanos é de escassez e precariedade no que diz respeito ao livro. Para começar o próprio acesso de obras literárias nas sociedades, os espaços onde o livro habita e ganha vida entrando em contacto com as pessoas não são tidos em conta nos projectos de desenvolvimento ou urbanismo. E quando a questão chega aos que assumem o livro como trabalho, fonte de renda e até como um serviço público pela preservação das culturas, memórias, conhecimento e lazer, as coisas complicam-se ainda mais. Escrever, editar e publicar livros em África é um “acto de fé”, nas palavras de Bibi Bakare-Yussuf. Dado o salto de fé, outras barreiras se colocam se se pensar o continente no seu todo.

“O desafio é fazer com que as pessoas pensem que podem escrever, que podem se envolver com essas palavras escritas,  que podem envolver-se com estas palavras escritas, sendo capazes de ter essas histórias uma editadas, uma vez publicadas, poderem circular dentro do país e além fronteiras africanas”.

A realidade mostra que para os países a circulação do livro é um grande obstáculo na missão de encontrar leitores para a literatura africana. Por outro lado as fronteiras entre países, sejam físicas ou linguísticas, criam obstáculos para que entre africanos nos possamos ler uns aos outros.

“Para mim, os primeiros leitores dos escritores africanos devem ser os próprios africanos, e os africanos devem ser capazes de ler uns aos outros, apesar das nossas diferenças. Por isso, precisamos… Estou sempre a pensar e o que me mantém acordado à noite é como fazer com que o nosso livro seja publicado na Nigéria, como chegar à África do Sul, como chegar a Gana, como chegar a Luanda, como fazer essas travessias de fronteira da maneira certa? Sem que tenha de passar por Londres, Nova Iorque ou Paris. É tão importante que tentemos encontrar maneiras e é aqui que precisamos de apoiar e construir centros editoriais nas nossas diferentes localizações africanas, para que possamos vender direitos, por exemplo, a alguém em Moçambique que possa terminar a tradução para português para o público moçambicano e vice-versa noutras localizações africanas, quer esteja num país pequeno ou num país grande” afirma Bibi Bakare-Yusuf.

A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura alerta em relatório publicado recentemente que a indústria editorial africana tem o potencial de crescimento retardado por desafios como um grande défice comercial, acesso limitado a livros e estruturas jurídicas fracas. As oportunidades de crescimento, segundo a UNESCO, residem no reforço das estruturas políticas e jurídicas, no investimento na edição nacional, na utilização de plataformas digitais para uma distribuição mais ampla e acesso a formatos emergentes, como os e-books, na promoção do talento literário local e no aumento da participação no lucrativo setor da edição educacional. 

O cenário é conhecido por quem vive e trabalha com o livro.

Bibi Bakare-Yusuf tem 20 anos de experiência como editora e co-fundadora da Cassava Republic Press na Nigéria.

VEJA A ENTREVISTA COMPLETA COM BIBI BAKARE-YUSUF


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