Uma hora da madrugada. Devia estar na cama, entregue ao descanso, mas os caminhos ínvios da vida conduziram-me até aquela porta. Quando a empurrei, o ar agreste da palhota agarrou-me ao peito.
Dentro, a vida e a morte repartiam o mesmo espaço: frascos alinhados continham raízes ressequidas, fórmulas fitoterápicas, pós e líquidos que perfumavam o ar com cheiro amargo. A fumaça do incenso rodopiava lenta, colando-se as paredes e à minha pele, enquanto o rapé espalhado pela esteira subia-me às narinas antes mesmo de o tocar.
Entre as traves… não sei bem como dizer… havia animais pendurados, pareciam macacos, hienas, corujas — qualquer coisa próxima disso. A pele brilhava, o sangue parecia ainda quente. Custava-me olhar, era como se a morte tivesse ocorrido há apenas um instante. Por um momento, a ideia de recuar atravessou-me, mas ainda havia caminhos por descobrir e desejos por saciar.
O velho Matchosse já me esperava, sentado sobre a esteira, convidou-me com um gesto a tomar o meu lugar. Trazia uma peruca de fibras que lhe cobria parte do rosto, um pano vermelho atado à cintura e colares de contas e conchas que lhe desciam pelo peito e tilintavam a cada movimento.
Diante de nós, sobre a esteira, repousavam uma lâmina, uma agulha e uma boneca de pano. Não sei bem como explicar, enquanto os banhos caíam sobre mim, um arrepio eléctrico subia-me pela espinha. O calor fervia e tudo se torcia, entre o medo e o desejo meu corpo tremia.
Enquanto isso, o velho Matchosse suspendia as mãos em gestos medonhos, traçando no ar sinais que eu mal compreendia. A cada palavra dita, o espaço parecia estremecer. Recordo-me da pena de galinha, encharcada de sangue fresco, que deslizava pela minha pele como se espalhasse mussiro: deixando-me macio, quase renovado, como o rosto das mulheres que brilha após a máscara. Nesse instante ouvi-o, dizer em swahili: “Kila kitu kitazidishwa” — tudo será multiplicado.
Depois, ergueu os olhos para mim e acrescentou: não mais serás Gentil, chamar-te-ão Utajiri, riqueza que chama riqueza.
Quando tudo terminou, o velho soltou a voz rouca e chamou por Naja. Entrou na palhota uma rapariga de pouca altura, pele negra que parecia reluzir à luz da candeia, corpo de curvas que fariam qualquer homem perder-se num abismo de desejos.
Trazia um saco pesado, que depositou nas mãos de Matchosse. Ele proferiu mais algumas palavras na sua língua incompreensível, depois inclinou-se e devolveu-lho com um aceno breve. So então virou-se para mim e disse:
— Leva-a contigo.
— Quem?
Perguntei, mas nada respondeu.
De imediato a rapariga aproximou-se, pegou de novo no saco e estendeu-mo cabisbaixa .
— Alimente-a todos os dias, quando a sombra do sol se alongar— disse ele.
Dentro do saco, algo parecia consentir as suas palavras.
Por um instante, o coração disparou, a confusão tomou-me:
— Espera aí… quem é a Naja?
Entrei em delírio. Senti o corpo tremer como se a alma quisesse fugir outra vez. Mas logo me obriguei a acalmar.
Quando saí da cabana eram já 5h. No coração do verão, o dia não demora a despertar. A aurora despontava, como se o sol tivesse pressa de inundar o horizonte de luz. As ruas, no entanto, já se movimentavam: homens e mulheres madrugavam para apanhar os primeiros transportes, como se a vida lhes fosse medida pelo compasso dos chapas.
Cheguei a casa exausto, com a alma enclausurada na lembrança do que vivera. Abri a porta do quarto e, antes de mexer no saco, empurrei um prato para debaixo da cama. Com recurso a uma faca, cortei a corda que amarrava a boca do saco.
O tecido cedeu devagar, e o que vi fez-me recuar meio passo. Não acreditei: uma naja, imensa, capaz de engolir-me por inteiro, o corpo deslizava em espirais, a medida que o saco se soltava. A última vez que vi algo parecido foi na televisão, quando a CTV passava o filme Anaconda. Agora, porém, não era ficção, mas sim veneno destilado a brilhar naqueles olhos fixos em mim.
Mas nada podia temer.
O mundo exige sempre uma condescendência estranha, aceitamos o perigo em troca de poder, alimentamos monstros só porque nos oferecem a ilusão de grandeza.
Mas a única riqueza que adquiri foram as noites mal dormidas, brindes de maus sonhos que se sucederam. Perdi clientes no negócio, contratos evaporaram-se sem aviso, e o carro, metáfora de todos os meus avanços, passou a viver mais na oficina do que na estrada, sempre a tossir avarias.
Há onze anos que a minha mãe morreu num acidente, e numa dessas noites ela voltou em sonho: a voz era a mesma que me embalava, suave, chamando-me com carinho para desfazer toda essa merda.
Acordei com o coração a martelar, já sabendo para onde os meus pés me levariam. Organizei-me rapidamente. Peguei no cigarro, levei-o à boca e acendi o fósforo. Puxei a primeira fumaça, queimei-me a garganta e e senti o fumo a espalhar-se pelo peito. Terminado, saí e esmaguei a ponta do cigarro com o pé.
Com o saco às costas, caminhei pelas ruas, rumo à palhota do velho Matchosse.
Chegado lá ele não se surpreendeu com a minha presença. Enquanto a confusão pairava na cabeça, porque nada brotava, nada se curvava, o velho percorreu o saco com o olhar. Inclinou o corpo sobre instrumentos, e fez-me perceber que a naja que me fora dada era um macho. E, só uma fêmea poderia gerar a ligação necessária para que tudo florescesse.
Entrei em desespero. Ele ofereceu-se a refazer tudo, desta vez sem pagamento, como se a própria desgraça fosse uma dívida.
Recusei. Não queria saber de mais nada. Dei meia-volta e saí, levando comigo apenas o sabor amargo dos venenos da prosperidade.





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