Por Amosse Mucavele
Figura incontornável da cultura são-tomense e lusófona, João Carlos Silva tem sido, ao longo das últimas décadas, um dos grandes embaixadores do seu país no mundo. Entre a arte, a gastronomia, o associativismo, a gestão cultural e a curadoria, construiu um percurso marcado pela inovação e pelo diálogo entre tradição e contemporaneidade. A partir do Centro Cultural Cacau, a Roça Água Izé até a Roça São João dos Angolares, espaços que transformou em pólos de criação e resistência cultural, tem promovido encontros entre artistas, cientistas, activistas e comunidades.
Agora, no contexto das celebrações dos 50 anos da Independência de São Tomé e Príncipe, João Carlos Silva lança um novo desafio: o Festival das Ilhas do Mundo – Fim do Mundo. Um evento que não se limita à festa, mas que se afirma como plataforma de reflexão global sobre cultura, sustentabilidade, património e futuro das ilhas.
Nesta entrevista, João Carlos Silva partilha a génese da ideia, os desafios da sua concretização, e o papel transformador que a arte, a ciência e o activismo podem desempenhar na construção de novos horizontes para São Tomé e para o mundo.
Como nasceu a ideia do Festival das Ilhas do Mundo – Fim do Mundo e o que representa este evento para São Tomé e Príncipe, especialmente no contexto dos 50 anos da Independência?
A ideia nasceu da necessidade de criar um espaço de encontro entre as ilhas do mundo, colocando São Tomé e Príncipe no centro de uma reflexão global sobre cultura, sustentabilidade e futuro. Integrado nas comemorações dos 50 anos da Independência, o festival representa a celebração da nossa identidade, mas também a afirmação de um compromisso com as novas gerações: pensar soluções para os desafios climáticos e valorizar os patrimónios culturais e naturais que herdámos.
O nome “Fim do Mundo” pode soar provocador. Qual é o simbolismo por detrás dessa escolha?
É uma provocação poética. São Tomé e Príncipe foi muitas vezes descrito como “o fim do mundo”, mas para nós esse fim é também um recomeço, um lugar de criação e resistência. O título remete para a urgência climática global, mas também para a esperança que as ilhas podem simbolizar: faróis que inspiram novos caminhos.
Sendo o primeiro festival do género no arquipélago, que desafios e oportunidades surgiram na sua concepção e planeamento?
Os desafios foram muitos: desde a logística de acolher delegações internacionais até à coordenação entre instituições públicas, privadas e sociedade civil. Mas as oportunidades superam: conseguimos criar uma rede inédita de diálogo entre artistas, cientistas, ativistas e comunidades locais.

O festival propõe um diálogo entre arte, biodiversidade, ciência e activismo. Como vê esta confluência de disciplinas na construção de um futuro sustentável para as ilhas?
Acredito que só com esta confluência conseguimos inspirar mudança real. A ciência traz o conhecimento, a arte traz a sensibilidade e o ativismo traz a acção. Juntas, estas dimensões criam narrativas capazes de mobilizar consciências e transformar práticas.
O ciclo de conferências “Alterações Climáticas e o Papel das Ilhas” é um dos pilares do festival. Que impacto espera que este debate interdisciplinar tenha na formulação de políticas públicas nos territórios insulares?
O nosso objetivo é que as conclusões possam influenciar agendas políticas locais, regionais e internacionais. Pretendemos produzir recomendações práticas que possam ser úteis para governos, mas também para comunidades, porque a resiliência às alterações climáticas deve ser construída em múltiplos níveis.
A participação de ilhas de diferentes partes do mundo cria uma rede de cooperação internacional. Que sinergias ou colaborações concretas espera ver emergir dessas trocas?
Esperamos projectos conjuntos em áreas como energias renováveis, preservação da biodiversidade, turismo sustentável e circulação artística. Esta rede pode gerar um capital de conhecimento partilhado e abrir novas oportunidades de cooperação entre ilhas geograficamente distantes, mas com desafios comuns.
A arte é central no festival, com destaque para o evento “Curar o Mundo Através das Artes”. Em que medida acredita que a arte pode ser agente de transformação ambiental e social?
A arte tem a capacidade de sensibilizar de forma profunda e duradoura. Uma obra pode despertar consciências, questionar modelos de consumo e propor novos modos de relação com a natureza. É por isso que acreditamos que “curar o mundo” passa também pelas artes.
Pode falar-nos do papel da gastronomia no festival, nomeadamente através da iniciativa “Comer o Mundo”?
A gastronomia é uma forma de cultura e também de sustentabilidade. Através do “Comer o Mundo” queremos mostrar como a alimentação pode ser uma prática consciente, ligada à terra, ao mar e às tradições locais. Comer é também um ato político e cultural.

O exercício de pensamento com escolas inspirado em Ideias para Adiar o Fim do Mundo, de Ailton Krenak, envolveu crianças e jovens. Que reflexões mais marcaram este processo educativo?
Infelizmente, o Ailton Krenak não pôde comparecer e acabámos por não executar essa parte exactamente como previsto. No entanto, realizámos uma encenação com artistas, que deixou a semente de uma iniciativa mais ampla a concretizar na XI Bienal de São Tomé e Príncipe, muito ligada ao mesmo espírito. Esperamos, nessa ocasião, conseguir finalmente trazer o Ailton e dar continuidade a este exercício com a força e a dimensão que merece.
A Roça São João dos Angolares tem uma ligação pessoal consigo. Que significado tem ver este lugar integrado no festival?
É um orgulho e também um ponto de partida. A Roça São João é um espaço de resistência cultural e de inovação gastronómica. Integrá-la no festival é reconhecer o papel que os lugares de memória podem ter na criação de futuros. Além disso, o facto de a Roça São João ter sido recentemente integrada na lista de candidatura a Património da UNESCO dá ainda maior sentido a esta celebração, reforçando o seu valor como bem cultural de importância universal.
O Festival contribui também para o fortalecimento do Laboratório Experimental do Meio do Mundo. Pode partilhar os objetivos deste laboratório?
O Laboratório é um espaço de experimentação e investigação dedicado à sustentabilidade. Queremos que seja um ponto de encontro para projetos de reciclagem, agricultura biológica, artes e ciência aplicada ao território. É uma semente para futuros ecológicos.

Ao promover o reconhecimento do Príncipe como Património Mundial da UNESCO, o festival reforça uma dimensão identitária. Como conjugar a valorização do passado com a urgência do futuro?
O passado dá-nos raízes, o futuro exige-nos asas. Valorizar o património não é cristalizá-lo, é projectá-lo para o futuro, encontrando nele inspiração para enfrentar as urgências climáticas e sociais que já batem à porta.
Qual a sua visão para as próximas edições? Há planos para torná-lo bienal ou itinerante?
A ambição é que seja bienal e que continue a crescer como espaço de diálogo internacional. A possibilidade de edições itinerantes, noutros arquipélagos, está em cima da mesa.
Que mensagem gostaria de deixar aos participantes e público sobre o espírito do festival?
Gostaria de dizer que este festival é uma celebração da vida e da esperança. É um convite à partilha, ao diálogo e à ação. O verdadeiro espírito do festival é acreditar que as ilhas podem ser lugares de futuro, e não de fim.
O que falha para o estreitamento de parcerias entre Moçambique e São Tomé?
Talvez falte maior institucionalização de pontes culturais e científicas. Há afinidades históricas e culturais enormes, mas precisamos de criar mecanismos regulares de intercâmbio, desde residências artísticas a programas educativos. O festival pode ser uma oportunidade para dar esse passo.





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