Ouvi há dias um excerto de um podcast onde o Jay Argh dizia algo que ficou a bater na minha head, tipo:

“Antigamente, na idade em que muitos adolescentes estão hoje, não precisávamos de dinheiro… ou, pelo menos, não de tanto”.

E é verdade. Estávamos satisfeitos se tivéssemos umas moedas para comprar amendoim torrado, sentado no murro alto que protegia o pelado do pavilhão do Estrela Vermelha, assistindo BEBEC, ou nos cinemas caseiros do mítico bairro da Mafalala. O nosso luxo era gelinho, ou, vezes acontecia que conseguíamos um pão e badjia, mastigados sem pressa, no chão de um passeio qualquer.

Hoje, tudo mudou…

A adolescência parece ter ganho custos de manutenção equivalentes aos de um pequeno negócio. Vejo miúdos de dezasseis, dezassete anos, com a vida corrida. Há quem precise de dinheiro para “umas cenas” que, na prática, são para saídas em grupo aos domingos, almoços em restaurantes na marginal, viagens de fim-de-semana e roupas novas “para um conteúdo do TikTok”. É uma geração que mede o afecto em transferências instantâneas. E os pais, cansados e pressionados, cedem.

Foi essa reflexão que me acompanhava quando soube do caso da Tassy, uma adolescente de dezasseis anos, filha de dois professores, desses que ainda acreditam que a educação é herança mais valiosa do que qualquer herança material. A Tassy discutia com os pais porque queria viajar para Chidenguele, num fim-de-semana longo, com o grupo da escola. A colega anfitriã tinha pais “de posse” e alugara um resort inteiro para a celebração. O custo: cinco mil meticais por pessoa. Quando a mãe lhe disse que não podia ir, Tassy quase virou outra pessoa.

— Mamã, é o evento do ano! — gritou, a voz a entre raiva e desespero. — Todos vão! Mamã quer que eu seja a única excluída?

O pai, que até então tentava manter a serenidade, retirou os óculos.

— Filha, cinco mil meticais é quase metade do nosso salário. E tu queres gastar isso num fim-de-semana?

— Mas não é só uma viagem! — respondeu Tassy, agitada. — É a festa dos caloiros. Tenho de interagir, criar imagem, ter presença!

A mãe olhou-o, incrédula.

— Presença? Tu precisas de estudar, filha. Não começaste muito bem…

A miúda encolheu os ombros.

— É que a escola já não é o centro de tudo, mamã. Hoje há muita coisa a gerir: tenho a página no TikTok, tenho de fazer vídeos, aprender as trends, trabalhar a minha marca.

O pai levantou-se, com um ar que misturava tristeza e cansaço.

— Marca? Tu és pessoa, Tassy, não és produto.

Mas a miúda insistia.

— Papá, o mundo mudou. Se eu não aparecer, desapareço. As oportunidades estão na visibilidade.

A mãe respondeu, em voz baixa:

— E o teu futuro está a perder-se nessa visibilidade toda.

O silêncio que se seguiu foi duro. O pai passou as mãos pelo rosto e, num tom quase resignado, disse:

— Filha, nós também já tivemos dezasseis anos. Só que os nossos problemas eram outros. Queríamos passar de classe, queríamos arranjar sapatos novos, queríamos talvez um televisor novo para o final de ano. Mas nunca precisamos de tanto para existir.

Tassy respondeu com sarcasmo:

— Pois, mas naquele tempo não havia internet, nem redes, nem expectativas. Hoje se não tens, não és.

A frase ficou ali, entre eles, como lâmina.

A mãe levantou-se, foi até à cozinha, e voltou com os recipientes de almoço.

— Vamos almoçar.

— Não quero — respondeu ela, empurrando o prato. — Não tenho apetite.

— Claro — disse o pai —, estás cheia de orgulho, filha. E orgulho também enche.

Ela suspirou.

— Eu e o teu pai somos professores, Tassy. Trabalhamos há mais de vinte anos. Nunca passámos fome, nunca deixámos faltar escola. Mas não temos resortes, nem carros de luxo, nem viagens. Damos-te o que temos, e é o suficiente para viver.

— Viver? — perguntou Tassy. — Ou sobreviver?

A mãe olhou-a, ferida.

— A diferença entre as duas, filho, é que quem vive de verdade aprende a contentar-se com o essencial. Quem quer sempre mais, nunca vive — apenas corre.

O pai acrescentou:

— E há quem morra nessa corrida.

Tassy desviou o olhar, talvez por vergonha, talvez por convicção.

Agora, que escrevo esta crónica, e penso em como a adolescência tornou-se um campo de competição social. Antigamente, o valor de um “puto” media-se pelas notas, pelo respeito, pela educação. Hoje, mede-se pelo smartphone, pelo número de seguidores, pelo estilo de vida que se mostra, e que, quase sempre, é financiado por pais exaustos, emocionalmente e financeiramente.

Dias depois, encontrei o pai da Tassy. Parecia abatido.

— Sabe, Negro, às vezes sinto que estamos a perder a guerra — disse-me. — Tentamos ensinar o que é certo, mas o mundo grita mais alto.

Perguntei-lhe se a filha fora à viagem.

— Não — respondeu, suspirando. — Chorou, gritou, ameaçou sair de casa, mas não foi. E, no fim, os colegas foram, gastaram o dinheiro, filmaram tudo, publicaram nas redes, e dois dias depois já ninguém falava disso.

— E ela? — perguntei.

— Está em casa, calada. Anda aborrecida, mas sinto que está a pensar.

A mãe juntou-se a nós.

— Ela disse-me ontem que sente que não pertence a lado nenhum. Disse-me que se sente invisível.

O pai comentou, em voz baixa:

— E nós, às vezes, também nos sentimos invisíveis para ela.

No domingo seguinte, fui visitá-los. Tassy estava sentada no quintal, com celular na mão, a deslizar o ecrã com os olhos vazios. A mãe lavava roupa, o pai cuidava do jardim. Sentei-me no quintal aberto.

— Tassy — disse o pai —, sabes o que mais me assusta? É veres o mundo inteiro no ecrã, e não veres quem está ao teu lado.

Esta não respondeu. Continuou a mexer no celular. A mãe aproximou-se.

— Filha, olha um pouco para nós. O teu pai e eu não temos muito, mas o que temos é verdadeiro. Não é para publicar, é para viver.

— Mas ninguém quer ver isso, mamã — murmurou a miúda. — Não é isso que dá likes.

— E o que dá paz? — perguntou ela. — Já procuraste?

Ela levantou os olhos, e pela primeira vez hesitou.

— Não sei.

— Então começa por aí — disse o pai. — Procura o que te dá paz, não o que te dá likes.

O silêncio que se seguiu foi o primeiro realmente sereno que vi naquela casa.

Umas semanas depois, passei pela casa da Tassy. Encontrei-a com o pai no alpendre, a conversar. A adolescente parecia mais calmo.

— Decidi fazer uma pausa das redes — disse ela, sem olhar para mim. — Só uma semana.

O pai sorriu.

— Uma semana é um bom começo.

— E percebi — continuou Tassy — que não preciso de tanto dinheiro assim. Às vezes só quero tempo convosco.

A mãe, que vinha da cozinha, ouviu e sorriu.

— Tempo é a única coisa que temos e que, mesmo assim, deixamos fugir.

Ficámos ali, a falar de coisas aleatórias, enquanto o sol se punha. E eu pensei que talvez ainda haja esperança. Mas a esperança, como tudo o que é vivo, precisa de alimento. E o alimento da esperança chama-se presença.

Hoje, quando volto a ouvir jovens a dizer que “precisam” de cinco mil meticais para fazer umas cenas, lembro-me de Tassy e dos seus pais. Lembro-me de que o problema não é o dinheiro, é a medida. Medimos tudo por dinheiro e esquecemo-nos de medir o essencial: o tempo, a palavra, o olhar. Os pais precisam de reaprender a dizer “não” com firmeza e amor, e os filhos precisam de reaprender a ouvir sem achar que é castigo.

Vivemos numa época em que os adolescentes têm acesso a tudo, excepto a limites. E limites não são muros: são sinais de direcção. Os pais de Tassy não lhe negaram a viagem por mesquinhez; negaram porque sabem que o mundo lá fora pode engolir quem ainda não sabe quem é.

Fotografia Freepik


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Uma resposta para “não são maningue cenas…”.

  1. Na penumbra das nossas falhas, erguemos um altar de objectos e permissões, a vã tentativa de compensar o vazio das nossas ausências com a ilusória plenitude do material e do fácil. É o velho refrão, sussurrado como justificação: “estou a dar o que me faltou.” Mas, nesta generosidade cega, reside uma armadilha sutil. Ao pavimentar o caminho com facilidades, e ao recusar a firmeza do “não”, negamos-lhes o mapa mais crucial: os limites que definem o carácter, a frustração que ensina a perseverança, e a vida real que é, por essência, feita de perdas e conquistas arduamente negociadas. E assim, na ânsia de curar as nossas próprias feridas, criamos casulos de cristal, preparando-os não para o voo, mas para a inevitável e dolorosa queda na rudeza do mundo.

    Navegar nestas reflexões é terapêutico. Parabéns Negro

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