Por Amosse Mucavele*

Num país onde fazer cinema ainda é um exercício de resistência, o KUGOMA – Fórum de Cinema de Moçambique – chega realizou a sua 15ª edição em 2025, celebrando uma trajectória marcada por persistência, criatividade e compromisso com a democratização do cinema.

Nascido nos bairros periféricos de Maputo, o festival atravessou desafios, desde a escassez de espaços de exibição, de financiamento à ausência de políticas públicas para o sector e consolidou-se como o mais longevo do país.

Mais do que uma mostra de filmes, o KUGOMA transformou-se num espaço de formação, encontro e projecção para o cinema moçambicano e lusófono, conectando comunidades, realizadores e públicos diversos. Após uma pausa forçada em 2024, o festival regressa com força, reafirmando seu papel essencial no ecossistema cultural do país.

O que significa para si chegar à 15ª edição do KUGOMA?

Chegar à 15ª edição representa um verdadeiro recomeço. Após a pausa em 2024 por falta de financiamento, regressar com força é uma vitória e é como voltar a respirar depois de um mergulho profundo. Somos o festival mais longevo do país, e mesmo sem apoios financeiros em algumas edições, mantivemos o compromisso com o cinema e seguimos em frente.

Quais foram os maiores marcos ou transformações do festival nesta edição?

O KUGOMA começou nos bairros, democratizando o acesso ao cinema. Evoluímos para salas convencionais, e em 2020, com a pandemia, tornamo-nos híbridos fazendo assim exibições presenciais e online. Este ano, voltámos aos bairros (Mafalala, no Museu Mafalala, Polana Caniço, no espaço Makhalls’arte”) e expandimos para a cidade da Beira, marcando presença em duas salas, na Casa do Artista e na Solange beach. Em poucas palavras diria que a descentralização e a digitalização foram marcos transformadores.

Como vê o papel do KUGOMA no fortalecimento da “indústria” e cultura cinematográfica em Moçambique e nos PALOP?

Somos uma ponte entre criadores lusófonos. KUGOMA é um espaço de difusão, intercâmbio e construção de mercado entre os PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa), Timor-Leste e a diáspora. Promove conexões, visibilidade e colaborações que fortalecem a indústria regional.

Qual é a importância das parcerias locais e internacionais?
Essas parcerias garantem credibilidade e sustentabilidade. Permitem que o KUGOMA continue a existir e que outros projetos da AAMCM ganhem força e financiamento, os sábios talvez diriam sem alianças, não há continuidade.

Como surgiu a colaboração com FIFOI e La Kourmetragerie?
A parceria nasceu em encontros no Durban Filmmart, em conversas directas com os coordenadores. A ligação com o CCFM foi essencial, pois além de ser anfitrião, ajudou-nos a garantir apoio financeiro da OCA e FEF CREATION, o que nos possibilitou uma sinergia entre instituições com visão comum.

Qual é o impacto esperado da Rede de Cinema e Audiovisual PALOP (fase 2)?
Esperamos fortalecer a profissionalização do sector, mapear talentos e criar oportunidades concretas de produção e circulação de obras audiovisuais.

O que tornou a programação deste ano especial?
Este ano tivemos uma edição mais inclusiva e expansiva até agora com mais filmes, mais masterclasses, mais conversas e voltámos aos bairros. Pela primeira vez, exibimos também fora de Maputo, o que amplia o alcance e o impacto do festival.

Critérios de seleção dos filmes?
Priorizamos qualidade técnica e narrativa. As longas-metragens foram convidadas especialmente, pois o KUGOMA é tradicionalmente um fórum de curtas. Este ano quisemos inovar e valorizar produções com pouca visibilidade, as obras que dialogam com o público e provocam reflexão.

Fale-nos da ideia do Cine-concerto de abertura, como foi concebida a ideia?
A curadoria propôs o filme e aceitei o desafio como produtor. Em parceria com a Escola Nacional de Música, recriámos a trilha sonora para uma experiência única em 3D anáglifo transformando assim um filme num mudo de espetáculo sensorial.

Qual foi a sessão imperdível para o público moçambicano?
As sessões de filmes nacionais foram imperdíveis. Este ano notou-se uma evolução clara na qualidade das produções locais e dessa maneira o público viu-se representado na tela como nunca.

Como surgiram os temas das masterclasses?
Foram definidos com base em pesquisas sobre as necessidades dos profissionais e apreciadores de cinema em Moçambique.

Quais são os resultados das formações?
Tivemos resultados concretos: projectos revistos, ensaios realizados e participantes que saíram com trabalho avançado. O carácter prático foi essencial.

Que importância tem a formação de jornalistas, críticos e gestores culturais?

Eles são os mediadores entre o cinema e o público, acreditamos que sem a crítica e gestão, o cinema não se consolida como indústria.

O cinema pode resgatar narrativas históricas?

Sim, o cinema é uma ferramenta poderosa de memória e identidade, e em sua maioria temos produções que nos revelam memórias de histórias com emoções e profundidade.

Qual é a visão do KUGOMA para os próximos anos?
Queremos ser uma agência de distribuição de filmes e um espaço de encontro entre criadores e financiadores. O objectivo é profissionalizar ainda mais o setor, transformar o KUGOMA num hub de cinema lusófono.

Qual é o papel do KUGOMA na internacionalização do cinema moçambicano?
Através da nossa rede de parceiros nos PALOP+TL, conseguimos estender a programação e abrir portas para o cinema moçambicano no exterior.

Quais foram os maiores desafios na produção, distribuição e exibição?
Na produção, enfrentamos burocracia excessiva, precisamos de políticas públicas mais eficazes. Na exibição, falta interesse do mercado local e internacional em adquirir filmes moçambicanos.

Uma mensagem aos jovens realizadores e artistas?
A luta continua. Persistam, criem, colaborem. O cinema precisa de vocês e cada história conta.

Uma palavra ou frase para resumir a 15ª edição?

Resistência criativa e do bairro para o mundo.

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*Enstrevistas de Amosse Mucavele no âmbito do projecto Ideias que CuramAgência Criativa Vírgula


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