Por Tino Maria  

Havia, por entre nós, a mania de dar nomes com nostalgia. Evitava-se a fragilidade e a impotência que os mesmos carregam. Dona Dilma tivera essa sorte. Aliás, desdita aos olhos da modernidade. É verdade, a modernidade arrevesa tudo. Até a liberdade de nominar criaturas não escapa.

Em genuflexão, Dona Dilma forçava as chamas que seguravam a chaleira de alumínio. A manhã era chuvosa, as nuvens intercambiam os espaços com o vento e as gotículas de água que anunciavam tempos agrícolas. Encheu as forças nos braços para soprar o fogo que reprimia a humidade trazida pela chuva. O sol crescia. O chá tardava aquecer.

Candeeiro, seu consorte, balouçava na rede que cruzava as duas laterais da casa. Metia-se na memória da noite passada. Havia travado um nó de conversa amarga com a Dona Dilma. O conforto da cama tinha se transmutado em palco de encenação. Não era propriamente uma conversa, eram palavras soltas e quebradas. De vocabulário baixo, Dona Dilma, repetia e remendava aos gritos em busca da razão. De vez em quando acertava na frase.

― Preciso de respeito. Você é bruto, promotor da desordem.

Recusavam-se a trocar as atenções. Ninguém se remetia ao silêncio para ouvir a reivindicação do outro.  Dona Dilma resolvera exigir respeito de titular da família.

― Mulher, na sua essência, é um ser difícil de lidar. É um ser de pensamento transitório, como as folhas dão à vida às plantas, depois abandonam os galhos ― pensava o Candeeiro

Encadeando os pensamentos retornou ao seu cigarro. A fumaça do cigarro geometriza o espaço. Repelindo os insectos que titilavam nas flores do jardim.

Na manhã seguinte, Dona Dilma decidiu fechar-se ao silêncio. Aliás, não era silêncio. As palavras, essas, eram pronunciadas a turbilhões na mente da dona Dilma. No interior da cabeçuda, insultava, gritava, murmurava para o surdo Candeeiro, seu marido.  Mexia e remexia os gastos cabelos que cobriam a cabeça. Quando espaçassem os insultos saiam em forma de escarros.

Pensava, Dona Dilma. Devo cuspir bem longe. Soltou o primeiro escarro que foi descansar junto ao jardim ao lado. Novamente pensou. A velocidade do escarro denota o meu desassossego. Suspirou, indagou as entranhas se lhes acompanhariam na nova investida. Feito o protocolo. As tripas emitiram o sinal, a garganta informara ser parceira.

Soltou o segundo escarro que à velocidade projectada repousou no galinheiro.

Voltou a soprar o fogo. Desta vez, encheu as bochechas de ar seco, desprendeu o sopro. O ar saia-lhe pela boca e pelas traseiras. Apercebendo-se, inspeccionou à sua volta. Constatou nenhum estranho. Segurou as mãos na cintura, aliviou a capulana. Estirou a mão para o fundo. Averiguou!

– Apenas foi um susto!

Suspirou de alívio. As chamas avermelhadas anunciam a chegada da fervura. Dona Dilma agitou as mãos, assegurou o abano na cabeça. As faíscas e o roncar da chaleira de alumínio carregavam a esperança de vitória contra os respingos trazidos pela ventania. 

Deu alguns passos, de repente, o pato carregado de escarro no bico, cruza-lhe o caminho. Deu um pontapé no pato, que se acelerou a passar, feliz e comprometida como se de mensageiro se tratasse.

Sentindo a fumaça, Dona Dilma apressou os passos. O ar trazido pela ventania arrancou-lhe o lenço que se foi cair no pequeno jardim sobre o primeiro escarro que permanecia húmido, vivo como a sua raiva. De cócoras meteu o lenço nas mãos, segurou-o no peito, antecedido de algumas palmatórias e murmúrios. É isso mesmo, Dona Dilma, não se reserva ao luxo de agrado por nada. Quando tudo está em ordem, ralha com o ar, ralha consigo mesma. Acorda julgando a todos. O mundo é ingrato, torto replicava.

Do interior da sala soltou gritos religiosos, cantava. Invocava Deus cristão. Avizinhou os cânticos na direcção do Candeeiro.

– Faz mais de duas décadas que não cruzo nenhuma porta de igreja.

– Rezo pelas obras – dizia Candeeiro.

Dona Dilma, trocara de igreja recentemente, andava nestas novas missões religiosas. Candeeiro não dava conta, não fazia questão. Enquanto cantava, Dona Dilma, mergulhava nos cálculos do tempo. Passam-se dez anos! Lançou os olhos para o chão. Repara para seus pés, sonha alto. Se eu tivesse desistido de Candeeiro…

Não contempla o pensamento. Repara para Candeeiro, que se levanta e resmunga com a presença do pato, de plumagem aformoseada, o preto fazia essas manias de namorar o branco em animais. Desconfia! Será que ele invadiu os meus pensamentos? Permaneceu assim uma eternidade, perplexa sem mover os passos. O medo toldava seu redor. Começou a soltar faíscas. Interrogava o vento pela ausência das respostas, metia-se em monólogo, acenava os lábios, vocifera na mente.  Até que o pato soltou o escarro nos pés de Candeeiro e o homem gritou.

Pato, pato… Bota o pé daqui ….

A ordem se concretiza. O pato afastou-se! Por alguns instantes permaneceu ao redor, como quem deixara o aviso. Sacudiu as asas e aproximou-se à cozinha. A Dona Dilma arriscou uma pergunta. Candeeiro leu os meus pensamentos? Não obteve resposta, a ave foi-se pendurar no galho, encolheu o bico entre as asas.

Dona Dilma havia acordado com o pé esquerdo. Para aliviar a raiva deu alguns cascudos ao menino que brincava inocentemente. Em seguida, tomou coragem, suplicou aos deuses, ajustou a capulana, voltou a pendurar o lenço na cabeça. Altiva e confiante. Dona Dilma impunha-se, respeito e presença notável. Poderosa, agredia o chão seco lamacento do quintal. Aproximou-se de Candeeiro, medonha por dentro, forte por fora; encolheu os ossos para junto do chão. Soltou trémulas palavras.

– A hora do mata-bicho chegou.

Candeeiro, ainda levou uns instantes para responder.

– Este calhastroz anda desconfiado! – gritou no silêncio Dona Dilma e soltou os músculos da inclinação.  Sacudiu as mãos e pôs-se em direcção à cozinha.  Experimentou uma sensação de impotência, impossibilidade. Dona Dilma permanecia confusa tentando decifrar o silêncio de Candeeiro.


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