Por Amosse Mucavele

Organizado pela CATALOGUS e pela Embaixada da Espanha em Moçambique, Cidade nas Mãos decorreu de 21 a 24 de Outubro, num mapa que ligou espaços como Camões – Centro Cultural Português, Universidade Pedagógica de Maputo, Instituto Guimarães Rosa, no centro da capital moçambicana e o Ntsindya – Centro Cultural Municipal, na periferia. E ainda contou com a parceria da Fundação Carlos Morgado que levou a Árvore Literária, uma experiência de interação entre livros e a natureza.

Em entrevista Mélio Tinga revela que esta edição foi uma experimentação do que pode “funcionar”, não de “hoje para hoje”, mas para o futuro, esse lugar onde a cultura sempre gravita, apesar dos imediatismos e funcionalismos a que se lhe exige. Mais ainda, explica o curador como se faz e qual é narrativa a volta do festival.

“A cidade são as pessoas” é uma afirmação poética e de contingência, mas num contexto urbano como o de Maputo, marcado por desigualdade, exclusão e segmentação espacial, como esta frase se sustenta na prática? De que modo o festival responde a esses contrastes entre o ideal, o ficcional e o real?

– No fundo Cidade nas Mãos ajuda a evidenciar isso, através da participação de artistas de diferentes realidades, espaços e experiências. O festival funciona como uma espécie de megafone para que os factos, a realidade seja vista a olho nu. Não é um festival que vai combater a desigualdade, a exclusão e a segmentação social, como pode imaginar, mas uma espécie de um canal para isso não seja segredo, porque não é, para que decisões concretas sejam depois tomadas para que tenhamos uma cidade que funcione de facto e que seja para todos. Não é um projecto de curto prazo, daí, também, não pensamos num festival que seja instantâneo, porque mudanças reais e profundas não acontecem num piscar de olho, nem com um grito apenas.

Num país onde as infraestruturas culturais ainda são frágeis e muitas vezes concentradas no centro urbano, como o Cidade nas Mãos se propõe a descentralizar a cultura e, mais do que isso, a redefinir os centros de produção e fruição artística?

– Somos apenas sonhadores. Por isso, em parceria com a Embaixada da Espanha fizemos esta edição do festival. A Catalogus não é de grande estrutura. Cidade nas Mãos é apenas um movimento, uma pequena parte de muitas que precisamos. Descentralizar a cultura, redefinir os centros de produção e fruição artística que, precisamos todos (a cidade e o país) não é nosso papel. Por mais força de vontade que tenhamos, por mais ideias que tenhamos. Nem é da dimensão do que nós somos, não definimos parâmetros, nem políticas que poderiam contribuir para a descentralização da cultura. Pergunto-me se esta não seria uma excelente pergunta para uma instituição estatal que responda pelo sector da cultura.

O festival reuniu vozes de diferentes áreas: literatura, dança, fotografia, arquitetura, música, numa cartografia/geografia de olhares sobre a cidade. Como esta pluralidade contribui para uma leitura mais honesta e complexa de Maputo? Que cidade emerge deste mosaico cultural?

– A cidade é feita por pessoas, de diferentes campos. Nesta edição tínhamos a intenção de espelhar, através de uma pequena amostra, como os artistas pensam e veem Maputo. Esse cruzamento de diferentes profissionais permitiu-nos ter contribuições muito ricas, visões diversificadas que reflectiam sobre a cidade. Temos consciência de que era um ponto de partida, mas a diversidade de participantes mostrou como, em meio a desafios temos uma valiosa riqueza cultural.

A curadoria do festival não parece neutra: há uma escolha clara por artistas com posicionamentos críticos e propostas de ruptura. Como equilibrar o compromisso político com a liberdade estética, sem transformar o festival numa plataforma de militância e resistência?

– O festival é um espaço de diálogos, troca de saberes e celebração entre artes e culturas. A curadoria do festival propôs artistas e outros profissionais que conhecem, trabalham ou vivem na cidade. A arte, por si, é um exercício de não conformismo, de procura. Buscamos pessoas que pensam a cidade, que a sonham e que participam na sua construção, através da música, dança, escrita (literária ou académica), da fotografia, da arquitectura. Cidade nas Mãos não é um festival de manifestação política e nem de militância a isso inclinada.

O conceito de “E é com arte que nos (re)conectamos.” é urgente, mas ao mesmo tempo arriscado. Como evitar que a arte no espaço urbano se torne apenas um “evento decorativo ao serviço de uma certa elite” que encobre os problemas estruturais da cidade?

– Penso que precisa de ser apenas do espaço urbano. Precisa rebentar a bolha do centro da cidade e descer para outros caminhos.

O Festival propõe a arte como ferramenta de transformação urbana e social. Mas como medir esse impacto para além da experiência imediata? Há estratégias de continuidade ou escuta comunitária para garantir que esses gestos artísticos tenham repercussão real em todo espaço municipal?

– A transformação social real, honesta e duradoura de um festival como este nunca é imediato. Como disse inicialmente, Cidade nas Mãos não é um festival de hoje para hoje, a influência e mudanças que vai criando levam seu tempo. E passam apenas alguns dias depois que terminou. Neste momento estamos a finalizar vários processos de produção, ao mesmo tempo que pensamos sobre como podemos fazer melhor e que estratégias podemos aplicar para que os nossos diversos públicos assumam este festival como também deles. De forma imediata o impacto parece bom, a longo prazo, precisamos fazer um trabalho mais apurado.

A juventude é um público central no festival. Que imagem os jovens têm hoje da cidade e do seu lugar nela? E como a arte pode ajudar a reconstruir a relação entre juventude e espaço urbano, especialmente nas periferias?

– Me parece consensual e olhando para as conversas ao longo dos dias do festival que, cada vez mais os jovens assumem a cidade como, também seu lugar, não emprestado, mas um espaço que lhes pertence. Os principais artistas desta cidade, são jovens. E me parece que progressivamente, eles mesmos (ou nós) vão mostrando, através da arte a existência dessa relação: juventude – espaço urbano. E que, se vai consolidando.

Na prática, como foi construir este festival no actual contexto político e económico de Moçambique? Houve barreiras institucionais ou limitações financeiras que moldaram ou desafiaram as intenções iniciais da organização?

– É sempre desafiador fazer um festival no sector cultural. Porque seus frutos não são para já. Não tivemos barreiras institucionais, adaptamos o festival à disponibilidade financeira existente.

Maputo vive uma tensão constante entre modernização urbana e apagamento de memórias. Como o festival lida com essa tensão? A arte pode ser um mecanismo de resistência à amnésia histórica e cultural das cidades?

– Cidade nas Mãos procura contribuir para um possível equilíbrio. Essa é a nossa visão. Isso reflectiu-se em toda programação. Regressar a Mutimati Barnabé João, Rui Knopfli, Eduardo White, José Craveirinha, Sebastião Alba, Calane da Silva, em textos que pensavam a cidade, as pessoas, a economia e a política, foi um exercício de tentativa de recuperação ou pelo menos de lembrar ao público a forte memoria cultural que temos, a partir de onde podemos empurrar a canoa, hoje.

Como escritor, designer e como curador que vive na periferia e trabalha na cidade, o que Cidade nas Mãos te ensinou ou te confrontou sobre a cidade onde vives? E que horizontes este festival te faz vislumbrar para o futuro cultural de Maputo e de Moçambique?

– A forma como se repetia a necessidade de ampliarmos a nossa ideia de cidade e de definirmos nos nossos próprios termos o que é isso de “cidade” chacoalhou várias coisas dentro da minha cabeça. Porque, parece, de facto, que a definição do que hoje chamamos cidade nunca foi de nós próprios. Nunca paramos para pensar como isso foi um eixo separador entre os de lá e os de cá. O que ainda hoje é notável. Vejo num futuro distante… um sector em que o artista não é um prato de ocasião, mas um sol, necessário, todos os dias.

Fotografias: Pappirus / Catalogus


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