Vi o vídeo por acaso, num daqueles momentos “mortos” em que tentamos reduzir o numero de mensagens não visualizadas, no WhatsApp, sem intenção nenhuma. Abri-o quase por impulso. Um adolescente, com uma linguagem que mistura ousadia, raiva e uma falta de pudor que não encaixa muito bem na forma como a minha geração tentou ser educada. Falava de homens adultos que paqueram adolescentes. Confesso que não gostei do tom dele. Não concordo com a vulgaridade, nem com a forma crua como escolheu dizer certas coisas. Não aprecio quando a mensagem se veste de ruído. Mas mesmo assim, por baixo do exagero, por baixo da ousadia, por baixo das palavras que não usaria, a mensagem subliminar estava ali, firme, impossível de negar. E foi isso que me fez ver o vídeo até ao fim. Ele disse uma verdade que muitos adultos evitam encarar: há homens feitos a competir com adolescentes por meninas que ainda estão a tentar descobrir quem são.

Fiquei parado a olhar para o ecrã mesmo depois do vídeo terminar. Às vezes não é a forma que importa. É o impacto. Aquele rapaz, mesmo com a linguagem que me pareceu excessiva, disse algo que precisava de ser dito. Não disse de maneira perfeita, mas disse. E aquilo que disse abala porque revela um problema que não é novo, mas que continua confortável demais para quem o pratica.

A denúncia dele era simples. Os adultos andam a disputar terreno que não lhes pertence. Atrapalham os rapazes da idade dele. Confundem meninas que ainda não têm maturidade para perceber o jogo desigual que está a ser jogado. Mas o que mais me atingiu não foi isso. Foi o que ele não disse, mas que ficou evidente: a hipocrisia dos homens que vivem em dois mundos morais diferentes. Para as adolescentes desconhecidas, permitimos julgamentos, olhares, aventuras e classificações que nunca aceitaríamos que recaíssem sobre as nossas filhas. Para umas, ousadia. Para outras, protecção. Para umas, liberdade descontrolada. Para outras, honra sagrada. E no entanto, todas têm a mesma idade.

Enquanto via o vídeo, lembrei-me com desconforto de situações que testemunhei ao longo da vida. Especialmente em Maputo, onde as noites sempre “são uma criança”. Vi raparigas de dezasseis ou dezassete anos a entrar em discotecas com a confiança típica da idade, mas também com aquela ingenuidade que se percebe no olhar. E ao lado delas, homens de trinta, quarenta, por vezes mais. Homens que olhavam, comentavam, aproximavam-se, como se aquela diferença de idade fosse apenas um detalhe irrelevante. Na altura, eu notava, mas não analisava. Era mais fácil dizer a mim próprio que não era da minha conta.

A verdade é que é da conta de todos. E o incómodo que senti ao ver o vídeo do rapaz foi exactamente esse: perceber que durante demasiado tempo fui espectador silencioso. O silêncio é confortável, mas é cúmplice. E há coisas que não podemos continuar a deixar passar como se fossem parte natural da sociedade.

Imaginem um homem que frequenta estas casas de pasto “de agora”. Nos grupos de WhatsApp, dos “bradas”, fala abertamente de adolescentes com quem sai, como se isso fosse troféu. É vaidade mascarada de experiência. Mas basta mencionar o nome da filha dele, que tem mais ou menos a mesma idade das raparigas que ele “pega”, torna-se o pai moralista, preocupado, indignado com a ideia de que um adulto pudesse olhar para ela. Essa mudança de postura sempre me pareceu absurda, mas agora percebo o que ela representa: um sistema de valores que só funciona quando nos favorece.

É exactamente esta incoerência que o vídeo do adolescente expôs, mesmo sem ele perceber. E foi por isso que a mensagem dele me prendeu. Não pela forma. Não pelo tom. Não pela ousadia, que não me agrada. Mas pela verdade escondida, directa, inegável.

Em Moçambique, fala-se muito de família. Da criança que pertence a todos. Mas quando chega a adolescência, parece que essa responsabilidade desaparece. A menina que anda pela cidade é julgada pela roupa, pelo riso, pelo passo. Mas não é protegida com a mesma força com que protegemos as nossas. Esta diferença de tratamento é moralmente insustentável.

E há um ponto que não podemos continuar a fingir que não existe. Mesmo quando uma adolescente parece madura, mesmo quando responde a um elogio, mesmo quando aparenta confiança, isso não significa que tenha consciência da desigualdade de poder. A maturidade não chega apenas porque o corpo cresceu. E o adulto que se apoia nessa desculpa não está a ser ingénuo, está a ser oportunista.

Penso muitas vezes na minha filha. Penso no mundo que encontrará. Penso nos olhares que terá de enfrentar. E pergunto-me que espécie de homem eu seria se aceitasse para as filhas dos outros aquilo que rejeito para a minha. A resposta é clara: seria um hipócrita. A honra que dá segurança à minha filha só tem valor se eu estiver disposto a oferecê-la às filhas dos outros. Caso contrário, não é honra. É favoritismo. É egoísmo mascarado de moral.

A crónica que escrevo nasce daqui. Nasce do desconforto que o vídeo provocou. Nasce do reconhecimento de que, mesmo não concordando com a forma como o rapaz falou, não posso ignorar o conteúdo. A verdade não precisa de vir empacotada de maneira perfeita para ser verdade. Por isso deixo aqui a reflexão que o vídeo trouxe à superfície, menos polida, mais crua, mais honesta. Se uma adolescente merece respeito, todas merecem. Não há filhas e filhas dos outros. Há apenas adolescentes. E todas precisam da mesma dignidade.

E fica a pergunta final, a que não permite fuga. Que valor tem a honra que guardamos para as nossas filhas, se não a oferecemos às filhas dos outros?

Imagem: Freepik


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