Quando o dia amanhece em Morrumbene, a luz derrama-se pelas copas dos coqueiros e desce até ao chão, onde encontra a terra vermelha que se espalha pelo povoado. Essa terra já foi mais intensa. Hoje, há quem diga que, com o tempo, a cor se tornou mais pálida, como se a vila tivesse perdido um pouco do seu sangue; um sangue que nunca foi verdadeiramente repartido, mas sim escoado e selado nos cofres do Velho Abdullah Alimamad, enquanto o sustento do burgo se concentrava nas suas únicas lojas e oficinas mecânicas. Esta terra respirava abundância; até o som das ondas chegava diferente, mais próximo, como se o mar tivesse orgulho de pertencer àquele pedaço de mundo. E, era no calor dessa vida plena, alimentada por um comércio sem concorrência, que os Alimamad reinavam.

Diz-se por estas bandas, que um homem pode possuir o mundo, mas só se firma nele quando encontra quem lhe sustente o espírito. E a âncora do velho Abdullah, assentou-se, de forma irremediável, em Indira Gafuro. Nela, a obediência não era servidão, mas a alquimia que transformava o desejo de seu marido em ouro doméstico, fazendo da casa uma moeda perfeita onde a vida não tinha avesso. E desse matrimónio, pela graça de Allah, brotaram quatro dádivas que nenhuma transacção comercial podia replicar.

Mas o destino, não negoceia com a felicidade. No primeiro de Abril, enquanto o mundo celebrava a mentira, a casa dos Alimamad foi atingida pela sua verdade mais amarga. O coração do Abdullah implorou para que aquilo fosse o engano mais cruel do povoado, que Indira apenas tivesse adormecido, que o ar devolvido ao universo fosse só um erro. Porém, não há espaço para imaginação quando todas as coisas são visíveis, e a ausência dela, fria e imediata, tornou-se a única coisa real.

“Morreu a esposa do patriarca”. O choque percorreu a vila inteira. Diziam que a febre veio-lhe como um bicho. Mordeu-lhe o sangue; apagou-lhe o corpo por dentro; e num sopro, seu mundo desabou.

O rosto de Abdullah tornou-se um rio recém-aberto, sua barba brilhava como se tivesse atravessado um dilúvio, enquanto seu peito subia e descia,  pesado, como uma  fera encurralada na jaula da dor. Foi nesse abismo de desespero que a verdade lhe atingiu a garganta: o homem podia possuir o mundo, entretanto não havia no mercado troca para o vazio que Indira deixara.

Os meses foram-se arrastando e, na casa dos Alimamad, cada dia amanhecia cansado, como se tivesse envelhecido durante a noite. O Patriarca seguia esse mesmo declínio. Suas mãos tremiam, como se quisessem prender a eternidade pela ponta dos dedos. Seus passos tornaram-se curtos, e havia nos olhos um nevoeiro que nem o sol desta terra conseguia dissipar. A ausência de Indira afundou-lhe numa confusão que lhe desmontou o juízo peça por peça, deixando o reino sem Rei e sem mapa.

Diziam que nesta família a fortuna tinha virado a face, cansada de tanta sorte sem alma, e que o sangue da terra, murmuravam, estava finalmente a ser cobrado.

Eis que a desgraça parecia ter o seu próprio ritmo, um baile macabro onde a queda de cada um era um passo sincronizado.

Raj, o primogénito, tentava ser o muro contra a derrocada familiar, mas o esforço consumia-lhe o próprio lar. As conversas com a esposa, antes porto, tornaram-se duros duelos de palavras, e os pequenos desentendimentos ergueram-se em muralhas, e nessa altura, o amor, cansado, encontrou sua porta de saída. Afinal, quando a vida aperta o bolso dos homens, raras ficam as tolerâncias das mulheres.

​Mulheres, dizem que são o espelho da casa onde nascem. E Maya, durante anos, caminhou pela vila como quem desfilava num palco privado, exibindo cada adorno como se a beleza fosse um decreto real. Herdara de sua mãe, Indira, o corpo que ondulava com uma graça natural, um espetáculo que atraía olhares que se demoravam, sem conseguir desviar, pois cada passo parecia uma dança que ninguém queria perder.

​O capricho, contudo, não se cala com a miséria familiar. E para que a sua vida não parasse, ela precisou de mudar a morada do seu estatuto.

​Assim, tornou-se a cliente mais fiel da pousada, onde cada quarto conhecia o sabor do seu mel. Ali, entre lençóis e sussurros comprados, a jovem transformou-se na prostituta mais falada do povoado.

Enquanto Maya ardia no rumor das noites alheias, Guitês ocupava o outro lado da mesma história, mantendo os restos do império que havia sobrevivido às tempestades familiares. Entre os balcões riscados e o pó que cobria os poucos produtos, ela arrumava cuidadosamente uma caixa esquecida, como se ao tocar cada objecto pudesse reviver o esplendor perdido.

Tinha o destino moldado como a flor que ninguém colheu… Afirmavam por aí que, aos 41 anos, a sua mão jamais fora disputada para o amor, nem para o aconchego. E talvez por isso, coube-lhe segurar o que restava das lojas que um dia foram o orgulho da vila.

Nos fundos, entre o cheiro a óleo queimado e as ferramentas esquecidas , Bachir seguia os passos que antes aprendera ao lado do seu pai. O compasso das oficinas, que outrora irradiava com a energia do Abdullah, agora se movia apenas por inércia. E Bachir, se afogava em copos e vapores de álcool, arrastando seus  dias, como quem procura enterrar a própria frustração.

O mundo com seu ritmo implacável observa indiferente. Tudo o que se ergue, um dia, se curva ao tempo; tudo o que brilha, cedo ou tarde, encontra sua sombra. Resta apenas observar, e carregar consigo a consciência de que a vida jamais se repete, e que cada ascensão ou queda guarda sua própria verdade, uma verdade que o homem só entende quando o abismo desvela o que permanece.


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