Há dias em que me pergunto, sem rodeios, o que significa hoje estar no ensino superior. Não o ensino superior de uma instituição específica, mas o ensino superior enquanto conceito, enquanto etapa de vida, enquanto responsabilidade. E quanto mais observo os comportamentos dos estudantes, dentro e fora das instituições, mais me convenço de que há algo profundamente deslocado entre o que se espera de um estudante de nível superior e o que muitos deles efectivamente apresentam.
A pergunta não é pequena. “Afinal, ensino superior dele é como?”
Porque, se olharmos com atenção, veremos que há estudantes que carregam cadernos, livros (acho), tablets, laptop, mas não carregam consciência. Há estudantes que atravessam portões de instituições de ensino superior como se isso automaticamente os colocasse num patamar acima do resto da sociedade, sem perceberem que o verdadeiro patamar constrói-se com comportamento, não com entrada.
Comecemos pelo fundamental: as prioridades dos estudantes.
É aqui que o descompasso se torna mais visível. Há estudantes que, em vez de colocarem o foco na aprendizagem, investem a maior parte da sua energia na aparência social. Para muitos, o importante é ser visto, não ser formado. É participar na foto, não participar no debate. É estar no campus para mostrar roupa, não para absorver conhecimento. É falar de cursos como quem fala de marcas. É fazer vídeos para TikTok antes de fazer resumos para aula. E quando observamos isto, a pergunta volta a surgir: “afinal, ensino superior dele é como?”
Há estudantes que passam horas infindáveis nas redes sociais, mas quinze minutos de leitura parecem tortura. Há quem saiba decorar todas as danças dos trends, mas não saiba organizar um parágrafo. Há quem publique motivação barata, mas não consiga motivar-se para estudar. Há quem discuta política sem nunca ter lido um artigo académico. Há quem fale de direitos humanos, mas trate mal o funcionário da instituição. Há quem fale de desenvolvimento, mas não desenvolve hábitos básicos. Há quem fale de liderança, mas não lidera nem a própria vida.
E pior: muitos acreditam genuinamente que estas prioridades distorcidas são normais. Dizem que são “jovens”, que “a vida é uma life”, que “não se pode só estudar”. E tudo isso seria aceitável se, entre o lazer e a diversão, existisse também responsabilidade, esforço, foco e compromisso. Mas quando tudo gira em torno de socialização, entretenimento e validação online, o ensino superior transforma-se apenas num cenário bonito onde nada realmente profundo acontece.
Se queremos falar de prioridades, então falemos com coragem. Há estudantes que gastam mais dinheiro em “megas” do que em livros. Há quem priorize recarregar o celular antes de recarregar a consciência. Há quem saiba exactamente a hora das live’s, mas nunca a hora da aula. Há quem responda a cem mensagens num minuto, mas que nunca responde a um e-mail formal. Há quem use a internet para atacar colegas, mas não para pesquisar. Há quem apareça impecável nas fotos do final de semana, mas não apareça nas aulas seguintes. E isto não é apenas uma crítica à juventude. É uma crítica à falta de alinhamento entre o que se quer ter e o que se está disposto a fazer para o merecer.
Mas deixemos por um momento os estudantes e olhemos para as instituições de ensino superior. Não importa a natureza, não importa a dimensão, não importa o modelo. O problema é generalizado. Em muitas instituições, o ambiente facilita o comportamento desresponsabilizado. Há regras que não são aplicadas. Há orientações que não são cumpridas. Há docentes que desistem de exigir rigor porque o rigor gera conflito. Há gestores que toleram indisciplina porque temem perder estudantes. Há sistemas que privilegiam número de matrículas, não qualidade de formação.
E, quando o ambiente se torna permissivo, o estudante adapta-se rapidamente. Se pode chegar atrasado sem consequência, chega. Se pode faltar sem justificar, falta. Se pode copiar sem ser apanhado, copia. Se pode falar mal da instituição no Facebook sem consequência, fala. Se pode desrespeitar funcionários sem ser corrigido, desrespeita. Se pode ignorar as datas de apresentação de trabalhos e pedir adiamento no último minuto, ignora. Mas, no fim, quem paga o preço é o próprio estudante, ainda que demore alguns anos até perceber isso.
Quanto aos docentes, também merecem reflexão. Há docentes que se esforçam, que estudam, que preparam aulas, que tentam inspirar. Mas há outros que desistiram. Há quem apenas leia slides. Há quem apareça sem energia, sem interesse, sem paixão. Há quem exija pontualidade, mas nunca seja pontual. Há quem peça respeito, mas não saiba respeitar. Há quem dê notas, mas não dê feedback. Há quem crie medo, mas não crie diálogo. E isto também alimenta a crise. Porque o estudante olha para o docente e aprende: para o bem e para o mal.
As famílias também fazem parte da equação. Muitas acreditam que, ao matricular o filho numa instituição de ensino superior, o trabalho está feito. Acham que o enisno superior deve educar o que não se educou em casa. Mas respeito, disciplina, humildade e responsabilidade não se aprendem apenas em salas de aula. Chegam da casa, do bairro, da convivência diária. Quando o estudante está habituado a ser tratado como príncipe ou princesa, chega à instituição acreditando que tudo e todos lhe devem favores. E quando encontra exigência, acha que é perseguição.
A sociedade, no seu conjunto, também não ajuda. Aplaude comportamentos fúteis. Valoriza ostentação. Normaliza desrespeito. Trata conteúdos académicos como aborrecidos e escândalos como divertidos. Distorce prioridades e transforma o ensino superior num complemento social, não num alicerce de futuro. E os estudantes, vivendo imersos nessa sociedade, absorvem esses valores sem questionar.
Por isso é que, hoje, vemos estudantes que falam de forma impressionante sobre aquilo que querem conquistar, mas falham de forma escandalosa naquilo que precisam de construir. Querem chegar longe, mas não querem caminhar. Querem resultados, mas não querem processos. Querem ser admirados, mas não querem transformar-se. Querem liberdade, mas não querem responsabilidade. Querem respeito, mas não querem postura.
E então a pergunta torna-se ainda mais pertinente: “afinal, ensino superior dele é como?”
Porque, se nada mudar, o ensino superior será apenas um rótulo bonito colado em comportamentos vazios. E aqui está a verdade que ninguém quer encarar: o diploma não protege ninguém da mediocridade. O mercado não contrata vaidade. A sociedade não respeita instabilidade. A vida adulta não aceita desculpas.
Se o estudante não consegue organizar a própria vida, como organizará equipas? Se não respeita docentes, como respeitará chefias? Se explode por tudo e por nada, como trabalhará sob pressão? Se insulta no WhatsApp, como será num ambiente profissional? Se não sabe estudar, como saberá trabalhar? Se não sabe comportar-se agora, quando saberá?
E eu termino como comecei: “Afinal, ensino superior dele é como?”





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