Esta é a última crónica do ano. E talvez não pudesse terminar de outra forma. Não com relatórios formais, nem com listas do que correu bem ou mal, mas com um momento que nos apanhou desprevenidos e, por isso mesmo, foi mais verdadeiro. Um momento em que, por instantes raros, Moçambique lembrou-se de si próprio.

Domingo conseguimos a nossa primeira vitória no CAN 2025, em Marrocos. Os três pontos contam, claro que contam. Mas esta crónica não nasce do resultado no placar. Nasce de tudo o que aconteceu antes, durante e, sobretudo, depois do apito final. Nasce do que não cabe nas estatísticas, nem nos comentários apressados das redes sociais. Nasce daquele lado que quase ninguém vê, porque não dá likes, mas dá sentido.

Durante dias, talvez semanas, fomos bombardeados por descrenças. Nas redes sociais, nos grupos de WhatsApp, nos comentários de Facebook, nos áudios reenviados sem filtro. Influenciadores de opinião, opinadores profissionais, críticos permanentes, todos a antecipar o fracasso com uma segurança quase arrogante. Alguns falavam como se perder fosse uma vocação nacional. Outros pareciam precisar que a selecção falhasse para confirmar as suas próprias teorias sobre o país. Há quem viva melhor quando fala mal, como se o insucesso colectivo lhes desse alguma razão íntima.

Falou-se de tudo. Falou-se das dificuldades logísticas, das crises internas, dos prémios de jogo, da preparação, do passado que pesa. Falou-se tanto que quase se esqueceu o essencial: há homens ali dentro que vestem aquela camisola não por cálculo, mas por pertença. Homens que sabem que cada jogo carrega mais do que noventa minutos. Carrega uma história inteira de tentativas, de quedas, de recomeços.

E depois veio o jogo. Não foi perfeito. Não precisava de ser. Foi tenso, foi sofrido, foi vivido com o coração mais do que com a razão. Mas quando o apito final soou, algo diferente aconteceu. Algo que não se fabrica. Algo que não se planeia.  Naquele momento, a nação não teve divisões. Não houve estratos sociais, nem financeiros, nem políticos. Não houve cidade e gueto. Não houve bairro nobre nem bairro esquecido. Houve um país inteiro a respirar ao mesmo tempo. Ainda que alguns tentassem, como sempre, desviar o foco da celebração, desta vez foi mais difícil. Porque até os descrentes, no seu íntimo mais guardado, sorriram. Até os que só criticam, justificando que é seu direito, sentiram um alívio que não quiseram admitir em público.

Foi um daqueles instantes raros em que até quem não acompanha futebol, até quem não sabe o nome dos jogadores, até quem nunca vê um jogo inteiro, sorriu. Não pelo futebol em si, mas pelo que ele simbolizou naquele momento. Um instante de abraço colectivo. Um instante de suspensão da descrença. Um instante em que, sem discursos, sem bandeiras agitadas à força, voltámos a sentir que pertencemos uns aos outros.

Eu próprio vivi esse momento de forma inesperada. O dia tinha começado pesado. Estava cabisbaixo, mergulhado em algumas obras literárias, a tentar fechar contas com ideias, palavras, textos que pedem silêncio e concentração. A cabeça estava noutro lugar. O coração, cansado. Mas quando chegou a hora do jogo, algo mudou. Dei por mim a sorrir, a espernear, ansioso, inquieto. A minha esposa olhava-me com aquela mistura de surpresa e ternura, como quem vê alguém regressar, por instantes, a um lugar antigo. No fim, quando a vitória se confirmou, os olhos estavam vermelhos. Não apenas pelo jogo, mas pelo que ele desbloqueou cá dentro.

Os WhatsApps explodiram. Os Facebooks ficaram iguais. Não iguais no discurso, mas iguais na emoção. Memes, áudios, mensagens simples, “ganhámos”, “conseguimos”, “é desta vez”. Não havia ali grandes análises tácticas. Havia sentimento. Havia descarga emocional. Havia uma alegria que não precisava de ser explicada. E é desse lado que quero falar. Do lado que quase nunca entra nas crónicas desportivas. Do lado humano. Do lado colectivo. Do lado que nos lembra que, apesar de tudo, ainda somos capazes de nos alegrar juntos.

Vivemos tempos em que parece existir um prazer quase automático em gozar com a nossa selecção. As piadas surgem sempre que os Mambas entram em campo. Antes do jogo, durante o jogo, depois do jogo. Piadas fáceis, previsíveis, muitas vezes cruéis. Algumas disfarçadas de humor, outras claramente carregadas de desprezo. E convém dizê-lo com clareza: isso não nos dignifica. Criticar é legítimo. Exigir é saudável. Mas ridicularizar permanentemente aquilo que nos representa diz mais sobre quem o faz do que sobre a equipa.

Há países onde a selecção é protegida mesmo quando perde. Não porque seja perfeita, mas porque simboliza algo maior. Aqui, muitas vezes, parece que precisamos que falhe para confirmar a narrativa de que “nada funciona”. E essa narrativa cansa. Corrói. Educa mal as gerações mais novas. Ensina que o normal é gozar, não apoiar. Que o inteligente é afastar-se, não envolver-se. Que o sofisticado é criticar, não construir.

Por isso este domingo foi diferente. Porque, por um momento, essa narrativa perdeu força. Não desapareceu, mas encolheu. Foi obrigada a dar lugar a outra coisa. A um orgulho contido, mas real. A uma alegria simples, mas profunda. Não se trata de ignorar os problemas. Eles existem. Todos sabemos. Não se trata de fingir que está tudo bem. Não está. Mas há momentos em que é preciso reconhecer as vitórias simbólicas, porque elas alimentam algo essencial: a esperança activa. Não aquela esperança vazia de promessas, mas a esperança que nasce quando percebemos que, juntos, ainda reagimos.

Os Mambas não ganharam apenas um jogo. Ultrapassaram descrenças. Ultrapassaram o ruído. Ultrapassaram o peso de expectativas negativas que muitas vezes são mais pesadas do que o adversário em campo. Ganharam-nos a nós, por instantes. Fizeram-nos lembrar que ainda sentimos. Que ainda vibramos. Que ainda nos emocionamos colectivamente. E isso, num país marcado por tantas fracturas, não é pouco.

Há quem tente desvalorizar estes momentos, dizendo que são efémeros, que não mudam nada. Talvez não mudem estruturas, mas mudam estados de espírito. E estados de espírito constroem ou destroem países mais rapidamente do que leis. Um povo que não se reconhece nos seus próprios momentos de alegria está condenado a viver sempre em modo de sobrevivência. Esta crónica quer pedir aos moçambicanos que se lembrem disto: nós amamo-nos. Mesmo quando não dizemos. Mesmo quando discutimos. Mesmo quando criticamos tudo. Há um fio invisível que nos liga, e ele manifesta-se nestes momentos improváveis. Não no discurso político. Não nos slogans. Mas num golo celebrado em conjunto. Num sorriso partilhado com um desconhecido. Num silêncio emocionado depois do apito final.

Que esta última crónica do ano fique como registo disso. Como memória de um instante em que fomos mais do que as nossas divisões. Em que fomos mais do que os nossos problemas. Em que fomos, simplesmente, um país. Os Mambas seguirão o seu caminho no CAN. Ganharão outro jogo ou não. Isso faz parte do futebol. Mas o que aconteceu neste domingo já ninguém nos tira. Foi um lembrete. Um abraço colectivo. Uma prova de que ainda conseguimos estar juntos, mesmo num tempo que insiste em nos separar.

E, enquanto escrevo estas últimas linhas, chega a confirmação de que estamos nos oitavos de final. A notícia entra sem alarido, quase em silêncio, mas encontra um texto que já estava preparado para a receber. Não muda o que foi dito antes, apenas o aprofunda. Porque isto deixa de ser apenas uma vitória isolada e passa a ser um caminho. Um passo dado com esforço, com nervos, com fé e, sobretudo, com união.

Não sei até onde iremos nesta competição. E, sendo honesto, hoje isso importa menos. Importa o que este momento nos devolveu. Importa o que nos fez lembrar. Importa a forma como, por instantes raros, nos encontramos do mesmo lado da alegria. Sem reservas. Sem cálculos. Sem ironias defensivas.

Por isso, antes que voltem as análises duras, as cobranças prematuras, as divisões habituais, deixo um convite simples e sincero: vamos desfrutar este momento. Vamos permitir-nos sentir orgulho. Vamos saborear esta passagem como quem reconhece que também merece celebrar. O amanhã virá com as suas exigências, como sempre. Mas hoje, apenas hoje, fiquemos aqui. Porque nem sempre ganhamos, nem sempre acreditamos, nem sempre estamos juntos e naquele domingo estivemos.

Bayete, Mambas.


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