No processo entre o passado e presente, Silas, que foi vencedor dos Prémios Mozal Artes e Cultura 2025, na categoria de Artes Visuais, traz temas que de outro modo seriam meros acontecimentos condenados ao esquecimento.
Exemplo disso está na exposição, a mais recente apresentada em Maputo, intitulada “Madjoni-Djoni – Retratos de Mineiros e Famílias Moçambicanas na África do Sul”, onde em meio ao levantamento da verdade por detrás da mão de obra retirada de Moçambique para as minas sul-africanas, as duras condições a que foram submetidos, Silas trouxe a força e a capacidade de resistência desses homens, através da cultura. Esse trabalho transforma as memórias que seriam individuais, dos próprios mineiros – na sua maioria falecidos -, dos familiares, em memória colectiva.
As migrações estão ligadas à história do país. A própria capital Maputo, através da estação dos Caminhos de Ferro, foi concebida a pensar fora. Escoar produtos da cidade de ouro à África do Sul levou grande mão-de-obra de Moçambique. Tudo isto é matéria para o seu trabalho. O que realmente o move?
As migrações fazem parte da história e da identidade moçambicana, e esse tema atravessa o meu trabalho porque permite reflectir sobre deslocamentos, experiências de vida e legados culturais. O que me move é compreender essas histórias, as trajectórias humanas e a sua ressonância contemporânea.
As migrações são olhadas como fontes de instabilidade ou uma nova ameaça à ideia de originalidade, causadoras de desemprego, entre outras coisas. Que respostas a arte tem para essa narrativa?
A arte pode oferecer narrativas alternativas, humanizando e complexificando a compreensão das migrações. Em vez de apresentar instabilidade ou ameaça, o trabalho artístico propõe reflexão, empatia e outras formas de olhar os fluxos de pessoas, memórias e culturas.

Transitar entre diferentes disciplinas artísticas, será a “imitação” da instabilidade da memória a razão para uma aposta que não se fixa num só território?
O meu trabalho não se fixa num único território artístico porque a memória e as experiências que investigo são complexas e multifacetadas. A transdisciplinaridade permite explorar nuances, atravessando o visual, o sonoro e a performatividade, reflectindo a instabilidade e fragmentação da memória que me interessa investigar.
O seu trabalho artístico aparenta não surgir do acaso ou da “bendita” inspiração. Surge do questionamento e do incómodo. Que conceitos de arte lhe levam a trilhar um processo tão complexo para criar?
O meu trabalho nasce do questionamento, da investigação e do incómodo. Conceitos como deslocamento, memória, ruído, vazio e fragmento orientam o meu percurso. Cada projecto resulta de um processo de pesquisa rigoroso, onde a reflexão sobre a história, o presente e a experiência vivida se traduz em expressão artística.
A narrativa histórica moçambicana é na actualidade alvo de olhares divergentes. Isso por si é um campo fértil para a arte?
A narrativa histórica moçambicana é complexa e ainda alvo de releituras divergentes. Para a arte, isso representa um terreno fértil, onde se podem explorar tensões, memórias e processos de ressignificação, criando um diálogo entre passado e presente que desafia interpretações simplistas.
Embora a arte tenha por objectivo o lazer, o desanuviar, parece que o seu propósito passa pela não distração, opta pela profundidade. A profundidade é um caminho incontornável?
Para mim, a arte não é apenas entretenimento; é um espaço de atenção, questionamento e experiência sensível. Cada projecto procura criar profundidade, convidando o público a reflectir, a sentir e a envolver-se criticamente, desde a pesquisa até à exibição.
Recentemente fez uma exposição em Maputo. Que rescaldo faz dessa mostra e da conferência que realizou?
A mostra e a conferência foram momentos de diálogo intenso com o público local, permitindo perceber como as obras são recebidas e reinterpretadas. Foi uma oportunidade para reafirmar o compromisso com a investigação artística e reflectir sobre a relação entre o trabalho e o contexto moçambicano.

Certamente que foi tempo suficiente para voltar a olhar para a terra e extrair novas impressões sobre o rumo das coisas. O que lhe pareceu tudo o que viu e viveu?
Estar novamente em Moçambique permite observar mudanças, absorver novas experiências e renovar perspectivas sobre a cidade, as pessoas e a história. É um momento de recolha e reflexão que alimentará os projectos futuros.
Por onde passa actualmente o seu projecto artístico? No que está a trabalhar e que resultados podemos esperar deste lado do mundo?
Actualmente, o meu trabalho continua a explorar memória, deslocamento e identidade através de práticas transdisciplinares. Estou a desenvolver novos projectos que cruzam investigação, performance, desenho e curadoria, com o objetivo de produzir experiências imersivas e reflexivas que dialoguem tanto com Moçambique como com o público internacional.

Foi vencedor dos Prémios Mozal Artes e Cultura 2025. Mais do que o material, que valor terá esta distinção para si?
Mais do que o reconhecimento material, esta distinção representa uma validação do percurso que tenho vindo a construir, especialmente num contexto em que grande parte do meu trabalho tem sido desenvolvido fora de Moçambique. É um incentivo para continuar a investigar, criar e expor, reforçando a relevância do diálogo artístico moçambicano e no panorama internacional.
Com uma carreira que leva alguns anos, em que fase da sua carreira lhe chega este reconhecimento? Trata-se de um artista já com os processos consolidados?
Este prémio chega numa fase em que já consolidei métodos de trabalho e processos curatoriais e artísticos próprios, mas ainda com muita vontade de experimentar e explorar novas linguagens. Não é um ponto final, mas um momento de confirmação e estímulo.
Para um artista com uma carreira a fazer-se no estrangeiro, este olhar de casa o que lhe traz? Que inquietações ou constatações lhe traz sobre o seu lugar como artista em Moçambique?
Receber este reconhecimento em Moçambique traz uma sensação de pertença e responsabilidade. Permite perceber como o meu trabalho é lido e valorizado dentro do contexto cultural que frequentemente inspira os meus projectos, reforçando a importância de manter um diálogo contínuo com a minha cultura moçambicana.
Nuno Silas
É um artista visual interdisciplinar, curador e investigador, nascido em Maputo, Moçambique, em 1988, e vive entre Alemanha, Moçambique e Portugal. A sua prática abrange performance, fotografia, instalação, pintura, investigação académica e curadoria, focando-se na memória, identidade e história, especialmente nas narrativas moçambicanas e africanas contemporâneas. Silas é doutorando em História e Filosofia da Ciência com especialização em Museologia Instituto de História Contemporânea e na Universidade Bayreuth, e tem colaborado com instituições como o Humboldt Forum Berlin, Iwalewahaus Bayreuth, Haus der Kulturen der Welt (HKW) e Galerias Municipais de Lisboa. Foi curador de projetos como Black Skin, White Masks: The Black Body in Presence (Galerias Municipais, Lisboa) e tem apresentado exposições que exploram migração, diáspora e herança cultural africana através de múltiplas linguagens visuais.
Nuno Silas é um artista visual interdisciplinar, curador e investigador, nascido em Maputo, Moçambique, em 1988, e vive entre Alemanha, Moçambique e Portugal. A sua prática abrange performance, fotografia, instalação, pintura, investigação académica e curadoria, focando-se na memória, identidade e história, especialmente nas narrativas moçambicanas e africanas contemporâneas. Silas é doutorando em História e Filosofia da Ciência com especialização em Museologia Instituto de História Contemporânea e na Universidade Bayreuth, e tem colaborado com instituições como o Humboldt Forum Berlin, Iwalewahaus Bayreuth, Haus der Kulturen der Welt (HKW) e Galerias Municipais de Lisboa. Foi curador de projetos como Black Skin, White Masks: The Black Body in Presence (Galerias Municipais, Lisboa) e tem apresentado exposições que exploram migração, diáspora e herança cultural africana através de múltiplas linguagens visuais.




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