Esta crónica é sobre aquela rapariga que cresce depressa demais porque lhe ensinaram que não podia falhar. Lembro-me de uma menina que conheci no bairro de Missão Roque. Não digo o nome porque poderia ser o nome de muitas. Podia ser a filha de qualquer casa. Todos os dias chegava da escola com o caderno debaixo do braço e ia directa para a cozinha. A casa estava cheia de homens adultos. Alguns tinham estado em casa o dia inteiro. Nenhum se levantava. Esperavam. Esperavam por ela. Era ela quem tinha de acender o fogão, preparar a comida, servir, lavar a loiça. Só depois podia sentar-se a fazer os trabalhos da escola. Às vezes já cansada demais para conseguir pensar. Na altura, ninguém achava estranho. Eu também não. Era assim que as coisas funcionavam. Dizíamos que ela era uma boa menina, bem educada, responsável. Hoje, quando penso nisso, percebo que estávamos a elogiar uma criança por carregar um peso que não era dela.

Em muitas casas da nossa sociedade, a rapariga deixa de ser apenas filha muito cedo. Torna-se ajudante, depois cuidadora, depois quase mãe. Aprende a varrer antes de aprender a brincar. Aprende a cozinhar antes de aprender a descansar sem culpa. Aprende a cuidar dos outros antes de aprender a cuidar de si. Não é que ensinar a ajudar seja errado. Não é isso. O problema começa quando ajudar deixa de ser partilha e passa a ser obrigação permanente. Quando a casa inteira passa a depender dos ombros de uma criança só porque ela nasceu rapariga.

O rapaz pode errar. A rapariga não. O rapaz pode brincar. A rapariga ajuda. O rapaz pode cansar-se. A rapariga continua. E assim cresce, acreditando que o seu valor está na utilidade e na resistência. Cresce a pedir desculpa por descansar, e a sentir culpa quando diz não. Cresce a achar normal colocar-se sempre em último lugar. Em muitas famílias, tudo isto é feito em nome da tradição. Diz-se que é para preparar a menina para ser mulher. Para ser esposa. Para ser mãe. Mas raramente alguém pergunta se essa preparação não está a roubar-lhe o direito de ser criança.

A infância não é um luxo. É uma necessidade. É na infância que se aprende a existir sem peso. Quando a infância é transformada em treino para o sacrifício, o que se cria não é maturidade. Cria-se cansaço precoce. E enquanto isso acontece com as raparigas, os rapazes crescem a observar. Crescem a ver que alguém faz. Crescem a achar natural ser servido. Ninguém lhes ensina que também é responsabilidade deles cuidar da casa, da comida, das pessoas. Mais tarde, tornam-se homens que não sabem viver sem alguém que os trate.

E as raparigas que foram treinadas desde pequenas tornam-se mulheres que continuam a cuidar. Do marido, dos filhos, da casa, da família alargada, muitas vezes também do trabalho. Cuidam de todos, mas raramente são cuidadas.

Já vi mulheres que não sabem descansar sem se sentirem culpadas. Já vi mulheres que ficam doentes e continuam a levantar-se para fazer comida. Já vi mulheres que não sabem pedir ajuda porque aprenderam que ser mulher é aguentar. Tudo isso começa cedo. Começa na menina que tinha de cozinhar enquanto os outros esperavam.

Não escrevo isto para acusar pais ou mães. Muitos repetem o que aprenderam. Muitos fazem o melhor que sabem. Mas o melhor que sabemos nem sempre é o melhor que podemos fazer. A cultura é viva. Pode crescer. Pode melhorar. Não perde valor quando se torna mais justa. Ensinar responsabilidade não é ensinar submissão. Ensinar a ajudar não é ensinar a servir sempre. Uma casa não é um quartel. É um espaço de partilha. Uma menina não nasce para ser a coluna invisível da família. Nasce para brincar, para errar, para aprender, para sonhar. Nasce para ser criança antes de ser mulher.

Se continuarmos a chamar educação ao que é sobrecarga, continuaremos a criar mulheres cansadas e homens dependentes, e depois continuaremos a perguntar-nos porque as relações são tão pesadas, porque tanta gente vive esgotada, porque tanta gente sente que nunca é suficiente. Talvez esteja na hora de olharmos para as nossas filhas com outros olhos. Não como futuras sacrificadas. Mas como pessoas inteiras. Porque roubar uma infância, mesmo que com boas intenções, continua a ser roubo.


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