A artista sul africana Gabrielle Goliath e a curadora Ingrid Masondo viram a sua obra intitulada “Elegy”, seleccionada como única representante da África do Sul na Bienal de Veneza de 2026, cancelada por ordem do ministro do Desporto, Artes e Cultura. A acção levanta sérias questões sobre a liberdade de expressão no exercício artístico no país. Incoformada com a decisão do Governo a equipa da artista submeteu um recurso junto de um tribunal.

Seleccionada por um comité independente composto por figuras prestigiadas das artes, como única representante da África do Sul para a 61 Bienal de Veneza, através da sua obra “Elegy” (Elegia), com a curadoria de Ingrid Masondo,  Goliath viu-se ‘cancelada’ por ordem do ministro do Desporto, Artes e Cultura da África do Sul, Gayton Mckenzie.

A decisão ministerial está a ser contestada pelas duas artistas e é classificada na esfera artística sul africana como um acto de censura e já mereceu um recurso junto de instâncias judiciárias para a sua reversão.

No dia 16 de Janeiro uma coligação de organizações da sociedade civil na África do Sul lançou uma campanha ‘Liberdade de Expressão’, tendo dirigido uma carta ao Presidente da República da África do Sul exigindo uma «intervenção urgente» do seu gabinete em resposta ao cancelamento, pelo Ministro do Desporto, Artes e Cultura, do pavilhão oficialmente seleccionado pela África do Sul para a 61ª Bienal de Veneza.

«Embora a decisão do ministro tenha consequências imediatas e de longo alcance para a liberdade da criatividade artística, a carta deixa claro que a questão levanta uma preocupação constitucional mais profunda: o abuso do poder executivo e o fracasso da responsabilidade coletiva do Gabinete em restringi-lo.» escrevem os signatários da Campanha Liberdade de Expressão.

Em nota, a sociedade civl sul africana indica que apelou à Presidência e ao Gabinete para que intervenham de forma decisiva para reafirmar a proteção constitucional da liberdade artística, corrigir o exercício ilegal de autoridade por parte do ministro e garantir que a obra de Gabrielle Goliath, Elegy — selecionada por unanimidade através de um processo independente para representar a África do Sul na Bienal — seja restaurada e exibida conforme inicialmente determinado.

Crédito das imagens: ZUNIS

Sobre Elegy

Escolhida por unanimidade por um comité independente para representar a África do Sul na mais prestigiada feira de arte do mundo, Gabrielle Goliath, com a curadora Ingrid Masondo, planeava apresentar uma versão actualizada de seu projecto chamado Elegy, iniciado em 2015. A performance e a série de vídeos abordam os feminicídios de pessoas transgénero e gays na África do Sul, bem como o massacre dos povos Herero e Nama perpetrado pelas forças coloniais alemãs no século XX, no território que hoje corresponde à Namíbia.

O Conselho do Pavilhão Sul Africano que escolheu a obra disse que a exposição de Goliath e Masondo irá invocar, coabitar e ressaltar as notas menores evocadas na proposta curatorial de Koyo Kouoh. Da ferida aberta da vida negada dos negros, pardos, indígenas, mulheres, queer e trans, surge um refrão terno: de lembrança, reparação e amor feminista negro. Ao confrontar a perda, a exposição convidará a um espaço de encontro de parentesco (tenu), manifestando em voz e sentimento a possibilidade de um mundo diferente.

Sobre a sua selecção, Goliath reflecte: «Este Pavilhão oferece espaço — um espaço precioso — no qual se pode expressar um trabalho reparador de amor e saudade. Tornou-se um refrão recorrente para Ingrid e para mim, e foi assim que assinámos a nossa proposta para o Pavilhão: ousamos pensar e sonhar o mundo de forma diferente.»

Por sua vez, Masondo afirmou que «O que estamos a apresentar é um convite oportuno para fazermos uma pausa juntos, num momento marcado pela divisão e pela fratura. Convida-nos a ouvir as condições que tornam possível a negligência, que permitem que certas comunidades — faladas em tons menores — desapareçam no fundo das preocupações coletivas. No entanto, este é um trabalho movido pela esperança: uma insistência silenciosa na atenção e na ternura, no cultivo lento de laços e solidariedade como práticas éticas e relacionais. Esta sensibilidade tem sido central no nosso pensamento e na nossa jornada criativa como equipa de curadores-artistas».

Crédito das imagens: ZUNIS

Mas, de acordo com a imprensa sul-africana, é no capítulo que envolve o conflito na Palestina que a obra de Goliath gerou um incómodo ao Governo sul-africano. A instalação incluiria conteúdos sobre a morte de mulheres e crianças, e uma homenagem à poetisa palestina Hiba Abu Nada, falecida em um ataque aéreo israelense em outubro de 2023.

Elegy, seria a única obra representante da África do Sul para o pavilhão do país na Bienal de Veneza que vai decorrer de 6 de Maio a 22 de Novembro de 2026. 

Em reação às palavras do Ministro das Artes e Cultura da África do Sul, Gayton McKenzie, que afirmou que os artistas eram obrigados a criar arte nacionalista e mitificadora, preocupada com a «coesão social» e apresentando «o melhor da África do Sul ao mundo», Gabrielle Goliath, disse ao Daily Maverick «Como artista, estou preocupada em revelar e recusar condições que tornam a violência possível, permissível e terrivelmente “comum”. Quais vidas estão disponíveis para serem deslocadas, violadas, mortas, renegadas?»

«Já disse isso muitas vezes: o meu trabalho não é sobre violência, mas sim sobre práticas de luto, sobrevivência e reparação, dentro e apesar dessa negligência normativa. Num momento em que manter a esperança é um imperativo político, acho que é ainda mais crucial enfatizar o meu trabalho como um trabalho de vida, e não de morte, e como algo enraizado num projeto feminista negro descolonial de cuidado e amor radical.»

Crédito de imagens: Gabrielle Goliath & Ingrid Masondo, foto de ZUNIS

Gabrielle Goliath

Através dos encontros rituais, sonoros e sociais da sua prática artística, Gabrielle Goliath (nascida em 1983 na África do Sul) atende (e cuida) das histórias e condições actuais de vidas valorizadas de forma diferenciada, reafirmando as maneiras pelas quais as práticas de possibilidade negras, pardas, femininas e queer representam o mundo de forma diferente. Cada uma das suas obras convoca um encontro – uma comunidade ténue – derrubando a suposta distância e a posição privilegiada do sujeito da representação (como branco, masculino, heteronormativo) e apelando a encontros dentro e através da diferença, em termos de cumplicidade, relação e amor.

As instalações imersivas e frequentemente duradouras de Goliath foram exibidas em toda a África do Sul e internacionalmente. Ela ganhou vários prémios, incluindo o Future Generation Art Prize – Prémio Especial (2019), o Standard Bank Young Artist Award (2019) e o Institut Français, Afrique en Créations Prize na Bienal de Bamako (2017). O seu trabalho está presente em inúmeras coleções públicas e privadas, incluindo Kunsthalle Zürich, TATE Modern, Frac Bretagne, Iziko South African National Gallery, Johannesburg Art Gallery e Wits Art Museum. Vive e trabalha em Joanesburgo, África do Sul. 

Ingrid Masondo

É curadora, arquivista e investigadora, cujo envolvimento ativo no setor do património sul-africano se estende por mais de duas décadas. Moldada por uma vida profissional passada em grande parte em instituições públicas, a sua prática aborda questões de acesso e responsabilidade, uma vez que estes são produzidos e distribuídos de forma desigual. Entre 2015 e 2024, Masondo atuou como curadora de fotografia e novas mídias na Iziko South African National Gallery, na Cidade do Cabo (ISANG). Ela também trabalhou no UWC-Robben Island Mayibuye Archives, Chimurenga Chronic, Making Music Productions, Badilisha Poetry Radio e no renomado Market Photo Workshop (onde se formou como fotógrafa). Em 2019, foi co-curadora da exposição multicanal de vídeo e som de Gabrielle Goliath, This song is for…, juntamente com Tshegofatso Mabaso. A instalação esteve em exibição na ISANG durante mais de dezoito meses, numa altura de protesto público e ativismo contra o feminicídio e a cultura da violação na África do Sul. Masondo está atualmente envolvida em projetos independentes e é bolseira de doutoramento do New Archival Visions na Universidade do Cabo Ocidental. A sua investigação chama a atenção para a dispersão e os efeitos duradouros do poder institucional na perceção e no comportamento, nas texturas do quotidiano e no estreito entrelaçamento das histórias (e memórias) pessoais e públicas. Vive e trabalha na Cidade do Cabo, África do Sul.


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