Sou muçulmano. Converti-me depois de mais de trinta anos a servir a Igreja Católica nas mais variadas formas. Fui do grupo de adolescentes, fui acólito, catequista, participei da  coordenação do grupo juvenil, no núcleo de reflexão teológica, estive disponível para tudo o que fosse preciso. Não escrevo isto para apresentar um currículo espiritual. A fé não é sobre isso, muito menos estatuto. Trago apenas este percurso porque ele explica a posição de onde falo.

Hoje, coincidentemente, iniciam dois tempos espirituais profundos: o Ramadan e a Quaresma. Para os muçulmanos, o Ramadan é o mês do jejum, da oração intensificada, da caridade e da purificação interior. É um tempo de disciplina e de proximidade a Deus. Para os cristãos, a Quaresma é o período de quarenta dias de conversão, penitência, jejum e preparação para a Páscoa. Dois caminhos distintos, duas tradições com histórias diferentes, mas ambos marcados pela introspecção, pelo silêncio e pela busca de sentido.

E talvez não seja coincidência que estes dois tempos se encontrem. Talvez seja um lembrete. Por causa da minha história, continuo ligado a crentes das duas confissões. Estou em vários grupos de WhatsApp com irmãos católicos. Converso regularmente com muçulmanos praticantes. Partilho reflexões com amigos evangélicos. E é nesse espaço plural que percebo algo que me inquieta profundamente. Há sempre alguém que se assume fiscal da fé. Alguém que observa a prática do outro como se tivesse sido nomeado representante oficial de Deus. Alguém que corrige com dureza a oração alheia. Alguém que questiona a intenção do jejum do outro. Alguém que se posiciona como guardião da ortodoxia.

Já assisti a discussões acesas em grupos religiosos por causa da forma correcta de fazer o sinal da cruz. Já vi irmãos muçulmanos discutirem violentamente por causa da posição exacta das mãos durante a oração. Já vi alguém ser humilhado publicamente porque, por doença, não conseguiu cumprir o jejum. Já vi olhares de desprezo dirigidos a quem cometeu um erro simples num ritual. E no meio disso, pergunto-me com dor: desde quando a fé virou competição?

Moçambique é um dos poucos países do mundo onde a pluralidade religiosa convive de forma relativamente harmoniosa. Aqui encontramos mesquitas e igrejas na mesma rua. Aqui vemos muçulmanos a felicitarem cristãos na Páscoa e cristãos a desejarem bom Ramadan aos seus vizinhos. Aqui partilhamos comida, festas, lutos e alegrias. Isso deveria ser motivo de celebração permanente. Mas mesmo neste paraíso de convivência, há quem queira estreitar o que é largo. Há quem transforme diferença em ameaça. Há quem use o nome de Deus para vigiar, medir e classificar os outros. Não quero entrar em debates teológicos. Não escrevo para provar qual é a religião verdadeira. Escrevo para falar da dimensão humana da fé. Porque, no fim, o que define um crente não é a perfeição ritual. É a qualidade do seu coração.

O Ramadan ensina o autocontrolo. Ensina a sentir a fome para compreender quem não tem o que comer. Ensina a dominar o ego. A Quaresma ensina o arrependimento, a revisão de vida, a solidariedade com os que sofrem. Ambos convidam à humildade. Nenhum destes tempos convida à arrogância. Se o jejum me torna mais impaciente com quem não jejua, falhei. Se a penitência me transforma em juiz do outro, perdi o sentido. Se a oração me dá sensação de superioridade, então talvez eu esteja a rezar apenas para mim próprio.

Há pessoas que vivem a religião como se fossem polícias do céu. Estão sempre prontas a apontar falhas. Observam se o outro orou correctamente. Se vestiu a roupa adequada. Se pronunciou a palavra certa. Se cumpriu o rito exactamente como manda a tradição oriental ou ocidental. Mas esquecem-se de olhar para dentro. Esquecem-se de que Deus não precisa de advogados agressivos. Deus não precisa de fiscais.

Já testemunhei amizades enfraquecidas porque alguém decidiu impor a sua interpretação como única válida. Já vi jovens afastarem-se de comunidades religiosas porque se sentiram constantemente julgados. Já vi famílias divididas por pequenas divergências de prática. Recentemente, num grupo de WhatsApp, alguém partilhou uma reflexão simples sobre o significado espiritual do jejum. Em poucos minutos, surgiram mensagens a corrigir termos, a questionar a ortodoxia da explicação, a insinuar ignorância. O autor da mensagem silenciou-se. A partilha, que poderia ter sido um momento de crescimento, transformou-se num campo de disputa. E isto acontece em todas as confissões.

O problema não é o Islam, o Catolicismo, o Protestantismo, ou qualquer outra tradição. O problema é o ego humano. É o desejo de estar certo. É a necessidade de afirmar superioridade espiritual. É a tentação de medir a fé do outro para validar a própria. Aqui entra a filosofia africana Ubuntu, que ensina que a minha humanidade está ligada à tua. Eu sou porque nós somos. O meu crescimento não exige a tua queda. A minha luz não depende da tua sombra. Esta filosofia ancestral dialoga profundamente com qualquer religião que se diga verdadeira.

Ubuntu lembra-nos que não existimos isolados. Que o outro não é ameaça. É parte da nossa própria construção. Quando fiscalizamos a fé alheia com dureza, quebramos o Ubuntu. Criamos distância, medo e ressentimento. Já vi pessoas deixarem de frequentar a igreja porque se sentiam constantemente avaliadas. Já vi muçulmanos afastarem-se da mesquita porque se sentiam olhados de cima a baixo. Já vi jovens esconderem dúvidas por medo de julgamento. E que tipo de comunidade é aquela onde não se pode duvidar? Que tipo de fé é aquela que não suporta perguntas?

Este é o momento, tanto para muçulmanos como para cristãos, de aprofundamento interior. É tempo de abraços e não de ameaças. É tempo de rever o próprio coração, não de examinar o do vizinho. Quando um muçulmano inicia o seu jejum e um cristão inicia a sua Quaresma no mesmo período, o mundo recebe uma mensagem forte. O essencial é comum: humildade, disciplina, retorno ao bem. Mas se transformarmos esse tempo em competição de pureza, perderemos a oportunidade. Escrevo isto porque estou cansado de ver a fé transformada em arma subtil. Cansado de ver crentes que parecem disputar quem é mais próximo de Deus. Cansado de perceber que, muitas vezes, quem mais fala em nome de Deus é quem menos demonstra compaixão. A verdadeira maturidade espiritual não se manifesta na capacidade de corrigir o outro. Manifesta-se na capacidade de amar apesar da diferença. Não precisamos de menos religião. Precisamos de mais humanidade dentro da religião. Que este Ramadan e esta Quaresma sejam tempos de vigilância interior e não de vigilância alheia.


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