Houve um tempo, anterior às codificações da modernidade, em que a mulher era reverenciada como a guardiã absoluta dos portais da existência. Ela não era apenas parte da natureza, era a própria inteligência da terra, a senhora dos saberes ancestrais, das curas e dos ciclos lunares.

No entanto, o caminhar da história muitas vezes tentou reduzir essa potência ao plano do objecto, ou seja, uma imagem a ser consumida, moldada pelos olhos que a desejam, como se sua força existisse apenas para gerar e nutrir a vida.

​Mas a verdadeira essência da fertilidade transborda o útero biológico para se tornar, a fecundidade das ideias e das emoções parafraseando, Eliana N’Zualo.

É nesta reivindicação de soberania que a exposição “O Outro Lado de Vénus”, de Mafalda Vasconcelos, patente desde 4 de Março na galeria da Fundação Fernando Leite Couto, se apresenta.

Vénus é um planeta de calor latente e pressão extrema. A sensibilidade poética de Mafalda transforma a pressão na força necessária para a “reexistência” da mulher como centro do seu próprio universo.

Ao percorrer a galeria, as imagens parecem adquirir vida. Não se oferecem à contemplação passiva, mas sim convocam o observador ao diálogo, como se cada olhar inscrito na tela estivesse prestes a desdobrar uma narrativa atravessada por gerações.

Na obra “Mãe” (2024), Mafalda apresenta-nos uma composição que é, paralelamente, um acto de ternura e uma afirmação de força. Executada numa técnica mista de óleo e acrílico sobre tela (50×70 cm), a peça ancora a exposição com uma gravidade serena e uma paleta terrosa que remete para as origens.

A artista opta por um enquadramento fechado, onde as figuras ocupam a quase totalidade do plano. Esta fortificação orgânica opera uma ruptura com a tradição iconográfica ocidental. Ao contrário das célebres Madonnas de Leonardo da Vinci, que se curvam sobre a prole num gesto de adoração e passividade, a figura de Vasconcelos recusa a introspeção. Ela não olha para o filho, ela encara o espectador.

Esse olhar frontal transforma a maternidade de um porto de abrigo numa presença inabalável, estabelecendo uma barreira existencial entre a vulnerabilidade da criança e a espessura do fundo.

Existe uma tensão vibrante entre o verde da vestimenta da criança, encarnando o epicentro de uma esperança que se projecta e a opacidade dos tons castanhos que ancoram a mãe às raízes.

 Ao estabelecer este diálogo com o classicismo, a artista descoloniza o sagrado e devolve à mulher a autoridade do olhar, apresentando a maternidade não como um estado de repouso, antes como um acto político de guarda contra a passagem do tempo. Afinal, como afirma Chimamanda Ngozi Adichie, a cultura não faz as pessoas; as pessoas fazem a cultura.

 ​Ao afastar o olhar da centralidade da “Mãe”, percebe-se que a exposição se organiza como um arquipélago de presenças soberanas. Cada tela é uma ilha de cor onde a mulher não habita o cenário, mas emana o próprio espaço. Esta simbiose entre figura e fundo materializa a premissa da artista: para si, o feminino é o acto de cuidar dos espaços que nos rodeiam, criando assim, harmonia entre o corpo e a paisagem.

Essa curadoria do zelo é sustentada por uma materialidade táctil que estende-se à horizontalidade de “Anouk”, onde a suavidade da luz reclama o direito ao repouso, como se a pele desta mulher partilhasse a mesma génese do barro ou da crosta terrestre.

A autoridade do olhar, quando replicada de forma sistemática, corre o risco de resvalar num estatismo formal. Ao privilegiar uma única fórmula estética, a exposição resulta numa certa monotonia visual que limita a exploração de outras facetas, como o movimento ou a dúvida, confinando as personagens a uma dignidade icónica que priva o espectador de uma narrativa mais dinâmica e diversificada.

Visitar esta mostra é, por fim, descobrir que “ O outro lado de Vénus” reside na face oculta de quem faz do cuidado a sua mais inabalável fortaleza. Entre raízes e afectos, Mafalda Vasconcelos devolve-nos uma divindade terrena que, ao proteger o seu próprio espaço, garante que a sua luz nunca seja eclipsada pelo tempo.


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