“Na escola não aprendemos só a ler, escrever e contar. O professor não ensina só o que sabe, ensina o que é. Na escola formamos pessoas.”

Hoje começo com esta frase da pedagoga Ana Josefa Cardoso porque, nas últimas 72 horas, ela tem feito ainda mais sentido para mim. Foi por causa de um professor. Não daqueles que conhecemos pelos títulos académicos, pelos cargos ou pelos discursos formais. Foi por causa de um professor que apareceu em pequenos vídeos, partilhados em cortes, nos grupos de WhatsApp, nas redes sociais, naquelas partilhas que normalmente vemos rápido e seguimos em frente. Mas desta vez não segui em frente. Parei. E decidi ir ver mais.

Falo de Jaleia, o professor. Depois de ver vários desses vídeos, fui à sua página no Facebook. A ideia era simples. Ver dois ou três conteúdos e sair. Mas não foi isso que aconteceu. Fiquei, rolei, assisti e voltei a ver. E quando dei conta, já tinha passado quase meia hora. E ali percebi algo que sempre defendi, mas que nem sempre consigo provar com exemplos concretos. Há uma diferença entre influenciador digital e influenciador humano. E Jaleia pertence claramente ao segundo grupo.

Conheci Jaleia em trinta minutos. Mas há quem, depois de o conhecer, nunca mais o esqueça. Não pelo que diz apenas. Mas pelo que é. E aqui entra uma distinção que parece pequena, mas que muda tudo. Professor Jaleia é um título.Jaleia, o professor, é uma identidade. No primeiro, vemos a função, e no segundo, sentimos a missão. E é nessa segunda forma que ele se apresenta ao mundo. Não como alguém que apenas ensina conteúdos, mas como alguém que se entrega ao acto de educar.

Fui, inclusive, assistir ao episódio do podcast “Tu para Tu, com Cardo”, onde ele foi convidado. E há um momento, de vários, que me ficou. Um daqueles momentos que nos obriga a parar. Ele conta que, por causa da distância e das chuvas, teve de dormir na casa de uma das crianças. Não era uma casa confortável. Não havia condições ideais. Dormiu por cima da roupa da própria criança, num gesto simples mas carregado de significado. E aquela criança, mesmo com pouco, sorriu e serviu.

Há coisas que não se ensinam na universidade. Há coisas que só se vivem. E é aí que começa a verdadeira educação. Quando falamos de professores em Moçambique, muitas vezes falamos de salários baixos, de turmas cheias, de falta de condições, de desmotivação. E tudo isso é real e precisa de ser discutido. Mas há também histórias que nos obrigam a olhar para o outro lado. Para aqueles que, mesmo no meio das dificuldades, escolhem não desistir do humano. Jaleia trabalha num contexto que muitos evitariam. Crianças com limitações materiais evidentes. Escolas com poucos recursos. Comunidades onde a pobreza não é estatística, é realidade diária. E ainda assim, o que se vê nos seus vídeos não é miséria. É dignidade, alegria e presença humana.

Há um episódio em que ele interage com as crianças de forma leve, brinca, envolve, cria ligação. E naquele momento percebe-se que aquelas crianças não estão apenas a aprender conteúdos. Estão a ser vistas, reconhecidas e valorizadas. E isso muda tudo. Porque uma criança que se sente vista aprende de outra forma. Uma criança que se sente respeitada cresce de outra forma. Uma criança que sente que alguém acredita nela começa a acreditar também. E talvez seja isso que mais nos falte enquanto sociedade.

Vivemos num tempo em que muitos querem ensinar, mas poucos querem envolver-se. Muitos querem falar, mas poucos querem escutar. Muitos querem aparecer, mas poucos querem servir. E aqui entra a crítica que não podemos evitar. Temos assistido a uma crescente valorização de figuras públicas que falam muito, mas fazem pouco. Pessoas que constroem imagem, mas não constroem impacto. Pessoas que acumulam seguidores, mas não tocam vidas. E depois aparece alguém como Jaleia, sem grandes produções, discursos sofisticados, nem estratégias elaboradas. Mas com verdade. E essa verdade atravessa o ecrã. Ele entra, sem pedir licença, na lista dos meus influenciadores humanos mais marcantes. E não pelo número de seguidores, mas pelo peso das suas acções. Tem 23 anos. Mas pensa e age com uma maturidade que muitos só alcançam depois de décadas. E isso deveria fazer-nos reflectir.

O que estamos a valorizar enquanto sociedade? Quem estamos a aplaudir? Quem estamos a tornar referência? Porque educar não é apenas transmitir conhecimento. Como diz Summeya Gafur, no livro “Educar com Emoção”, educar é transformar, e isso exige presença, entrega e humanidade. Jaleia já faz isso. Com o que tem e com o que é. E com o pouco que o sistema lhe oferece. E talvez seja aqui que a nossa responsabilidade colectiva entra. Não basta admirar. Não basta partilhar vídeos. Não basta comentar. Precisamos criar condições para que mais “Jaleias” existam.

Precisamos valorizar professores que ensinam com o coração, mas também garantir que não tenham de sobreviver em condições que testam constantemente a sua dignidade. Porque não podemos romantizar a dificuldade. Há beleza na entrega, mas não deveria haver necessidade de sofrimento para que ela exista.

Se uma criança precisa de caminhar quilómetros para estudar, há um problema. Se um professor precisa de dormir em casa de alunos por falta de condições, há um problema. E reconhecer isso não diminui o gesto. Amplia a urgência. Escrevo isto com respeito. Se esta crónica chegar até ti, Jaleia, o professor, recebe o meu respeito. Recebe o meu reconhecimento. E como tu próprio gostas de dizer para animar os teus alunos…

“Mandjaaa.”

Hoje, as palmas são para ti. E que nunca nos falte gente que ensine não apenas o que sabe. Mas, sobretudo, o que é.


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