Há datas que o tempo não consegue apagar. E há outras que o tempo transforma. O dia 7 de Abril, em Moçambique, é uma dessas datas. Celebramos a mulher moçambicana. Celebramos a vida e obra de Josina Machel, que partiu em 1971, mas deixou um legado que continua a fazer diferença. Foi ela uma das responsáveis pela criação do Destacamento Feminino, num tempo em que a luta era feita com armas, mas também com coragem, consciência e sacrifício.
Naquele tempo, a mulher estava na frente da guerrilha, mas também noutras frentes invisíveis. Educava, cuidava, organizava, resistia. Era luta em várias dimensões. Com o passar dos anos, essas frentes foram ocupadas por mulheres de todas as origens. Hoje encontramos mulheres na política, na educação, no comércio informal, nas casas, nas ruas, nos hospitais, nos mercados, nas igrejas, nas universidades. Mas também encontramos um debate.
Há quem diga que o 7 de Abril perdeu o seu significado. Que foi banalizado. Que se transformou em festa, danças sem pudor, consumo excessivo, encontros sem medida. Há quem veja nisso um desrespeito à memória de Josina Machel. E há quem veja simplesmente mulheres a celebrarem-se. Eu não escrevo hoje, como sempre, para tomar posição. Nem para julgar. Escrevo porque vivi algo que me fez perceber que talvez não tenhamos compreendido completamente este dia. E essa compreensão veio através de um objecto simples: A capulana.
A capulana não é apenas tecido, muito menos, um simples objecto tradicional. Ela tem história. Segundo vários estudos, a capulana tem origem na Ásia, com influência da técnica de batik da Indonésia. Chegou a Moçambique entre os séculos IX e X através de comerciantes árabes. No início era moeda de troca. Era símbolo de poder e de luxo. Com o tempo, deixou de ser apenas importada e passou a ganhar identidade local. Tornou-se linguagem, símbolo e por fim, pertença. Aliás, acima de tudo, tornou-se carregada de significado social. A mulher moçambicana nasce envolta em capulana, carrega filhos na capulana, trabalha com capulana e celebra com capulana. E um dia, parte também envolta nela. Entre o nascimento e a morte, a capulana acompanha a existência.
Ontem fui ao mercado do Xipamanine. Fui com a intenção de comprar capulanas para as mulheres da minha vida. Sim, eu acredito que elas merecem. Mas, sendo honesto, não sabia exactamente porquê. Para mim, são “coisas de tradição”, como se diz por aqui.
Até aquele momento, a loja estava cheia. Mulheres de várias idades, a escolher, a tocar, a comparar padrões, cores, tecidos. Eu era o único homem ali dentro. E foi então que a vi. Uma senhora já de idade, sozinha, sem pressa e sem ninguém a orientar. Ela não estava apenas a escolher uma capulana. Ela estava a “enjoyar” aquele momento. Pegava numa, olhava, passava a mão pelo tecido, aproximava ao corpo, afastava, voltava a olhar. Havia ali um cuidado que não era comum. Quando finalmente escolheu uma, o gesto foi diferente, porque sorriu. Mas não foi um sorriso qualquer, mas daqueles que se reconhece. Foi um sorriso de quem se permite, naquele instante, existir com dignidade. Parecia que aquela capulana não era apenas um objecto. Era um símbolo. Era como se dissesse para si mesma: hoje também é meu dia. E naquele momento, eu entendi. Os duzentos e cinquenta meticais que ela tirou não eram apenas dinheiro. Podiam fazer falta noutras coisas, como alimentação, transporte ou outra qualquer outra necessidade urgente. Mas naquele instante, foram investidos em algo maior: em identidade, dignidade e em pertencimento.
Aproximei-me e perguntei, com respeito, se as capulanas que tinha escolhido eram bonitas. Ela respondeu que sim e acrescentou algo que me ficou: Disse que as “minhas mulheres” também iam gostar muito, mesmo que já tivessem outras capulanas. Naquela resposta havia generosidade e uma consciência colectiva. Era como se aquela alegria não fosse só dela. Era de todas. E foi ali, naquela loja do “xipama”, que eu senti algo que nunca tinha sentido em relação a esta data. Percebi que talvez tenhamos sido rápidos demais a julgar.
Se há excessos? Sim, há. Há desvios, creio que sim. Há comportamentos que podem ser questionados, “ina phe”, mas também há histórias que não conhecemos. Há mulheres que lutam todos os dias, carregando famílias inteiras, que sobrevivem com pouco, que raramente têm espaço para se celebrar. E que, hoje, encontram uma forma de dizer: eu também existo.
Como diria o filósofo africano Kwame Nkrumah, a verdadeira liberdade não é apenas política, é também a capacidade de um povo afirmar a sua identidade e dignidade. E talvez a capulana seja isso. Uma afirmação silenciosa de dignidade. Também podemos lembrar Julius Nyerere, que defendia que o desenvolvimento não se mede apenas por indicadores económicos, mas pela forma como as pessoas vivem com dignidade. E dignidade, às vezes, está num gesto simples, neste tecido escolhido com cuidado. Vamos com calma, porque nem toda dança é desrespeito. Nem toda celebração é desvio. Nem toda capulana é apenas pano (aliás, nunca será só pano).
Saí do mercado com uma sensação diferente. Nunca mais vou olhar para o dia 7 de Abril da mesma forma, porque agora sei que há mulheres que, naquele dia, não estão apenas a celebrar, estão a resistir, a afirmar-se e a existir. E às vezes, tudo isso cabe numa capulana.

Afinal, capulana para quê?
Chegou a Moçambique entre os séculos IX e X através de comerciantes árabes. No início era moeda de troca. Era símbolo de poder e de luxo. Com o tempo, deixou de ser apenas importada e passou a ganhar identidade local.
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