Naquele sábado quente, fui ao salão da zona, na tia Rosa. Era dia de lavar o cabelo, de “raspar a caspa”, de sacudir o pó da semana, de cuidar do couro cabeludo como se cuida da terra antes da sementeira.
Entrei e encontrei a bicha. Três mulheres sentadas, outras duas em pé. Uma adolescente de capulana mal ajustada, ou propositadamente, com o limite acima do joelho e uma mulher mais velha de lenço amarrado ao estilo das nossas avós. Todas esperavam a sua vez para pôr a prótese. Cabelos indianos, brasileiros, vietnamitas, sintéticos, encaracolados, lisos, de todas as cores. Uma montra de escolhas. Um desfile de ausências.
— Está calor, tia Rosa! — disse, depois de saudar, como se a província toda não soubesse.
— Mais calor está na cabeça destas nossas manas, com três horas de secador para colar cabelo que não é nosso — respondeu, sem levantar os olhos da jovem que penteava.
O salão fez-se brindar com umas risadas, algumas sarcásticas. Eu também. Mas havia qualquer coisa ali que me fez ficar calado. Sentei-me num banco de madeira e esperei. A conversa à minha volta era murmúrio. Falava-se das mulheres corajosas do “Magia do amor” no programa do filho do povo, do casamento do chefe de “dez casas” que não durou um mês, da nova igreja que abriu perto do mercadinho. E, claro, dos cabelos.
A mulher de lenço — chamava-se tia Alzira — olhou para mim de lado, depois disse:
— E tu, meu filho, vieste nos humilhar? Com esse cabelo bonito…e cheio!
— Vim lavar a cabeça e os pensamentos, tia.
Riram-se. Mas ela não. Tinha os olhos de quem já viu muitas modas ir e vir.
— Tu és desses que andam a dizer que prótese é vergonha?
— Não, tia. Não disse isso. Mas penso muito sobre isso, sim. Porque será que as nossas irmãs querem tanto esconder o cabelo que têm?
Ela endireitou-se. O lenço escorregou ligeiramente, mostrando um “cabelo tímido”, “quase inexistente” e branco como algodão velho.
— Querer não é sempre o verbo certo. Às vezes é precisar. E às vezes é o mundo que obriga. Já pensaste quantas portas se fecham para uma mulher que chega com xiquenheta[1] ou com o cabelo solto? No banco, no emprego, até na igreja?
— Já pensei, sim — respondi. — E é isso mesmo que me incomoda. Porque temos de mudar para caber, em vez de fazer com que o lugar se alargue?
— Mas enquanto o lugar não se alarga, precisamos de comer. De mandar nossos filhos para a escola. De ser levada a sério.
A adolescente tirou os olhos do celular, dando uma pausa no insta do txiu Gugu.
— Eu gosto das minhas perucas. Tenho uma rosa, uma azul e uma loira. Cada uma com um nome. A loira chama-se Beyoncé.
A gargalhada foi geral.
— E o teu cabelo, filha? Gostas dele?
Ela encolheu os ombros.
— Dá muito trabalho.
— Mas também dá raiz — disse eu. — Dá história.
— História não dá likes — murmurou ela.
A frase caiu como uma chapada. E ninguém riu dessa vez. Ficámos em silêncio uns instantes. A tia Rosa aproveitou para chamar a próxima cliente. Eu continuei sentado, a olhar para os fios caídos no chão. Tão parecidos com os das vassouras. Mas agora importados, com cheiro a plástico e promessas de beleza.
A tia Alzira retomou:
— Sabes, meu filho, eu cresci com a minha mãe a pentear-me com um pente de madeira que o meu pai fez. Era um ritual. Havia cantigas. Havia cheiros. Mas depois veio a televisão. E as revistas. E a ideia de que o cabelo bom era o cabelo que voava com o vento.
— E se for o vento que está errado? — perguntei.
Ela olhou-me, surpreendida.
— Oi?
— Se for o vento que sopra na direcção contrária ao que somos? Se tivermos de aprender a fazer redemoinhos ao nosso jeito?
Ela ficou pensativa. A adolescente voltou ao celular. Outra mulher, de unhas longas e maquilhagem impecável, juntou-se à conversa.
— Eu sou evangélica. Na minha igreja, dizem que cabelo artificial é pecado. Que é coisa de satanás.
— E tu acreditas? — perguntei.
— Eu acredito que o pecado maior é apontar o dedo. Mas, sim, às vezes sinto culpa. Tiro a peruca antes de orar. Como se Deus não me reconhecesse de cabelo que não é meu.
— Talvez Deus esteja mais preocupado com o que está dentro da cabeça do que com o que está por cima.
Ela sorriu. Mas havia cansaço no sorriso.
— Mesmo assim, quando vou de cabelo natural, dizem que estou desleixada. Quando uso turbante, perguntam se virei muçulmana. Quando faço tranças, acham que estou txonada[2].
— Então, afinal, qual é o cabelo certo?
Ninguém respondeu. Porque todos sabíamos que a resposta não existe. Ou melhor: existe, mas está presa nas teias de muitas coisas — colonização, moda, religião, mercado, identidade, autoestima, sobrevivência.
— Sabem o que eu gostava? — disse eu, antes de me levantar. — Que o salão fosse também escola. Que, enquanto se penteiam cabeças, se penteassem também ideias. Que as mulheres soubessem o que foi a Lei de Tignon, como um dos exemplos, que proibia os negros de usarem o seu cabelo natural. Que falássemos de como as nossas avós usavam tranças para passar mensagens durante o tempo da escravatura e identificarem clãs. Que houvesse orgulho, não só estilo.
A tia Rosa, que continuava a pentear, olhou-me pelo espelho.
— E tu, filho, falas muito bem, mas fizeste o quê hoje pelo orgulho?
Fiquei quieto.
— Vieste lavar o cabelo, mas quando foi a última vez que lavaste uma cabeça de uma criança na tua família? Que penteaste uma prima? Que disseste a uma menina que o cabelo dela é bonito tal como é?
Doeu. Porque verdade dita assim, sem anestesia, dói. Mas é preciso.
— Tens razão, tia Rosa. Falo muito e faço pouco. Mas hoje é um começo.
Levantei-me. O banco já me marcava as nádegas. Ia-me embora, mas a tia Alzira chamou-me.
— Volta cá próximo sábado. Não só para lavar a cabeça. Mas para lavar o mundo connosco, um fio de cabelo de cada vez.
Saí do salão com o couro cabeludo fresco e o coração cheio. Na zona, mesmo nas conversas mais simples, às vezes encontra-se o fio certo para tecer uma nova memória. .negro
Imagem de rawpixel.com no Freepik
[1] Xiquenheta – (escrita consoante a pronúncia) é um tipo de tranças comum em Moçambique
[2] Txonada – sem dinheiro
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Uma resposta para “no salão da zona!”.
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O maior problema é o padrão de beleza que valoriza apenas cabelos importados. E é nisso que reside o cerne da questão, por onde o debate deve iniciar. Pois, embora existam diferentes perspectivas entre gerações, ambas são afectadas por um sistema opressor. A busca por validação nas redes sociais é uma arma desse sistema.
O cabelo natural da mulher negra é apenas um dos muitos capítulos da rica história capilar feminina, e os seus vários estilos. E é essa versatilidade que se torna uma ferramenta de sobrevivência, adaptando-se a ambientes hostis.
A reflexão deve focar no sistema que obriga essas escolhas e agir para mudar essa realidade “um fio de cabelo de cada vez” – Cabelo crespo um campo de batalha e resistência.
Texto muito forte.CurtirCurtir





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