Era domingo, o sol teria acordado mais cedo do que eu, mas a minha “missão” já esperava por mim — comprar pão e o que a senhora decidir “daqui para aqui”, que está em falta no crib. O ar estava húmido, daqueles que pesam sobre os ombros e fazem a pele colar à roupa. Ainda nem tinha chegado ao cruzamento da esquina e já ouvia, ao longe, as gargalhadas masculinas.
O campinho da zona aparecia logo depois do areal batido. Duas balizas de ferro velho, a rede feita de cordas desirmanadas. Ao fundo, os “putos” mais novos ainda corriam descalços atrás de uma bola furada. Mas o jogo principal, o que tinha reunido a elite masculina da zona, já teria terminado. Ou, melhor dizendo, tinha mudado de campo.
A bola estava agora encostada a um canto, esquecida como um brinquedo velho. O centro das atenções era a mesa de plástico e algumas caixas de cerveja da tia Suzana — rainha absoluta do petisco, na barraca improvisada bem ao lado das quatro linhas. Ninguém sabe ao certo há quanto tempo ela faz esse negócio ali, mas todos juram que já estava antes da baliza norte perder a rede. Sopa de feijão (com algumas patinhas a nadarem de bruços), cuzinhos de galinha, moelas, rachel, e por vezes, algumas chamussas de camarão (sem o camarão). Cervejas a suar nas mãos, como se tivessem corrido também.
A tia Suzana mexia-se com uma agilidade que desmentia os seus cinquenta e tal anos. Um olho nos clientes, outro nas panelas e no fogão. E sempre um sorriso de canto, como quem sabe mais do que diz.
— Eh, Negro! — gritou Juwas, levantando a garrafa a meio caminho da boca. — Vem lá bater uma!
— Parei de beber há um time, Juwas. Mas, valeu!
Ele ficou a olhar para mim como quem tenta decifrar um estrangeiro a falar rápido.
— Paraste? Assim até quando para te juntares a malta?
— Hoje também podia ser…, mas de outra maneira.
O Celso, com o camisete do equipamento amarrada a cabeça, enfiou-se na conversa:
— Esse gajo virou filósofo, poeta… essas cenas aí. Acho que agora anda escrever sobre nós!
Riram-se. Eu também. Mas havia qualquer coisa naquele riso que não descia bem. Era um riso com areia — arranhava.
Olhei à volta: uns dez homens, todos com casa para voltar, todos com filhos e mulheres à espera — ou, talvez, já sem esperar. Alguns ainda suavam do jogo; outros já suavam da cerveja. Havia um cheiro misto de areia seca, gordura frita e álcool.
— E a família? Tranquilo?
Um silêncio breve. Juwas encolheu os ombros:
— Sabem que domingo é o nosso dia.
Não era sobre isso que perguntava, mas… aproveitei a deixa.
— O vosso dia… ou o vosso escape?
O Jaime, sempre mais calado, levantou os olhos da tijelinha de sopa:
— Lá em casa só se fala de contas, dinheiro de chapa dos putos, do gás que acabou. Aqui a malta respira.
— Mas enquanto vocês respiram aqui, quem segura o ar lá?
O Celso baixou os olhos para a cerveja.
— Lá… as senhoras seguram. Sempre seguraram.
— E acham que isso é justo?
Outro silêncio, mais pesado. O Juwas quebrou-o, com um sorriso que não chegava aos olhos:
— Justo? A vida não é justa. Nós só estamos a aguentar. São maningue cenas.
— Mas aguentar não é o mesmo que viver — disse eu. — E, no fundo, será que não estamos todos a fugir?
O Jaime ergueu as sobrancelhas:
— Fugir de quê?
— De sermos pais de verdade. Maridos de verdade. Homens de verdade. Aqui no campinho, durante os noventa, somos heróis. Depois passamos para clientes da tia Suzana. Lá em casa, é mais difícil.
A tia Suzana, que até então não se metera, pousou um prato de cuzinhos fritos no centro da mesa:
— Vocês falam muito bem, meu filho. Mas e eu? Vivo do que vendo aqui. Se vocês não beberem, não como. A culpa é minha também?
— Não é questão de culpa, tia. É de saber o que estamos a construir.
— Construir? — Ela soltou uma gargalhada breve. — Aqui só se constrói barriga.
Desta vez, ninguém riu. Aproveitei o silêncio para lembrar-me do meu pai. Ele também tinha o seu “campo da zona” — não era de futebol, era a esplanada dos oficiais. Ia para “trocar ideias” e voltava tarde. Lembro-me da minha mãe a pôr o prato dele de lado, sempre com a mesma frase: “Quando ele quiser comer, está aqui.” Quase sempre, quando chegava, já a comida estava fria. E, muitas vezes, a conversa também.
Voltei ao presente.
— E os vossos filhos? — perguntei. — Já vieram vos ver a jogar?
O Juwas riu.
— Claro que sim. Mas preferem ver televisão.
— Talvez preferissem ver-vos em casa, a brincar com eles.
O Celso abanou a cabeça.
— Em casa? Lá não há aplausos. Aqui, quando marcas, até o adversário te respeita.
— E quanto vale esse respeito, quando chegas a casa e não sabes o que o teu filho fez durante a semana?
O Jaime suspirou.
— Tu complicas muito as coisas, pá.
— Não é complicar. É perguntar. Quando foi a última vez que ajudaram os miúdos no TPC? Que perguntaram a vossa senhora “qual é a ideia para este final de semana”?
O Juwas mordeu um rachel preso no pau da espetada, mastigou devagar.
— Isso aí… não sei. Mas sei que, se não tiver este domingo, não aguento a semana.
— Então talvez a questão não seja o domingo, mas o que é que a semana vos está a fazer.
A tia Suzana levantou-se, limpou as mãos ao pano da cintura.
— A semana faz-nos duros, meu filho. Aqui, ao menos, amolecemos um bocadinho.
Olhei para ela. A fala dela tinha quase o mesmo peso que aqueles dois golos do Geny ao meu glorioso. Ficámos todos calados durante alguns minutos. Só se ouvia o tilintar de garrafas nas caixas de cerveja que serviam de móveis.
Despedi-me. Continuei o caminho para o mercadinho. Atrás de mim, ouvi de novo o estalar de uma tampa de cerveja e as gargalhadas. Mas fiquei certo de que, por baixo do barulho, algumas perguntas iam ficar ali, a ecoar no campinho da zona.
Imagem: Freepik





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