A abolição da escravatura foi um dos principais acontecimentos da humanidade entre o final do século XVIII e quase todo o século XIX. A história ensina-nos que os episódios de vulto que marcam o curso da vida social têm caminhado lado a lado com amplos movimentos filosóficos e culturais.
Portugal foi pioneiro na abolição do tráfico de escravos em 1761, declarando livres os escravizados que entrassem no país, e, em 1869, aboliu a escravatura em todos os territórios sob o seu protetorado. Em 1865, com o fim da Guerra Civil e a ratificação da Décima Terceira Emenda à Constituição, foi abolida a escravatura nos Estados Unidos da América.
Paralelamente, em 1827 foi fundado o Freedom’s Journal, o primeiro jornal detido por negros nos Estados Unidos, que serviu de plataforma para ampliar a reflexão e o relato da experiência negra em contextos de escravatura e colonização. Em 1847, Frederick Douglas fundou, em Nova Iorque, The North Star, um jornal voltado exclusivamente para a luta contra a escravatura.
Em 1861, Thomas Hamilton Sr. lançou o seu projeto editorial, que incluía um jornal, o Anglo-African Magazine, e uma editora de livros, publicando o primeiro livro de Robert Campbell, A Pilgrimage to My Motherland. Assim, abriu espaço para o pan-africanismo editorial. Os livros editados por Hamilton Sr. ajudaram a amplificar as vozes de escritores e intelectuais negros num dos períodos mais desafiadores para as comunidades negras do ponto de vista social e político. Boa parte das obras publicadas pela The Anglo-African focava-se em questões como a escravatura, a colonização e o repatriamento de escravizados libertos dos Estados Unidos para África. Nessa época, a Libéria era vista como a terra prometida dos afro-americanos.
No século XX, concretamente em 1947, Alioune Diop fundou, em Paris, o periódico Présence Africaine, que mais tarde se tornou também editora. Este marco fez do seu fundador, que já era representante senegalês no Senado francês, uma voz importante da opinião negra africana durante um período crucial na história do continente. A Présence Africaine não representava uma única faceta do pensamento africano: funcionava, e ainda funciona, como um espaço onde diferentes culturas e ideologias negras se encontram em debate. Durante o período das lutas anticoloniais, publicou textos que refletiam a excitação e as incertezas de uma época em que muitos países africanos buscavam a independência.

Em 1956, Diop organizou, em Paris, o primeiro Congresso Mundial de Escritores e Artistas Negros, que contou com a presença de Léopold Senghor, Aimé Césaire e Richard Wright. Mais tarde, Diop viria a servir como secretário-geral do Festival de Artes Negras.
O trabalho de figuras como Hamilton Sr. e Alioune Diop serve de inspiração para o actual momento de efervescência do pan-africanismo editorial, numa altura em que diversas vozes, representando múltiplas formas de ser e estar no continente africano, se revelam, trazendo para a indústria literária tanto inovação estética como inovação em forma de ser e estar. O pan-africanismo editorial continua a ecoar na nossa época, com novos protagonistas e desafios que africanos e afrodescendentes vivem em todo o mundo.





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