Quando uma mulher põe na cabeça que vai fazer bolo, vai mesmo fazer. E se faltar alguma coisa, há sempre quem seja mandado tratar disso. Na minha história, esse alguém sou eu.
— Amor, vai à loja da Fatiminha, para ver chocolate granulado… — disse-me. — Ela costuma ter.
Lá fui, a contragosto. Ao chegar, deparei-me com um cenário inesperado: a pequena loja estava cheia de mães, cada uma com listas na mão, e conversas agitadas. Entre prateleiras carregadas de glacês coloridos, velas em forma de desenhos animados, serpentinas e chapéus de festa, pairava um ar de urgência, como se estivéssemos em véspera da quadra festiva.
A primeira voz que ouvi foi da mana Clara, uma vizinha conhecida:
— A festa do meu filho tem de ser diferente, especial. Um ano só se faz uma vez, e quero que todos vejam que o meu bebé merece. Vai ser tema safari, com girafas insufláveis.
Sorri. O filho dela mal completava doze meses.
— Mas, mana Clara — atrevi-me a perguntar —, achas que o pequeno vai perceber alguma coisa?
Ela riu, mas não com ironia — com convicção.
— Não é para ele perceber, é para ficar registado. Fotos, vídeos, memórias. E também… — fez uma pausa —, para mostrar que conseguimos.
Do outro lado, uma outra mãe, a Telma, entrou na conversa:
— Eu fiz para a minha filha de dois anos. Tema “Frozen”. Gastei mais do que devia, mas olha, no meu quarteirão falam disso até hoje.
— Mas valeu a pena? — perguntei. — A menina lembra-se?
— Não. Mas eu lembro-me. E isso chega.
Enquanto esperava pela minha vez, comecei a observar. Havia ali uma espécie de competição silenciosa. Cada lista era um manifesto de status: quem encomendava o bolo maior, quem alugava os insufláveis mais brilhantes, quem contratava a empresa de decoração, que agora há aos montes pela cidade.
Puxei conversa com um pai, que parecia meio perdido no meio das mulheres:
— Desculpa, também em busca de balões?
Ele encolheu os ombros:
— Vim a mando da patroa. Ela quer unicórnios. Nem sei o que é isso! Eu só queria que o miúdo tivesse saúde e uns brinquedos básicos. Mas pronto, é moda.
— Moda ou necessidade? — insisti.
Ele suspirou.
— Necessidade… de mostrar. Hoje em dia, se não pões no Facebook, parece que não aconteceu.
A Fatiminha, dona da loja, que até então estava ocupada a embrulhar algumas encomendas e compras específicas, não resistiu a meter-se:
— Isto já não é festa de criança. É desfile de vaidades. Antigamente, bastava um bolo caseiro, refrescos de pinta-boca ou os sumos que tínhamos de diluir e as crianças corriam descalças no quintal. Hoje, se não tiver cenário, fotógrafo e lembrancinhas importadas, já não é festa.
— E as crianças? — perguntei. — Estão mais felizes?
— Como elas saberão? — respondeu. — Aos três anos, o que elas querem é brincar na areia. O resto é para os adultos.
A conversa ganhou peso. Clara voltou à carga:
— Mas não podemos ser assim tão críticos. Eu cresci sem nada, sem festas, sem prendas. Hoje, se posso dar ao meu filho aquilo que não tive, por que não?
Respondi devagar, para não soar moralista:
— Claro que sim, dar é bom. Mas às vezes confundimos amor com espectáculo. O que fica? A criança cresce a pensar que carinho é sinónimo de cenário caro?
Telma abanou a cabeça.
— Tu complicas as coisas. É só uma festa.
— Não é só uma festa. É uma mensagem. Se uma criança cresce a ver que cada aniversário é palco, fogo-de-artifício e luxo, que acontece quando não há dinheiro para manter esse padrão?
O pai dos unicórnios acrescentou:
— Aí vem frustração. Eu vi isso com o meu sobrinho. Teve festa com palhaços aos quatro anos, e no aniversário seguinte, os pais não estavam em condições, então, foi confusão durante uma semana.
Clara tentou defender-se:
— Mas não é melhor excesso de amor do que falta?
— Amor não se mede em balões — disse eu. — Amor é tempo, presença, abraço, palavra. O resto é decoração.
Nesse momento, entrou uma jovem mãe, com uma criança ao colo e olhar cansado. Não tinha lista nem plano. Apenas pediu:
— Tia Fatiminha, tens vela simples, número quatro?
— Só isso, filha? — perguntou a dona do estabelecimento.
— Só isso. Fiz bolo em casa, simples, mas quero cantar parabéns.
O contraste caiu como uma pedrada no meio da loja. Clara e Telma olharam de lado, quase em choque. Mas foi a jovem mãe que trouxe a reflexão mais profunda sem se alongar:
— Não tenho muito. Mas tenho braços. Quero que o meu filho se lembre de mim a abraçá-lo.
Ficou um silêncio pesado.
Olhei para aquelas prateleiras cheias de confeites brilhantes, fitas e bonecos de plástico. Pensei na palavra memória. O que é que queremos que os nossos filhos guardem? A cor do balão ou o calor do colo?
E pensei também nos efeitos sociais: famílias a endividarem-se por festas que duram três horas; vizinhos a medir dignidade pelo tamanho da tenda montada; crianças a crescer entre selfies, sem saber distinguir afecto de espectáculo.
— Talvez estejamos a trocar valores — arrisquei. — Agora parece que cada aniversário é uma competição de quem exibe mais.
A tia Fatiminha abanou a cabeça.
— E quem paga a factura é a criança. Porque cresce sem saber que o essencial nunca foi comprado.
A jovem mãe, já à porta, voltou-se:
— O meu filho vai brincar com um carrinho de arrame que o pai fez. Pode não ser bonito na foto, mas vai ser bonito na alma dele.
E saiu, com o bebé ao colo.
Olhei para a Clara, para a Telma, para o pai dos unicórnios. Nenhum respondeu. Talvez porque, no fundo, sabiam que ela tinha razão.
Comprei o meu chocolate granulado e saí também. Ao atravessar a rua, pensei: na zona, as conversas mais simples às vezes abrem janelas para um país inteiro. Um país onde confundimos amor com ostentação, festa com estatuto, infância com palco.
E perguntei a mim mesmo: quando é que vamos aprender que dar muito não é o mesmo que amar muito?





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