Naquele sábado, eu e a minha esposa tínhamos sido convidados para um xitiki na casa de um casal amigo, daqueles encontros típicos das famílias moçambicanas: beer’s e carnes, música alta e crianças a correr entre os cantos do quintal. A mesa do buffet, no jardim, estava carregada: saladas coloridas e quitutes muito bem “decorados”.
A casa estava preparada para uma recepção à altura. Via-se que o casal, ainda jovem, mas cheio de vontade, queria mostrar o seu lar como quem mostra uma conquista. E nós, como convidados, saboreávamos não só a comida, mas também o ambiente: as gargalhadas, os passos improvisados, a alegria do mano Juwas pela confiança depositada em gerir os coleman’s.
Foi ali, no auge da festa, que a conversa mudou de tom. A sogra, mãe do dono da casa, também tinha sido convidada. Vestia uma blusa de seda branca, e uma capulana da Tanzânia, amarrada a cintura e na cabeça em forma de turbante. Naquela altura, fazia parte do seu figurino, um copo de vinho que já ia no segundo ou terceiro. Sentada perto de nós, fixou o olhar na nora, que ria alto com as amigas, cidra na mão, sentada na mesma roda onde o marido bebia cerveja com os amigos.
— Minha filha — começou a sogra, num tom que parecia brincadeira, mas já carregava mais do que vinho —, não acho certo ver-te assim, sentada com os homens, a beber e a rir como se fosses solteira. Quem olha pelas crianças? Quem garante que não falta nada na mesa e para os convidados?
A roda calou-se. Até a música do K Marques pareceu baixar, ainda que estivesse a animar. A nora ajeitou-se na cadeira, respirou fundo e respondeu com respeito:
— Mamã, as crianças estão bem. Agora estão dentro de casa a ver desenhos animados. Não falta nada. Eu também sou mulher, preciso de rir, de me divertir um pouco. Não deixo de ser mãe nem esposa por estar aqui.
A sogra abanou a cabeça, bebeu mais um gole de vinho e continuou:
— No meu tempo, a mulher não se misturava assim. Sentava-se com as outras mulheres, via se a comida estava pronta, se os pratos estavam lavados. Hoje, vejo-vos aqui como se fosse tudo igual. E pergunto: será que no lar também é assim?
A nora não desviou o olhar.
— Mamã, com respeito, eu faço a minha parte. Trabalho, cuido da casa, cuido do seu neto. Mas também acredito que hoje o lar é dos dois. Não sou a secretária da casa, sou esposa. E se estou aqui, é porque sei que lá dentro tudo está bem.
— E os pratos? — insistiu a sogra. — Quem vai lavar depois da festa, visto que dispensaram a vossa secretária?
O marido levantou a mão, rindo um pouco, mas com seriedade na voz:
— Mamã, vamos lavar juntos. Às vezes ela, às vezes eu. Quem estiver mais disponível.
A sogra ficou incrédula.
— Dadinho, desde quando você lava prato?
A nora aproveitou:
— Mamã, os tempos mudaram. Hoje, homem que se preza participa. Porque a casa é dele. Quando ele lava pratos, roupas ou cozinha, não perde nada. Ganha respeito e amor.
Houve murmúrio na roda. Uns concordavam, outros reviravam os olhos. Mas todos ouviam.
A sogra não desistiu.
— E se amanhã ele chega cansado do trabalho e não encontra comida pronta?
— Então, mamã — disse a nora —, encomendamos ou ele mesmo cozinha. Quantas vezes já não me preparou arroz e caril? Ainda que do jeito dele. Rsssss! Eu agradeço e como feliz. Não é vergonha. Vergonha é achar que o casamento é prisão para a mulher.
A sogra ajeitou o turbante.
— E o respeito? Respeito é não se expor, não se sentar no mesmo copo com os homens. A mulher deve saber o seu lugar.
A nora, com voz a tremer mas firme:
— Respeito, mamã, é ser leal, é cuidar dele e do nosso filho, é dividir a vida. O meu lugar é ao lado dele, não atrás. Se ele está aqui e eu também, é porque somos um.
Até então, o filho tinha deixado a mãe e a esposa trocarem argumentos. Mas percebeu que era hora de intervir. Pousou o copo, endireitou-se na cadeira e falou alto o suficiente para todos ouvirem:
— Mamã, com todo o respeito: a senhora é quem me deu a vida. Segurou-me quando aprendi a andar, ensinou-me a ser homem. Isso ninguém apaga. Mas esta mulher foi a quem escolhi para caminhar comigo. A senhora é raiz. Ela é caminho. E se quero chegar longe, preciso das duas.
Silêncio pesado. A sogra baixou os olhos para o copo, a nora limpou discretamente as lágrimas. A roda inteira prendeu a respiração.
O debate, no entanto, não parou aí. Outros convidados meteram-se.
— Hoje em dia — disse um vizinho —, o que estraga muitos lares é mesmo isso: mãe que quer mandar dentro da casa do filho.
— Mas se a mãe não falar, quem fala? — rebateu uma tia. — Vemos as noras a desrespeitar, e ficamos calados?
— Respeito — atalhou o marido —, não se mede pelo número de pratos lavados. Mede-se pelo carinho com que vivemos juntos.
A sogra, ainda sentida, perguntou:
— Então eu, mãe, já não tenho voz?
— Tem sempre — respondeu a nora. — Mas é voz de conselho, não de ordem. Conselho acolho, ordem divido com ele.
O marido acenou afirmativamente.
A conversa prolongou-se, entre goles de vinho e cerveja. Falou-se de educação dos filhos:
— As crianças precisam de disciplina — disse a sogra. — Não podem crescer sem mão firme.
— Concordo — respondeu a nora. — Mas mão firme não significa mão pesada. Nós educamos juntos, conversamos, mostramos o certo e o errado. Não é só grito, é exemplo.
— E quando o menino te responde mal? — insistiu a sogra.
— Aí entra o pai também — disse o marido. — Não é só trabalho dela. A educação é dos dois.
No auge, a sogra soltou:
— Dói-me ver que já não és só meu.
E o filho respondeu:
— Mamã, não deixei de ser teu. Mas agora também sou dela. E se quer que sejamos fortes, tem de aceitar que somos uma família.
A roda suspirou. Alguns brindaram àquela frase. Outros ficaram calados, pensativos.
No fim da noite, quando nos despedimos, vi sogra e nora abraçarem-se. Pode não ter sido um abraço de reconciliação, mas acho que foi de aceitação: penso que as duas perceberam que têm lugares diferentes, igualmente importantes. A mãe nunca deixará de ser raiz, mas não pode sufocar o tronco novo que cresce. A esposa nunca deixará de ser escolhida, mas precisa de respeitar quem deu vida ao marido.
Ao chegar à casa, eu e a minha esposa comentámos: quantas famílias se desfazem por falta de diálogo? Quantos casamentos são partidos não pela infidelidade ou pela falta de amor, mas pela incapacidade de definir lugares? A sogra acha que perde o filho, a nora acha que ganha um inimigo, e o filho esquece-se de que o seu maior papel é ser ponte.
No xitiki daquela tarde, vimos que é possível dizer verdades sem perder o respeito. É possível beber, rir e chorar, e ainda assim construir algo maior: a compreensão de que família só se salva quando cada um conhece e aceita o seu lugar.





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