Quando aceitei o convite para “montar” o gabinete de Comunicação e Relações Públicas daquele colégio, percebi logo que a tarefa não se resumia a desenhar comunicados de imprensa ou a organizar eventos para encher de cor as páginas das redes sociais. Era, acima de tudo, um exercício de equilíbrio entre o que a instituição queria projectar e a realidade que, teimosamente, vinha à superfície.

Uma escola privada, no coração de Maputo, com mensalidades que por si só já funcionavam como símbolo de estatuto, não podia dar-se ao luxo de falhas públicas. Mas, como em qualquer lugar onde se cruzam adolescentes, famílias ausentes e pressões sociais, o verniz estalava. E eu tinha de estar ali para ver de perto, para registar e para preparar o colégio para enfrentar a narrativa.

Naquele sábado, o auditório estava montado para impressionar. Blocos de notas com o logótipo da instituição, garrafas de água mineral dispostas como se fossem troféus de disciplina. O cenário era impecável. Mas os rostos dos pais a entrar denunciavam outra coisa: pressa, nervosismo, irritação, indiferença calculada. Alguns ainda com os telefones colados ao ouvido, mães perfumadas e impecavelmente arranjadas, adolescentes arrastados como réus a julgamento, professores sentados em silêncio com olhares cansados de quem já não esperava muito daquela sessão.

Quando o director se levantou, o ambiente transformou-se. O auditório parecia prender a respiração.

— Caros pais e encarregados de educação — começou, com voz firme —, estamos aqui para tratar de questões sérias. Temos registado notas baixas, atitudes de desrespeito, bullying, consumo de álcool e drogas entre os nossos alunos. E, mais grave ainda, um caso recente: uma aluna que engravidou e abortou sem que a família soubesse.

O silêncio que caiu foi de chumbo. Alguns pais chamaram por Deus, outros reviraram os olhos, houve murmúrios abafados. E eu, no meu canto, registava mentalmente: crise declarada. Aquela palavra, “aborto”, não ia sair dali sem consequências.

Uma mãe ergueu-se primeiro, alta, imponente, de cabelo ocidental, unhas vermelhas a cortar o ar.

— Não aceito que me digam que a minha filha faz parte dessa estatística. Em casa nada lhe falta: motorista, tablet, explicador, psicóloga. Se as notas baixaram, a culpa é da escola que não acompanha. Nós pagamos caro. Queremos resultados.

Um coro de murmúrios reforçou. Outro pai acrescentou:

— É verdade. Os professores deviam controlar melhor. Se há bullying, é porque fecham os olhos. Se há drogas, é porque alguém entra com elas.

Eu registava: o reflexo automático era transferir responsabilidade. O dinheiro parecia bastar para lavar as mãos. Mas a direcção não deixou a acusação sem resposta.

Uma professora levantou-se, a voz calma mas carregada de experiência:

— Com todo o respeito, deixem-me perguntar: quantos de vós jantam à mesa com os vossos filhos sem celular? Quantos sabem o nome do melhor amigo dos vossos filhos e filhas? Quantos perguntam como se sentem, e não apenas que nota tiraram?

A sala agitou-se. Tosses nervosas, olhos desviados, uma mãe a consultar a bolsa como se procurasse algo. Ninguém respondeu. O incómodo era evidente. E eu registava: a narrativa escapava ao controlo dos pais.

Foi então que uma mãe, nervosa, voz trémula, confessou o que muitos já cochichavam.

— A minha filha contou-me. Viu sangue na casa de banho da escola. Foi assim que soubemos que a colega tinha abortado. Os pais da menina não sabiam de nada.

A palavra “sangue” caiu como pedra. Um pai levantou-se indignado:

— Como é possível a escola permitir isto? Por que não fomos avisados?

O director respondeu com calma, medindo cada sílaba.

— A escola não pratica abortos. O que aconteceu foi escondido da família. Só soubemos depois. E aqui está a verdadeira questão: como é que uma filha chega a esta decisão sem falar com os pais?

O silêncio que se seguiu era pesado como muro. E foi então que as culpas começaram a voar.

— A mãe devia saber! — disse um pai, apontando para a esposa. — Passa mais tempo em casa, devia estar atenta.

— E tu? — respondeu a esposa de imediato — Tu que chegas sempre tarde, depois de tuas idas aos copos, és exemplo de quê? Para o nosso filho, és só foto nas redes sociais.

Outros aproveitaram para disparar.

— Os miúdos aprendem em casa a beber! Quantas vezes não vemos pais a mandar filhos comprar cerveja na esquina? E depois querem que respeitem a lei dos 18 anos?

O auditório transformou-se em tribunal improvisado. Pais contra pais, esposas contra maridos, todos a acusar, ninguém a assumir. Eu, como comunicador, via o dilema: como proteger a imagem institucional sem disfarçar a verdade?

O director ergueu a voz.

— Os nossos filhos são reflexo. Reflexo de nós. Não é apenas a escola que educa. Se em casa os pais estão sempre ao celular, se nunca se sentam à mesa, se nunca têm tempo, os filhos procurarão respostas noutros lugares. E esses lugares são os piores. A menina que abortou não é estatística. É um alerta. Um grito. E se não escutarmos, outros escutarão: a rua, as más companhias, o desespero.

Houve quem murmurasse em concordância, mas muitos baixaram os olhos. A ferida estava exposta.

E foi então que os professores começaram a partilhar episódios concretos. Um contou de alunos apanhados a beber nos intervalos, garrafas escondidas nas pastas. Outro falou de insultos diários, de adolescentes que filmavam colegas para depois humilharem nas redes sociais. Uma professora, com lágrimas contidas, relatou o caso de um rapaz que, depois de ser vítima de bullying, tentara cortar-se no braço. A sala ficou gelada. Alguns pais murmuravam que “essas coisas acontecem em todas as escolas”, outros diziam que “os jovens de hoje são assim”. Mas eu percebia: ali não havia só incidentes isolados. Havia um padrão.

Enquanto os pais se atacavam, eu observava. O meu bloco de notas já não era suficiente para tantas anotações. Ali estavam todas as contradições que teria de gerir: pais ausentes mas exigentes, filhos carentes mas revoltados, professores cansados mas firmes, uma escola privada que queria ser imagem de excelência mas que reflectia as falhas de uma sociedade inteira.

No fim, enquanto os carros de luxo arrancavam um a um, eu ficava a pensar: de que serve pagar mensalidade altíssima se em casa não se paga atenção? De que vale contratar explicadores se não se explicam valores à mesa? De que adianta exigir disciplina se o pai lança culpas à mãe e a mãe foge para “curtir a vida”? São os mesmos que pedem aos filhos para trazer cerveja da geleira ou comprar álcool no supermercado. São os mesmos que, nas festas, exibem sucesso mas, em casa, vivem ausentes.

O meu trabalho como comunicador era claro: preparar o colégio para a imprensa, gerir crises, montar o gabinete de comunicação. Mas, no íntimo, eu sabia que nenhuma estratégia, por mais polida, conseguiria tapar o vazio deixado pela ausência das famílias. A escola pode ensinar matemática, inglês, ciências. Mas os valores, o respeito, a dignidade, só se aprendem em casa. E quando em casa não se aprende, a escola torna-se apenas espelho, um espelho que devolve a imagem dura daquilo que somos.

No caminho para casa, pensei ainda na menina que abortara sozinha. Não era número, nem estatística, nem falha administrativa. Era o grito silencioso de uma geração a crescer sem porto. E percebi: a maior comunicação que precisamos não é a institucional. É a comunicação à mesa, sem celular, olhos nos olhos, pais presentes. Porque nenhuma campanha consegue salvar um lar que não se salva a si mesmo.

Imagem: Freepik


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2 respostas para “Salvem a família”.

  1. Avatar de Amelia David Muchanga Mugabe
    Amelia David Muchanga Mugabe

    Waaauuuu texto muito realístico e de reflexão diária.
    Parabéns e obrigada por isso Negro.

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  2. Avatar de purplethoroughly61a6be8aa7
    purplethoroughly61a6be8aa7

    Excelente abordagem. Como mãe, mesmo que de uma bebé de 1 ano, quero lutar para fazer diferente e educar a minha filha de casa para a sociedade.
    Obrigada, Negro!

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