Depois de um tempo considerável de pausa no Facebook, voltei a publicar um conteúdo relacionado com a promoção da remessa limitada do meu primeiro livro. Decidi permanecer um pouco mais por lá. Qual não foi o meu espanto ao perceber um novo fenómeno: vídeos, cortes de palestras, pequenos sermões transformados em reels de trinta segundos. Todos seguiam a mesma fórmula — música de fundo, voz em tom grave e uma legenda em letras maiúsculas a gritar a moral do dia. Um “amigo” partilhava com a legenda: “Isto vai mudar a tua vida.” Outro comentava: “Deus fala até pelo algoritmo.” Sorri, mas fiquei a pensar: será? Ou é o algoritmo que fala por nós, escolhendo o que queremos ouvir, e baptizando-o de mensagem divina?
Vivemos um tempo em que a fé, essa ponte íntima entre o homem e o mistério, virou conteúdo. A palavra de Deus, que antes se sussurrava nos bancos dos templos, agora desfila em vídeos de quinze segundos, entre uma coreografia e um anúncio de cremes de clarear a pele de negros. As redes sociais, esse lugar que pouco tem de “social”, transformaram-se num púlpito aberto onde todos pregam e poucos escutam. Chamam-lhe evangelização digital. Eu, às vezes, chamo-lhe banalização sagrada.
É curioso observar como um trecho de sermão, quando arrancado do contexto, ganha uma vida própria e uma intenção nova, pois nem sempre é aquela com que foi dito. Já vi vídeos onde um pregador dizia: “Deus prova o justo”, e o corte que circulava nos whatsApp’s terminava apenas em “Deus prova”, com legendas dramáticas e uma música de suspense. Em segundos, o que era fé virou entretenimento, o que era reflexão virou slogan.
Esta crónica nasceu depois de um desses episódios. Estava sentado no chapa, a caminho do Xipamanine, e uma jovem ao meu lado assistia a um vídeo de uma pregadora “famosa”. No vídeo, a mulher falava sobre o perdão, com voz firme, olhos em lágrimas. Mas, a meio, o reel cortava de forma abrupta para uma montagem rápida, cheia de filtros e corações, com a legenda: “Quem te magoou vai cair!”. A moça ao meu lado murmurou um “amém” convicto, sorriu de canto e partilhou o vídeo com um emoji de fogo. E eu, no meio daquele barulho da baixa da cidade, pensei: o que ela ouviu não foi perdão. Foi vingança disfarçada de profecia. O corte mudou a palavra. O corte mudou o sentido. O corte mudou o Deus.
À noite, contei o episódio ao meu amigo Teófilo, que é daqueles crentes genuínos, de fé simples e profunda.
— Isto está a ficar perigoso, Teófilo — disse-lhe. — A palavra de Deus anda a ser despedaçada em bocadinhos que cabem num ecrã.
Ele respondeu-me com calma:
— A palavra de Deus é como água. Pode estar no rio, no copo, ou num balde de plástico. O problema é o que cada um faz com ela.
— Mas e quando o copo é sujo? — perguntei. — E quando o balde tem sabão?
Ele ficou calado um instante, depois suspirou.
— Aí a água já não mata a sede.
Nas redes, a sede é grande. Sede de sentido, de pertença, de consolo. Por isso, qualquer frase dita com voz firme e trilha inspiradora vira oráculo. “Acredita!”, “Deus vai fazer!”, “Quem crê vence!” — slogans com mais marketing do que mística. E no meio de tanto brilho, a fé vai perdendo densidade. O feed é um altar que pede oferendas de atenção, não de transformação. Mas o mais preocupante não são os vídeos em si. É o modo como os consumimos. As pessoas já não ouvem para entender; ouvem para confirmar o que sentem. Procuram Deus não como mestre, mas como cúmplice. Se o vídeo diz o que lhes convém, é revelação divina. Se as confronta, é “pregador vendido” ou “mensagem manipulada”. A interpretação torna-se espelho do ego, e o ego é um péssimo profeta.
Há dias, uma colega de trabalho mostrou-me um vídeo de um pregador sul-africano. Dizia ele, num tom inflamado: “O Senhor vai tirar da tua vida quem não te valoriza.” A colega sorriu e disse: “Era mesmo isto que eu precisava de ouvir!” — horas depois, descobri que ela bloqueou o namorado. Perguntei-lhe se tinha ouvido o sermão completo. Respondeu: “Não precisei. A parte importante está no reel.” Talvez seja esse o nosso problema: já não queremos ouvir o todo. Queremos o excerto que nos absolve.
E, de repente, a fé virou playlist. Saltamos de um versículo para outro como quem muda de música. “Este não me tocou”, “aquele falou comigo”, “aquele é profundo”. E, sem dar por isso, tornamo-nos críticos de Deus, avaliando o Espírito como quem avalia seriado na Netflix. “Muito bom, mas podia ter menos pausa dramática.” “Bonito, mas sem força de replay.” A espiritualidade transformou-se em conteúdo curado para consumo rápido. O sagrado virou tendência.
É aqui que mora o perigo. Porque, quando o sagrado entra nas regras do mercado, deixa de ser salvação para ser produto. E produto precisa de performance. As redes não recompensam a humildade do silêncio, recompensam o barulho do impacto. É por isso que há pregadores a ensaiar lágrimas, a repetir frases de efeito, a transformar o altar num estúdio. Deus, nesse cenário, é quase figurante.
Mas seria justo culpar apenas os pregadores? Talvez não. A verdade é que as redes são espelhos perfeitos: mostram o que queremos ver. Cada like num vídeo de fé não é apenas um clique, é um pacto entre a necessidade de quem posta e a carência de quem vê. O problema não é falar de Deus online. O problema é quando se fala de Deus para ganhar views, não para oferecer caminho.
Pergunto-me muitas vezes: colocar a palavra de Deus numa rede que de “social” tem tão pouco não a banaliza? É possível anunciar o eterno num espaço que dura vinte e quatro horas e se apaga no story seguinte? Talvez sim, se a intenção for pura. Mas pura intenção é bem mais rara do que bom enquadramento de câmara.
Conheci um pastor, que é rapper. Prega no seu terreno, por baixo de uma mangueira. Não tem microfone, mas tem presença. Fala de perdão, e as palavras soam como casa limpa. Nunca o vi gravar nada. Certa vez, perguntei-lhe por que não filmava os cultos, como os outros faziam. Ele respondeu-me: “Irmão, há coisas que só o coração deve partilhar. A fé não precisa de Wi-Fi; precisa de eco.” E aquele eco, lembro-me, durava dias. Hoje, às vezes, dura apenas até o próximo vídeo começar.
O “like sagrado” é uma tentação moderna. Faz-nos acreditar que o número de corações na tela mede o impacto da mensagem. Mas quantos desses corações estão dispostos a mudar, e não apenas a concordar? Quantos clicam “amém” e, depois, desprezam o vizinho, não dão “bom dia” ao guarda? Quantos partilham o versículo e ignoram quem realmente precisa? A fé digital, sem acção real, é como sinal forte sem ligação: muita luz, pouca rede.
Há, claro, exceções belas. Já vi jovens a encontrarem esperança em vídeos simples, mensagens que chegam a quem, talvez, nunca entraria num templo. A tecnologia pode ser ponte. Mas ponte também serve para fugir, e não apenas para cruzar. O desafio é discernir quando a travessia nos aproxima de Deus e quando apenas nos exibe no caminho.
Noutro dia, recebi uma mensagem privada de um jovem que segue os meus textos. Dizia: “Mano Negro, publiquei um vídeo com versículos e perdi seguidores. Será que Deus não quer que eu fale d’Ele?” Respondi-lhe: “Talvez Deus não queira que fales d’Ele, mas para Ele. Fala com Ele primeiro. E depois, se sobrar verdade, partilha.” Ele respondeu com um emoji de mãos em oração. Espero que tenha lido o que estava para lá do emoji.
Na manhã seguinte, sentado na automotora de Matola Gare, deparei-me com um novo vídeo a circular. Um pregador gritava: “Quem não te apoia vai cair!” E, nos comentários, uma enxurrada de “améns”. Li aquilo como quem folheia um manual de ressentimento colectivo. Tive vontade de escrever: “E quem te ama, vai ficar?” Mas não escrevi. Porque nas redes, até a bondade precisa de legenda certa.
A verdade é que a palavra de Deus, quando vira trend, corre o risco de se perder na própria velocidade. A fé não cabe em quinze segundos. O arrependimento não cabe num corte editado. O amor divino não é filtro, é processo. E, talvez, o milagre moderno seja resistir à pressa de transformar o invisível em conteúdo.
Termino esta reflexão com uma lembrança de infância, nas bandas do Chiveve. Na igreja do bairro, havia um banco velho, gasto no meio. Dizia-se que quem se sentava ali, sentava-se “mais perto de Deus”. Um dia, perguntei ao padre se era verdade. Ele respondeu: “Depende. Se te sentares e ouvires, sim. Se te sentares e contares quantas pessoas estão a ver-te, não.” Anos depois, entendo que o banco é agora o ecrã. E a distância entre o homem e o divino mede-se pelo ruído entre um vídeo e outro. O like sagrado é, no fundo, o espelho de uma geração que trocou a comunhão pela validação. Mas a fé, essa, continua a pedir o mesmo de sempre: silêncio, escuta, e um coração disposto. Talvez o futuro da espiritualidade não esteja em postar o versículo, mas em vivê-lo sem precisar de legenda. Talvez o verdadeiro influencer seja quem pratica a bondade fora do alcance das câmeras. E talvez, só talvez, o maior sinal de fé seja ter coragem de desligar o telefone, e ouvir Deus.
Imagem: Freepik





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