Esta crónica surge de uma conversa simples, como tantas outras que hoje acontecem no WhatsApp. Uma daquelas conversas de desabafo e acabam por tocar num nervo exposto da sociedade, e no caso, em minha consciência, também. O meu amigo Ivan AP, com quem conversava, disse, a meio de uma troca de mensagens, uma frase que ficou a “ximbar” em mim:
“Hoje toda a gente quer a embalagem mais chamativa e esquece-se de enriquecer o conteúdo.”
Falávamos de relações. De homens e mulheres. De dinheiro. De expectativas. De frustrações. E percebi que não estávamos a falar apenas de casos isolados. Estávamos a falar de uma confusão profunda instalada na nossa sociedade. Hoje, pelo menos aqui, em Moçambique, Maputo, há duas ideias que se misturam e se distorcem mutuamente:
“O homem deve pagar tudo.”
“O homem é o responsável pela família.”
Estas duas frases não são a mesma coisa. Mas são tratadas como se fossem. E é nessa confusão que muitos relacionamentos nascem já doentes. A ideia de responsabilidade masculina tem raízes antigas. Vem de um tempo em que o homem, de facto, era muitas vezes o único provedor financeiro. A mulher ficava em casa, cuidava dos filhos, da casa, da vida doméstica. Mas o “mundo mudou”. As mulheres estudam, trabalham, ganham dinheiro, sustentam-se. Algumas sustentam famílias inteiras. No entanto, a mentalidade não acompanhou totalmente essa mudança. E o resultado é um terreno cheio de contradições.
Hoje, para muitas pessoas, especialmente entre os mais jovens, um homem só é considerado “responsável” se pagar tudo. Não se pergunta se ele é respeitador. Não se pergunta se é íntegro. Não se pergunta se é emocionalmente presente. Pergunta-se apenas: ele paga?
E esta lógica começa cedo. Começa no namoro. Há raparigas que entram numa relação já com a expectativa de que o homem tem de pagar absolutamente tudo: dinheiro de “chapa”, táxi, “txopela”, propinas, “xitique”, cabelos do colono, às vezes até coisas íntimas de higiene pessoal. E não porque estejam em dificuldade, mas porque acreditam que é assim que deve ser. O dinheiro dela é dela. O dele é “nosso”. Ou melhor, é dela também.
E o mais inquietante é que muitos rapazes aceitam isso sem questionar. Alguns por pressão social. Outros por medo de perder a relação. Outros porque confundem pagar com amar. E assim vai-se construindo uma relação baseada não em parceria, mas em transacção.
Quando esse namoro chega ao casamento, o problema apenas muda de escala. A expectativa mantém-se: o homem continua a ser visto como o único responsável financeiro. Se a mulher trabalha, o dinheiro dela é “para ela”. Se o homem trabalha, o dinheiro dele é “para a casa”. E se ele não consegue sustentar tudo sozinho, começa a ser visto como fraco, irresponsável, insuficiente.
É aqui que precisamos de parar e perguntar com seriedade: o que é, afinal, ser um homem responsável? É pagar tudo? Ou é construir junto? É carregar sozinho? Ou é saber partilhar o peso? Porque uma coisa precisa de ficar clara: não ter dinheiro não é, por si só, falta de carácter. Um homem pode estar a lutar, pode estar a começar, pode estar a cair e a tentar levantar-se. Isso não o torna menos digno. O que o define é a atitude. O esforço. A seriedade com que encara a vida, o trabalho, a relação. Da mesma forma, ter dinheiro não torna ninguém automaticamente um bom companheiro.
Quando reduzimos o valor de um homem à sua carteira, fazemos duas coisas perigosas ao mesmo tempo. Primeiro, transformamos o amor num contrato comercial. Segundo, transformamos as mulheres em objectos que “se encaixam” onde há mais dinheiro. E aqui entra a pergunta incómoda: não estaremos a criar uma legião de mulheres descartáveis?
Se a lógica é “fico com quem paga mais”, então o dia em que aparecer alguém que paga ainda mais, a troca torna-se natural. Não por maldade, mas por coerência com a própria lógica. Se o critério é a embalagem, o conteúdo deixa de importar. É isto que o meu amigo quis dizer naquela frase simples: estamos a escolher cada vez mais a embalagem e cada vez menos o conteúdo. O carro, o telefone, o restaurante, a roupa, o estilo de vida. Tudo isso pesa mais do que o carácter, a visão de futuro, a capacidade de construir algo sólido.
E os homens também não saem ilesos desta distorção. Muitos entram numa corrida insana para aparentar o que não têm. Endividam-se. Fingem. Exibem. Vivem de aparências. Tudo para manter uma imagem de “homem que pode pagar”. E quando a máscara cai, cai tudo junto. Outros, mais silenciosamente, começam a acreditar que o seu único valor está no que conseguem pagar. E quando perdem o emprego, quando falham financeiramente, não perdem apenas dinheiro: perdem identidade.
Mas há outro lado desta história que também precisa de ser dito com honestidade. Responsabilidade não é só dinheiro. Um homem que não paga tudo não é necessariamente irresponsável. Mas um homem que não assume compromisso, que não trabalha, que não luta, que não protege, que não constrói, também não pode esconder-se atrás de discursos bonitos.
Há homens que usam esta crítica ao “pagar tudo” como desculpa para não assumir nada. Para não contribuir. Para não crescer. Para não se comprometer. E isso também é injusto. A responsabilidade masculina não morreu. Ela apenas precisa de ser redefinida. Hoje, ser responsável é estar presente. É contribuir com o que se tem. É ser parceiro, não patrocinador. É assumir a casa como projecto comum, não como palco de disputa.
E a mulher? A mulher não perde nada ao contribuir. Pelo contrário: ganha autonomia, ganha dignidade, ganha poder de escolha real. Quando uma mulher pode estar com um homem porque quer, e não porque ele paga, a relação muda de natureza. Deixa de ser dependência e passa a ser escolha. O problema é que ainda educamos raparigas para serem escolhidas e rapazes para serem provedores, como se essas fossem as únicas formas de existir numa relação.
O resultado está à vista: relações frágeis, cheias de cobranças, ressentimentos, comparações, trocas silenciosas e frustrações mal resolvidas. Esta crónica não é contra homens nem contra mulheres. É contra um modelo pobre de pensar relações. Um modelo que reduz tudo a dinheiro e esquece o essencial: carácter, visão, compromisso, construção. Se continuarmos a ensinar que o homem vale pelo que paga e a mulher vale pelo que atrai, estamos a criar gerações emocionalmente vazias, financeiramente pressionadas e afectivamente descartáveis.
Amar não é pagar. Amar é ficar quando é difícil. Amar é construir quando é lento. Amar é dividir quando pesa. E sim, dinheiro é importante. Claro que é. Mas nunca pode ser o centro moral de uma relação. No fim, volto à conversa que deu origem a este texto. Talvez o grande drama do nosso tempo seja este: aprendemos a investir tudo na embalagem e quase nada no conteúdo. E depois espantamo-nos quando tudo parece bonito por fora e vazio por dentro.
Talvez esteja na hora de reaprender a perguntar menos “quanto ele paga?” e mais “que tipo de pessoa ele é?”. E menos “o que ela traz?” e mais “como ela constrói?”. Porque relações não se sustentam com recibos.


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Uma resposta para “se não paga, não serve?”.

  1. A sociedade moçambicana está a forjar um mercado de afetos estéril.

    Ao reduzirmos o homem à sua capacidade de pagamento, estamos a criar uma geração de homens emocionalmente mutilados, que confundem masculinidade com ostentação e afeto com patrocínio. Educamos os rapazes para serem “fortes” e “provedores”, mas esquecemos de os ensinar a serem parceiros de mulheres que não precisam do seu dinheiro para sobreviver, mas sim do seu carácter para construir. O resultado é um homem que, quando perde a posse, perde a identidade; que se sente ameaçado pela autonomia feminina e que, por não saber comunicar vulnerabilidades, acaba por se refugiar em comportamentos de fuga ou em relações puramente transacionais, onde ele compra uma companhia que nunca chegará a ser, verdadeiramente, uma companheira.

    Estamos também por outro lado a criar uma geração de “mulheres de vitrine”, educadas para investir na estética como moeda de troca e na dependência como estratégia de sobrevivência. São mulheres que, apesar de muitas vezes serem instruídas e capazes, são empurradas para um papel de parasitismo emocional e financeiro, onde o seu valor é medido pela capacidade de atrair um “patrocinador” e não pela sua força para edificar. Ao serem ensinadas que o sucesso é ser “escolhida” pelo homem que paga mais, criamos mulheres vulneráveis ao descarte: quando a “embalagem” envelhece ou surge alguém que cobra menos pelo mesmo status, elas descobrem que não construíram autonomia, mas sim uma prisão de luxo onde o carácter foi sufocado pela conveniência.

    Precisamos reflectir muito.

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