Quero começar por pedir desculpas. Não por me permitir escrever, mas pela ousadia de o fazer a partir de um lugar que não é o da mesa do júri. Nunca fui arguente. Nunca estive naquela mesa onde se decide, se questiona e se orienta o pensamento académico. Mas já estive do outro lado. Já apresentei a minha monografia. Já senti o peso de uma defesa. E, sobretudo, já assisti a muitas. E é a partir desse lugar de observação e de experiência vivida que escrevo, porque há algo que precisa de ser dito.
Em muitas defesas de licenciatura no nosso contexto, o arguente deixou de ser um interlocutor académico e passou a comportar-se como adversário. A própria palavra ajuda-nos a pensar. Arguente vem do latim arguere, que significa demonstrar, esclarecer, tornar evidente. O arguente, em teoria, é aquele que ajuda a trazer clareza ao trabalho apresentado. Já o termo oponente vem de opponere, colocar-se diante, não necessariamente contra, mas em posição de diálogo crítico. Em nenhum destes sentidos está implícita a ideia de humilhar. E, no entanto, é isso que muitas vezes acontece.
Tenho assistido a defesas onde o foco deixa de ser o tema e passa a ser o estudante. Onde a preocupação não é aprofundar a discussão, mas expor fragilidades pessoais. Onde a pergunta não é feita para compreender, mas para encurralar. Já vi estudantes perderem completamente a linha de raciocínio não por falta de domínio do tema, mas pela forma agressiva como foram abordados. Já vi perguntas colocadas não para abrir debate, mas para demonstrar superioridade. E isso levanta uma questão séria: estamos ali para construir conhecimento ou para provar quem sabe mais?
Há um padrão que se repete. O arguente pega numa referência bibliográfica específica, muitas vezes de autores ocidentais consagrados, e passa a tratá-la como verdade absoluta. Se o estudante não utilizou exactamente aquela fonte, então o trabalho é imediatamente colocado em causa. Mas o conhecimento não é propriedade de um único autor. E muito menos de um único espaço geográfico.
Há pensadores africanos que têm contribuído profundamente para a construção de metodologias e epistemologias próprias. Autores como Paulin Hountondji, que questiona a dependência epistemológica africana, ou Achille Mbembe, que propõe novas formas de pensar o sujeito africano contemporâneo, ou ainda Joseph Ki-Zerbo, que sempre defendeu a necessidade de produzir conhecimento a partir das nossas realidades.
Ignorar estas vozes e insistir apenas em referências externas não é rigor académico. É limitação. Mais grave ainda é quando o arguente transforma a defesa num espaço de validação do seu próprio ego. Há um tom que se instala, de autoridade incontestável. Um tom que não admite contraponto. E o estudante, naquele momento, não está apenas a defender um trabalho, está a tentar sobreviver.
Já assisti a situações em que o arguente desqualifica directamente o trabalho do supervisor. Em pleno acto público, questionando orientações, criticando decisões metodológicas, enfim, colocando em causa a competência de um colega docente. E o ambiente, que deveria ser académico, transforma-se num campo de tensão. Quem ganha com isso? Certamente não será o estudante.
A defesa de uma monografia deveria ser um momento de maturidade intelectual. Um espaço onde o estudante demonstra capacidade de pensar, de argumentar, de dialogar com diferentes perspectivas. E onde o arguente contribui para aprofundar, corrigir, orientar. Não é um tribunal, espectáculo, muito menos um teste de resistência emocional.
Há também um problema de linguagem. A forma como se pergunta influencia a qualidade da resposta. Perguntas carregadas de ironia, de impaciência ou de desprezo não produzem melhor conhecimento. Produzem bloqueio. Um estudante que se sente respeitado responde melhor. Pensa melhor. Expõe-se melhor. E talvez seja aqui que precisamos de parar e reflectir. Que tipo de academia queremos construir? Uma academia onde o erro é punido ou uma academia onde o erro é oportunidade de aprendizagem? Uma academia onde o arguente se afirma ou uma academia onde o conhecimento se constrói colectivamente, como defendia Habermas, falecido sabádo último, na teoria da “acção comunicativa”?
Não escrevo isto para desvalorizar o papel do arguente. Pelo contrário. O arguente é fundamental. É ele que desafia, que amplia, que traz novas perspectivas. Mas há uma diferença entre desafiar e humilhar, pois uma coisa eleva e outra diminui. E quando a academia escolhe diminuir, perde a sua essência.
Moçambique precisa de uma academia mais humana, aberta e consciente das suas próprias limitações. Precisamos de professores que inspirem e não intimidem. Precisamos de arguentes que orientem e não destruam. Porque, no fim, todos estamos do mesmo lado: do lado do conhecimento. E o conhecimento não cresce em ambientes de medo. Cresce em ambientes de respeito.
Se queremos formar melhores profissionais, precisamos primeiro de formar melhores ambientes de aprendizagem. E talvez esteja na hora de voltarmos ao significado original das palavras. E enquanto não entendermos isso, continuaremos a confundir defesa académica com sobrevivência emocional. E a academia, que deveria libertar, continuará a oprimir em silêncio.




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