Hoje escrevo com algum aperto no peito. Não sei exactamente se esta crónica vai resolver alguma coisa. Talvez nada e seja apenas uma forma de colocar em palavras algo que fez minha garganta secar. Tem chovido em quase todo o país. Em muitos lugares a chuva é motivo de alegria porque significa água, colheita, esperança. Mas hoje quero falar de uma outra face da chuva. Quero falar daquilo que vi esta manhã quando saí de Nkobe em direcção à cidade de Maputo, minha rota diária. E quem conhece este percurso sabe que não é apenas uma viagem. É um retrato vivo da desigualdade que aprendemos a conviver sem questionar muito.

Não estava tão claro quando comecei a ver as primeiras crianças pelo caminho. Pasta nas costas, uniformes já molhados, plásticos na cabeça, pés a procurar lugares firmes no meio da lama. Algumas vinham sozinhas. Outras caminhavam em pequenos grupos. Todas tinham o mesmo destino: a escola. O que me impressionou não foi apenas o facto de estarem a caminhar debaixo da chuva. Foi a forma como caminhavam. Com cuidado, como quem já conhece o terreno. Como quem sabe que um passo mal colocado pode significar cair numa poça profunda ou ser arrastada por uma corrente de água que atravessa o caminho.

Num ponto da estrada vi duas crianças paradas à beira de um charco grande. Observavam o movimento da água para decidir por onde passar. Não estavam a brincar, estavam a calcular. E aquilo doeu-me. Porque naquele momento percebi que para muitas crianças a luta para aprender começa muito antes da sala de aula.

Vi também um grupo de meninos que tentava atravessar uma corrente de água, que estava a ser escoada, com grande pressão, de um estabelecimento. Um deles tirou as sapatilhas e levantou as calças do uniforme. Outro segurava a pasta do amigo para que não se molhasse completamente. Não havia adultos por perto. Apenas crianças a resolver um problema que não devia ser delas.

Mais à frente, um carro passou em velocidade e levantou uma onda de água que caiu directamente sobre duas meninas que caminhavam na berma. Elas pararam, olharam uma para a outra e continuaram a andar. Nenhuma protestou, nenhuma gritou mas eu chorei. Para elas, era como se já estivessem habituadas. E talvez estejam.

Naquele momento pensei em algo simples e perturbador. Para muitas destas crianças, a chuva não é apenas um fenómeno natural. É um obstáculo adicional numa vida que já tem demasiados. Há casas onde o caminho para a escola implica atravessar ruas sem drenagem adequada. Há bairros onde os charcos se transformam em pequenos lagos. Há caminhos onde a lama torna cada passo uma tentativa de equilíbrio. Mesmo assim, elas acordam cedo, carregam os cadernos dentro das pastas já gastas.

Quando falamos de educação, muitas vezes pensamos apenas nas salas de aula, nos professores, nos currículos. Mas raramente pensamos no percurso que muitas crianças fazem para chegar até lá. A aula começa às sete, mas a luta começa muito antes.

Há quem diga que estas são dificuldades normais da vida. Que as gerações anteriores também passaram por desafios. Talvez seja verdade. Mas isso não significa que devamos aceitar tudo como inevitável. O que vi esta manhã não foi apenas resistência infantil. Foi um sinal silencioso de que há realidades que continuam invisíveis para muitos de nós.

Maputo e Matola crescem todos os dias. Novas infrastruturas surgem, novas vias de acesso são construídas, novos centros comerciais aparecem. Mas ao mesmo tempo há bairros onde a chuva transforma ruas em rios improvisados. E nesses rios improvisados caminham crianças. Crianças que querem estudar, que não têm transporte para as levar, que não podem faltar à aula porque sabem que cada dia perdido pode significar ficar para trás.

Enquanto visualizava aquilo, da janela do carro, pensei nos pais dessas crianças. Muitos deles provavelmente já tinham saído de casa antes do amanhecer para trabalhar. Outros talvez estivessem também a enfrentar transportes cheios, estradas difíceis, salários incertos. E no meio dessa cadeia de esforço está a criança que caminha na chuva.

Não escrevo isto para apontar dedos. Não há respostas simples. Não sei exactamente quem deveria resolver tudo isto. Talvez seja uma combinação de muitos factores. Infra-estrutura, planeamento urbano, políticas públicas, consciência colectiva. O que sei é que dói ver. Dói ver uma menina levantar a saia do uniforme para conseguir atravessar uma corrente de água. Dói ver um menino carregar o irmão mais novo nas costas para que ele não molhe os sapatos. E estas cenas acontecem todos os anos quando começa a época das chuvas. E mesmo assim continuamos a olhar para o lado. Talvez o mais perigoso não seja a chuva. Talvez seja a nossa capacidade de nos habituarmos a tudo.

Não escrevo isto para causar ninguém. Escrevo com tristeza. Talvez também com alguma impotência. Porque aquela imagem das crianças a atravessar a água não me sai da cabeça. E talvez esta crónica não mude nada. Talvez amanhã tudo continue igual. Talvez as próximas chuvas tragam as mesmas cenas. Mas pelo menos hoje quis escrever sobre isso. É que, enquanto elas lutam contra a chuva para aprender, nós talvez devêssemos lutar um pouco mais para que o caminho delas fosse menos difícil. Porque antes da aula começar, para muitas crianças, já houve uma batalha vencida. E nenhuma criança devia ter de lutar tanto apenas para poder aprender.


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Uma resposta a “pode chover… mas vamos estudar!”

  1. É fascinante observar a arquitetura do cinismo. Erguem-se mansões com colunas gregas em bairros onde a única coisa que flui com eficiência é a água das chuvas invadindo o quintal do vizinho.

    Nossos “doutores”, esses intelectuais de poltrona e conta bancária obesa, parecem ter desenvolvido uma alergia severa ao passado. Esqueceram, com uma conveniência invejável, o sabor das badjias que as suas mães fritavam ao sol escaldante para pagar os livros que hoje eles nem abrem.

    A metamorfose é completa: o filho da vendedora ambulante agora é o excelentíssimo que envia a polícia camarária para confiscar a bacia da “mamana”. O argumento? Higiene. Pelos vistos, a pobreza só é higiénica quando serve de cenário para fotos de campanha eleitoral ou para ilustrar teses de mestrado em universidades estrangeiras. Fora disso, a sobrevivência alheia é um atentado à estética urbana.

    Enquanto os vidros fumados dos carros de alta cilindrada protegem os nossos governantes do brilho ofuscante da realidade, as crianças travam uma odisseia épica. Cruzar uma rua alagada para chegar à escola não é “resiliência”, esse termo gourmet que os ricos usam para romantizar o sofrimento dos pobres. É um fracasso de gestão.

    Nenhuma criança deveria precisar de um curso de sobrevivência militar apenas para aprender a conjugar verbos.

    Mas sejamos honestos, a culpa não pode morar apenas nos palácios. Eles estão lá porque nós, os “patrões do nada”, assinamos o contrato de cinco em cinco anos. Somos especialistas na arte do lamento digital, mas profissionais na passividade prática.

    Culpamos o sistema como se o sistema fosse um software abstracto e não um grupo de pessoas com nomes, apelidos e moradas conhecidas.

    Ficamos indignados com a imagem das crianças na água, mas a nossa indignação dura exactamente o tempo de um scroll no ecrã do telemóvel.

    Eu culpo a ti, culpo a mim, e culpo a nossa incrível capacidade de assistir ao naufrágio da dignidade enquanto discutimos o menu do almoço ou jantar, já que aqueles dizem que temos 5 refeições diárias (capítulo para outra odisseia).

    Somos os patrões que não cobram, os eleitores que não exigem e os cidadãos que se sentem impotentes porque, no fundo, é mais confortável lamentar do que lutar.

    Até quando?

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