O som das três pancadas no portão acordou até a minha esposa que tem sono forte. Não era “dal’censa” de vizinho a pedir para cartar água, era de quem vem com assunto sério. Eram cinco e cinquenta e sente. Do lado de dentro, uma mulher de voz aguda resmungava. Do lado de fora, um homem esperava, de fúria contida.

Chamava-se Jotamo, pai de uma menina de doze anos, filha única, seu orgulho e seu medo. A menina estudava numa escola privada da zona, até então, parecia-lhe protegida do mundo. Até aquele dia.

Na noite anterior, Jotamo descobrira mensagens no telefone da filha. Conversas com um rapaz de dezassete anos, o filho da vizinha do lado. Mensagens de tom leve no início, depois piadas, depois palavras pesadas, e, por fim, o golpe: uma fotografia indecente enviada por ele. Um pénis erecto.

Jotamo não dormiu. A raiva misturava-se à impotência. Pensava: “Como é que o mundo chegou a isto? Meninos a perderem vergonha, meninas a perderem sossego.” Quando amanheceu, já sabia o que fazer.

Por isso estava ali, diante do portão da vizinha. Bateu outra vez.

— Dona Isabel! — gritou. — Precisamos de conversar!

A mulher abriu, irritada, amarrando melhor a capulana a cintura.

— Bom dia, senhor Jotamo. O que se passa?

— Dona Isabel. O teu filho anda a conversar com a minha filha. E não é conversa de escola. São coisas feias, indecentes. A minha filha tem doze anos!

Ela franziu a testa.

— O meu filho? Ok. Mas não percebi. Está a acusar o meu filho de quê, afinal?

— De estar a corromper uma criança! — respondeu Jotamo, o tom a subir. — Tenho as provas. Ele mandou fotografias… obscenas.

Ela riu, aquele riso curto de quem se acha por cima.

— Ouve-la, senhor Jotamo, não dramatiza. Os miúdos hoje em dia brincam com tudo. É a geração deles.

Jotamo deu um passo à frente, o rosto já inchado.

— Brincam com tudo? Com o corpo dos outros também?

— Olha — disse ela, cruzando os braços —, o meu filho é homem. Está a aprender a ser homem. E homem experimenta, é natural.

Jotamo ficou um instante sem palavras. Depois, a voz saiu-lhe grave, cortante:

— Natural? Mostrar o pénis a uma criança é natural? O que é que vocês chamam de educação nesta casa?

— Educação? — replicou ela, ofendida. — Eu educo o meu filho, sim. Mas não o educo para ser fraco. Hoje em dia, se o rapaz não se impõe, é pisado. E, perdoe-me, senhor Jotamo, a sua filha também não é uma santa. Pelo que sei, foi ela que respondeu às mensagens.

— E é isso que lhe dá o direito de a ofender? — perguntou ele, trémulo. — Ou acha que uma menina de doze anos entende o que é ser ofendida?

— Acha que é o fim do mundo por causa de uma foto? — disse ela, com desdém. — O senhor devia era ensinar a sua filha a não se meter com rapazes mais velhos.

Jotamo respirou fundo, tentando não explodir.

— A minha filha é uma criança, Dona Isabel. E o teu filho é quase um homem. Há uma diferença, uma fronteira que ele atravessou.

Ela encolheu os ombros.

— Homem é homem, senhor Jotamo. A vida é assim.

Foi então que ele se aproximou do portão, os olhos rasos d’água, e disse devagar, quase num murmúrio:

— Foi assim que muitos pais educaram seus filhos. Com essa frase. “Homem é homem.” E foi com essa frase que muitos homens deixaram de ser pais, e muitas meninas deixaram de ser meninas.

Ela quis responder, mas a voz falhou. Havia qualquer coisa naquele homem, na forma como segurava a dor, que lhe calou o riso.

— Eu não vim aqui para gritar — disse Jotamo. — Vim porque acredito que ainda há vizinhos que conversam antes de discutir. Eu podia ter ido à polícia. Mas ainda acredito no diálogo.

— Então dialogue — disse ela, fria. — Porque eu não vou aceitar que chame o meu filho de criminoso.

— Não lhe chamo criminoso. Chamo-lhe perdido. E a culpa, minha senhora, é tua e minha. Dos pais que deixaram o telefone criar os filhos, das mães que confundem esperteza com virilidade.

Ela cerrou os lábios.

— Está a insinuar que não cuido do meu filho?

— Estou a dizer que cuidar não é dar roupa de marca e mesada maior que o salário mínimo. É olhar. É saber o que fazem quando estão no quarto. É ter coragem de perguntar e de ouvir o que dói.

— Ah, então o senhor é o modelo de pai perfeito? — ironizou ela. — Deve ser, com essa mania de moralista.

Ele sorriu, um sorriso triste.

— Não sou perfeito. Sou só um homem cansado. Cansado de ver as meninas crescerem com medo, e os rapazes crescerem sem vergonha.

Ela desviou o olhar. O filho, Carlitos, ouvira parte da conversa pela janela. O rosto dele, jovem e insolente, aparecia entre as cortinas. Jotamo reparou e gritou:

— Miúdo, olha bem para mim! Quando fores homem de verdade, vais perceber que ser homem não é mandar fotos do teu corpo. Ser homem é proteger quem ainda não sabe o que é o mundo.

Carlitos recuou. Isabel virou-se para o filho, constrangida. Pela primeira vez, a altivez deu lugar a um silêncio estranho, um desconforto que cheirava a vergonha.

— Está bem — disse ela, por fim. — Eu vou falar com ele. Mas, senhor Jotamo, não me ameace.

— Eu não ameaço — respondeu. — Eu aviso. E aviso porque ainda acredito que a vergonha pode salvar o que o orgulho destruiu.

Virou as costas, mas antes de sair, acrescentou:

— Sabe, Dona Isabel, o muro entre as nossas casas é alto. Mas o que separa as nossas famílias é o mesmo que separa este país: a diferença entre ensinar e permitir.

À noite, Isabel ficou sozinha na varanda. O filho trancou-se no quarto. O bairro estava calmo, mas dentro dela, nada estava sereno. Pensou nas palavras de Jotamo: “A vergonha pode salvar.” Há muito que não ouvia a palavra “vergonha” dita com dignidade.

Naquela madrugada, pegou no telefone do filho e leu tudo. As conversas, as piadas, as imagens. E, pela primeira vez, chorou. Não apenas pelo que ele fizera, mas pelo que ela deixara de fazer.

Na manhã seguinte, foi à casa do vizinho. Bateu com cuidado, sem arrogância.

— Senhor Jotamo, eu… queria pedir desculpa.

Ele demorou a abrir, mas quando o fez, havia ternura nos olhos.

— Já falou com ele?

— Falei. E percebi que o meu orgulho andava a criar um rapaz sem espelho.

— Todos erramos — disse Jotamo. — O importante é não fingir que o erro é virtude.

Imagem de freepik


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Uma resposta a “Os pais que restaram”

  1. Para quem, como eu, educa um jovem de 18 e uma adolescente de 13 anos, este texto revela-se uma faca de dois gumes, expondo a urgência de uma reflexão profunda sobre a linha ténue entre a proteção e a autonomia na era digital.

    Um retrato socialmente relevante e doloroso da colisão de valores entre a moralidade tradicional e a permissividade da era digital, que transforma o conflito pessoal numa urgente e dolorosa reflexão sobre a responsabilidade parental e a degradação ética na sociedade.

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