Escrevo com a humildade de quem está a reaprender a ser homem. Porque Deus abençoou a mim e à minha esposa com mais uma filha, nascida há cinco dias. E nestes cinco dias tenho vivido uma verdade que quase não se fala: o desafio da paternidade começa no momento em que a mulher entra no puerpério, mas o homem raramente é ensinado a perceber isso.
Na nossa cultura, fala-se muito da maternidade. E deve-se falar. O corpo da mulher é “rasgado” pela dor do parto normal. Ou aberto pela lâmina de uma cesariana. O sangue, o cansaço, as lágrimas, o medo, a exaustão física, tudo isso recai sobre ela. E nós, homens, crescemos a ouvir que este é o fardo natural da mulher. “Ela aguenta.” “Mulher é forte.” “Mãe é mãe.” E com essas frases, vamos aliviando a nossa responsabilidade emocional. Mas ninguém nos ensina que o puerpério não é apenas biológico. É também espiritual, psicológico, relacional. É o momento mais vulnerável da mulher. E é também um momento de decisão silenciosa para o homem: aproximar-se ou afastar-se.
Nos primeiros dias depois do parto, vi a minha esposa tentar levantar-se devagar, com o corpo ainda dorido, segurando a bebé com mãos trémulas. Vi o medo no olhar dela quando o choro parecia não ter tradução. Vi o cansaço acumulado em poucas horas. E percebi que ali não bastava ser o homem que corre atrás do dinheiro. Ali era preciso ser presença. Mas é aqui que começa o dilema do homem comum, pelo menos em Moçambique.
Porque o mesmo homem que quer estar presente é o mesmo que sente o peso da responsabilidade financeira a apertar-lhe o peito. As fraldas não se compram sozinhas. O leite não cai do céu. A renda não espera. A electricidade não perdoa. A sociedade ainda mede o valor do homem pela capacidade de sustentar. Entre o amor e o sustento, muitos homens ficam partidos. A nossa cultura habituou-nos a separar papéis de forma quase rígida. A mulher cuida. O homem provê. Se ele traz dinheiro para casa, cumpriu. Se ela aguenta a dor e o cansaço, é normal. Mas o mundo mudou, embora as nossas mentalidades caminhem devagar.
Num parto normal, há a dor da cicatriz invisível. Há a insegurança do corpo que mudou. Há o medo de não saber amamentar correctamente. Há a oscilação hormonal que ninguém vê. E se o homem estiver ausente, mesmo estando fisicamente presente, a solidão cresce. Numa cesariana, há a dor literal da incisão. Há pontos que ardem. Há movimentos que doem. Há noites em que levantar da cama é um acto de coragem. E muitas vezes, culturalmente, espera-se que a mulher “recupere rápido”, como se fosse apenas um intervalo.
Já ouvi homens dizerem, quase com orgulho, que ficaram fora do hospital porque “não são feitos para essas coisas”. Já ouvi outros afirmarem que o lugar do homem é trabalhar, não trocar fraldas. Já ouvi comentários, ainda, que segurar o bebé nos primeiros dias é “coisa de mulher”. Mas quem ensinou isso? Quem decidiu que a paternidade começa apenas quando a criança já corre?
No puerpério, o homem é chamado a um lugar novo. Um lugar que exige humildade. Exige escuta. Exige silêncio. Exige paciência. Há noites em que a bebé chora sem explicação. Há momentos em que a mãe chora também, sem saber porquê. E o homem fica ali, entre dois mundos: o mundo da responsabilidade prática e o mundo da sensibilidade que nunca lhe ensinaram a cultivar.
O moçambicano carrega ainda um peso social grande. É esperado que seja forte. Que não demonstre fragilidade. Que resolva. Que aguente. Que não se queixe. Mas a verdade é que muitos pais vivem o pós-parto também com medo. Medo de não ser suficiente. Medo de não conseguir sustentar. Medo de falhar. Só que não falamos disso. Porque culturalmente, o protagonismo da dor pertence à mulher. E com razão. Mas isso não significa que o homem não esteja também a atravessar um processo. A diferença é que a mulher é ensinada a falar sobre o que sente. O homem é ensinado a engolir.
E aqui está o ponto delicado: se o homem se aproxima, participa, acorda de madrugada, aprende a dar banho, troca fraldas, segura a criança enquanto a mãe descansa, ele não está a perder masculinidade. Está a ganhar humanidade. A maternidade nunca devia ser solitária. Quando o homem participa, não substitui a mulher. Minimiza o peso. Reduz a exaustão. Cria cumplicidade. Fortalece o vínculo com a filha. E também se transforma.
Já observei momentos nestes cinco dias em que o cansaço parecia maior que a capacidade. Mas também vivi momentos em que segurar a minha filha, por quanto pouco tempo fosse, me ensinou mais sobre responsabilidade do que qualquer discurso. A nossa sociedade precisa de reflectir sobre o papel do homem no puerpério. Não apenas como provedor, mas como parceiro real. Não apenas como pagador de contas, mas como presença emocional.
Sim, é verdade que o homem continua a carregar a pressão de correr atrás do sustento. Isso não desapareceu. Mas talvez possamos começar a ensinar aos nossos filhos que sustentar não é só pagar. É estar. É cuidar. É dividir. O parto, seja normal ou cesariana, não é apenas o nascimento da criança. É o nascimento de uma nova versão do casal. E o homem que entende isso torna-se diferente. Não escrevo isto para me colocar como exemplo. Escrevo com humildade, porque também estou a aprender. Estou a errar. Estou a ajustar. Estou a perceber que ser pai não é um título. É um exercício diário. E termino esta crónica com gratidão.
Porque escrevo tudo isto não como teoria. Escrevo como alguém que, há cinco dias, segurou uma nova vida nos braços. Deus abençoou a mim e à minha esposa com mais uma filha. E neste pequeno ser, encontro a maior responsabilidade da minha existência. Entre o amor e o sustento, escolho aprender a equilibrar. Então, também estou em pós-parto.

Também estou em pós-parto?
A nossa cultura habituou-nos a separar papéis de forma quase rígida. A mulher cuida. O homem provê. Se ele traz dinheiro para casa, cumpriu. Se ela aguenta a dor e o cansaço, é normal. Mas o mundo mudou, embora as nossas mentalidades caminhem devagar.
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Uma resposta a “Também estou em pós-parto?”
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Muito necessário.
Texto muito bom, com uma honestidade cortante e necessária, que subverte o silêncio cultural para humanizar a figura do pai. Iluminar a vulnerabilidade do homem diante do puerpério, não apenas valida a dor e a força da mulher, mas reivindica para o homem o direito, e o dever de ser presença emocional.
É uma reflexão que redefine a masculinidade não pelo poder de prover, mas pela coragem de cuidar, propondo um equilíbrio onde o sustento e o afeto caminham lado a lado.
Belíssima descrição da construção de uma parceria real, onde o nascimento de um filho se torna a fundação de uma família mais consciente e profundamente conectada.
Parabéns pela vossa filha e por essa nova versão de si mesmo que nasce com ela.
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