Para mim é um prazer estar aqui a celebrar o trabalho produzido por Maria Paula Meneses, uma pessoa com a qual tive a oportunidade de conviver nos últimos anos de sua vida. Foi acima de tudo um privilégio ter tido a oportunidade de tê-la como orientadora. A minha relação com ela começou em Maputo, onde ela estava ativamente envolvida com a academia moçambicana e várias instituições sociais, políticas e culturais com as quais ela colaborou emprestando o seu conhecimento. Através dela, também vim a Coimbra.

Maria Paula Meneses tinha o sentido de missão. Não pesquisava, pensava e ensinava por status, mas o fazia porque acreditava ser a sua forma de contribuir para que o pensamento crítico ganhasse terreno. Moçambique foi sua áncora e a história, o seu farol. Era a partir sobretudo da história de Moçambique que pensava questões teóricas, epistemológicas e metodológicas.

Os dois volumes do seu livro, Moçambique e o sul global: Uma perspectiva a partir das epistemologias do sul, traduzem a forma intensa como viveu a sua vida. Paula esteve envolvida em actividades académicas, mas também circulou para além dos muros do campus universitário, tendo circulado pelos corredores das instituições públicas, aos arquivos, às associaçõees cívica e aos festivais culturais. O livro que aqui apresentamos em dois volumes é uma compilação deste grandioso trabalho que cobre tópicos de história, educação e a cidadania em sociedades pós-coloniais — especificamente em Moçambique e alguns países da África Austral.

O primeiro volume do livro, Teoria e História problematiza a descolonização do conhecimento e do poder, e apresenta as várias formas de construir um país. O segundo volume,  As Ecologias de Saberes, amplia o debate histórico-teórico das questões da descolonização para estudar os saberes jurídicos, médicos e ecológicos.

O esírito de missão com que viveu a sua vida, atravessa toda a sua obra. Uma obra que a partir da história e da antropologia empenhou-se em desmontar as armadilhas montadas pelo processo colonial.

O colonialismo é um ponto de partida da sua obra. Com ela aprendi a olhar para a história como lugar de imaginação sociológica e enunciação filosófica. Ela defendia que o colonialismo fez valer sietemas únicos: única língua, único sistema jurídico, único sistema de saberes médicos e por aí em diante. É como se tivesse definido o que é o bem e o que é o mal, fechando todas as possibilidades que os seres humanos tem de elaborar sobre a sua própria ideia de bem e do mal.

Quando eu me metesse a elaborar as minhas ideias, Maria Paula Meneses, me recordava: “não podes perder de vista a história”. De facto, de acordo com Jospeh Ki-zerbo (2010, pag.23) “o homem é um animal histórico” e a história dá sentido a vida humana ao permiti-lo olhar para o seu passado e através dele, tentar construir sentidos do seu quotidiano.

Segundo Charles Wright Mills (2000:143) “as ciências sociais tratam dos problemas da biografia, da história e de suas intersecções nas estruturas sociais… Os problemas do nosso tempo — que agora incluem o próprio problema da natureza humana — não podem ser formulados adequadamente sem a prática consistente da perspetiva de que a história é o eixo do estudo social, bem como o reconhecimento da necessidade de desenvolver ainda mais uma psicologia do homem que seja sociologicamente fundamentada e historicamente relevante. Sem o uso da história e sem um sentido histórico das questões psicológicas, o cientista social não pode formular adequadamente os tipos de problemas que hoje deveriam orientar seus estudos.

Maria Paula Meneses tinha em mente esta ideia. Ela tinha ainda a consciência de que o cientista social e particularmente o cientista social africano devia considerar a experiência histórica do colonialismo como parte fundamental do processo de construção da África moderna.

Seloua Luste Boulbina (2019) argumenta que o colonialismo deixou heranças que moldam não apenas as estruturas de conhecimento, mas também as subjetividades. De acordo com a filósofa franco-argelina, o colonialismo não apenas dominou territórios, mas estruturou internamente as subjetividades e práticas culturais, impondo modos de pensar e falar que desumanizam os colonizados, como também critica o eurocentrismo na construção de narrativas históricas e filosóficas por excluírem as vozes do Sul Global. É aqui onde Maria Paula Meneses empenhou-se a seguir o percurso contrário, mostrando como experiências moçambicanas de descolonização deram início a uma série de questões que durante muito tempo foram completamente ignoradas no Atlântico Norte e hoje, aparecem no debate público como se de novidade se tratasse.

Estes volumes são ricos em epistemologia, história, antropologia, sociologia, ecologia, filosofia e uma série de saberes nascidos em experiências de luta na África Austral e saberes documentados em diferentes contextos, mostrando como Moçambique não é um país construido de monocultura. Moçambique é um cruzamento de diversidades, diversidades estas que hoje assustam em várias partes do mundo. Com este livro, podemos pensar o mundo tendo Moçambique como laboratório.

O livro aqui apresentado demonstra que Maria Paula Meneses também foi uma excelente leitora. As suas leituras enciclopédicas seguiram o rumo da sua vida. Ela leu diferentes textos, cobrindo uma variedade de tópicos e áreas de conhecimento. Ela não ficou parada na fronteira a olhar para o outro lado através das brexas do arrame farpado que divide dois mundos. Ela cruzou todo o tipo fronteira que poderia.

Para terminar a minha intervenção gostaria de saudar a toda equipa que esteve envolvida na organização e publicação deste livro (não vou mencionar os nomes para não me esquecer de alguém) por terem decidido eternizar através deste trabalho, uma das maiores pensadoras das questões pós-coloniais de Moçambique, de África e que já habitou este país, Portugal, que tem muito por pensar e refletir sobre a sua própria condição.

Maria Paula Meneses é eterna…


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