Fui visitar, na Galeria MIRA, no Porto, a mostra inserida nas celebrações do 90.º aniversário do artista-maior moçambicano Malangatana. Coincidência feliz e um convite da curadora Lurdes Macedo para reencontrar o embondeiro de Moçambique.

Coincidência não é uma palavra que surge ao acaso. No meu recente romance A cor da tua sombra, a personagem principal, Anchia, encontra finalmente uma compreensão profunda do que significa ser moçambicana a partir da alma e da obra de Malangatana. Dedico páginas a descrever o mestre diante do olhar em êxtase de Anchia e de uma multidão. A sua “extravagância” transcendia a expressão artística: colocava-se no cruzamento entre cultura, espiritualidade e tradição, tornando simples aquilo que tantas vezes insistimos em complicar quando tentamos definir a identidade de um povo.

Ao vê-lo cantar, dançar e invocar a sua espiritualidade, Anchia encontrou finalmente uma forma simples e profunda de pertencer a um lugar. Sem discursos rebuscados, sem o peso das ideologias ou das persistentes reminiscências coloniais, Malangatana afirmava uma ideia de Moçambique que vinha do corpo, da memória e da experiência colectiva. É difícil explicar isto sem que estejamos todos dentro do livro. Vamos então para a Galeria MIRA.

Galeria MIRA – Porto, Portugal | Foto: Facebook MIRA

Ao entrar na exposição Crepúsculo Moçambicano, percebe-se imediatamente que não se trata de uma retrospectiva convencional. Num espaço estreito, uma diversidade de obras desconstrói a expectativa de encontrar apenas trabalhos produzidos pela mão de Malangatana.

Isso chamou-me de imediato a atenção. O que estava ali em causa? Os curadores, Lurdes Macedo e Manuel Santos Maia, como que antecipando a inquietação, conduziram-me pela narrativa da exposição.

O propósito tornava-se claro: mostrar Malangatana para além das pinturas, desenhos ou gravuras. A exposição procura revelar o universo moçambicano que a sua obra convoca e representa. Faz sentido, por isso, que o visitante seja colocado diante do contexto social, cultural e humano que alimenta a vitalidade do artista.

Essa abordagem restitui a Malangatana o seu sentido colectivo. Justamente ele, que sempre procurou representar o “nós”: a diversidade das sensibilidades, das condições de vida, dos conflitos e da humanidade que atravessam a experiência moçambicana.

A partir das obras expostas e das reflexões partilhadas pelos curadores, compreende-se que, passados 15 anos da sua morte, Malangatana continua profundamente presente entre os artistas moçambicanos. A sua obra permanece actual, traduz angústias, silêncios, medos e anseios da sua gente. Ele também continua a dialogar com artistas contemporâneos e mais jovens, mesmo quando estes recorrem a outras linguagens, técnicas e símbolos para representar os dias de hoje.

Pormenores da exposição “Crepúsculo moçambicano”, Malangatana com o poeta Calane da Silva | Foto: facebook MIRA

Os trabalhos de Malangatana abrem a exposição e preparam-nos para os diálogos que se desenham ao longo do percurso. Primeiro com contemporâneos e amigos como Ernesto Shikhani, António Bronze, Alberto Chissano, Reinata Sadimba e Moira Forjaz. Depois com gerações mais novas, entre elas Titos Pelembe, Simbraz, Ruben Zacarias, Estêvão Mucavele e Ulisses Oviedo, nomes incontornáveis das artes e do ensino artístico em Moçambique.

Mas o diálogo que a exposição propõe não se limita às artes visuais. A literatura surge como outro eixo fundamental da obra e do pensamento de Malangatana.

Para além das tintas, o mestre escreveu poesia numa tentativa de verbalizar as paisagens da sua terra, os cenários do seu tempo, a intervenção política e anticolonial, as transformações sociais do país e as feridas humanas de uma sociedade marcada pela pobreza, pela fome e pela sobrevivência.

Essa faceta pode ser encontrada, por exemplo, no livro Vinte e Quatro Poemas (ed. ISPA). A exposição reúne ainda livros escritos por Malangatana e obras de autores que sobre ele reflectiram, ampliando a compreensão do seu legado artístico e intelectual.

Num país tantas vezes associado à poesia e onde a criação artística nasceu frequentemente de comunidades de convivência e partilha, seria natural que os artistas dialogassem entre si. Encontramos livros de autores moçambicanos cujas capas foram concebidas a partir de obras de Malangatana.

A montra literária percorre diferentes momentos da literatura moçambicana, do período colonial à actualidade, e reforça a ideia de continuidade entre gerações criativas.

A opção curatorial de reunir pintura, desenho, escultura, literatura, cinema, artesanato, instrumentos musicais e utensílios do quotidiano permite ao público compreender não apenas o artista, mas também o meio social e cultural que o formou. Ao mesmo tempo, evidencia os diálogos artísticos que atravessam gerações e reforça o sentido de legado do artista-mor.

Visita guiada pelos curadores Manuel Santos Maia e Lurdes Macedo | Foto: Facebook MIRA

Assim, o visitante não apenas revisita Malangatana, mas navega por diferentes narrativas e poéticas de Moçambique, descobrindo novos nomes que compõem o mosaico artístico do país.

Malangatana surge aqui na sua verdadeira grandeza: um artista que continua a fazer sentido no presente, justamente reconhecido como mestre, e cuja obra permanece símbolo de identidade e memória colectiva.

Continua, assim, a abrir caminhos. Pela sua obra, o mundo chega a Moçambique e, através dela, descobre outros rostos, outras linguagens e outras formas de imaginar o país.


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