Por Maria Manjate
A cidade de Maputo volta a ser palco de reflexão colectiva sobre narrativas de património cultural na era digital. Na sua segunda edição, a conferência Cidades do Futuro na Era Digital, promovida pela OwnHeritage, em parceria com Associação Cultural da Universidade Pedagógica de Maputo (ACUP), leva o debate ao Conselho Municipal de Maputo, através da Vereação da Cultura e Desporto. O evento terá lugar no dia 28 de Maio, no auditório do Edifício Balcão do Munícipe, 4.º Andar.
A edição procura aprofundar o debate sobre a relação entre cultura, património, urbanização e transformação digital, num contexto marcado pela crescente incorporação de tecnologias digitais nos processos de produção, gestão e interpretação do património cultural, torna-se cada vez mais evidente que a digitalização não pode ser entendida apenas como um processo técnico, sendo este um campo profundamente atravessado por dimensões epistemológicas, políticas e éticas.
Diálogos sobre Cultura, Património, Mobilidade e Transformação Digital
A emergência das tecnologias digitais no campo do património cultural não pode mais ser compreendida apenas como uma evolução técnica dos processos de documentação ou preservação. Em múltiplos contextos globais, esta transformação inscreve-se num campo mais amplo de reconfiguração das cidades, das economias culturais e das próprias formas de produção de conhecimento.
O relatório da UNESCO sobre cultura e tecnologias digitais (2022–2024) já alertava que a expansão de infraestruturas digitais no campo cultural tende a reproduzir desigualdades globais, sobretudo quando a produção e gestão dos dados patrimoniais permanece concentrada em centros técnicos e financeiros fora dos contextos locais. Do mesmo modo, iniciativas promovidas pela UN-Habitat no quadro da Nova Agenda Urbana reforçam que a digitalização das cidades não pode ser dissociada de justiça espacial, inclusão social e participação comunitária.
Neste cruzamento entre cultura, tecnologia e urbanismo, o património passa a ser simultaneamente objecto de preservação e campo de experimentação. A cidade torna-se arquivo, mas também interface digital em constante reescrita. No continente africano, este debate assume uma densidade particular. A União Africana, através da Agenda 2063, reconhece explicitamente o papel das indústrias culturais e criativas como motores de desenvolvimento, identidade e integração continental, ao mesmo tempo que, o manifesto da União Africana sobre o ano das Artes, Cultura e Património, sublinha a necessidade de integrar cultura, inovação digital e urbanização como dimensões indissociáveis do futuro africano.
No entanto, esta ambição convive com realidades estruturais profundamente desiguais, revelando uma assimetria persistente entre o discurso político e a capacidade institucional. Em muitos países africanos e, em particular, nos PALOP, a digitalização do património ocorre de forma fragmentada, frequentemente dependente de financiadores externos, pouco integrada em políticas nacionais e com reduzida soberania tecnológica, o que implica que, em vários casos, arquivos se encontrem fora dos países de origem (como é por exemplo do grande acervo da timbila em ILAM na África do Sul), que dados culturais sejam geridos por plataformas externas e que as narrativas patrimoniais sejam produzidas e mediadas em circuitos globais, nem sempre alinhados com as prioridades locais.
Em cidades como Nairobi, Lagos ou Kigali, assistimos à emergência de ecossistemas digitais aplicados à cultura e ao património, desde arquivos digitais comunitários até plataformas de mapeamento urbano participativo. O projecto African Cities Lab, por exemplo, tem procurado integrar dados urbanos, inteligência artificial e planeamento territorial em várias cidades africanas, iniciativas como o Zamani Project na África do Sul evidencia o impacto das tecnologias digitais na salvaguarda do património africano. Ferramentas como modelação 3D, digitalização espacial e plataformas digitais de documentação têm vindo a transformar a forma como o património material e imaterial é registado, estudado e partilhado. Para além da preservação, estas tecnologias ampliam o acesso ao conhecimento, fortalecem a memória colectiva e criam novas possibilidades de interação entre comunidades, investigadores e futuras gerações, assegurando que as expressões culturais africanas permaneçam vivas e valorizadas num mundo cada vez mais digital.
Por outro lado, experiências como o Sudan Memory, evidenciam a ambivalência do digital, por um lado, uma poderosa ferramenta de resistência cultural e preservação da memória em contextos de conflito, por outro, a sua vulnerabilidade à instabilidade política, à dependência tecnológica e à fragilidade institucional. Estas experiências revelam uma tensão central a digitalização do património em África não é apenas uma questão tecnológica, mas profundamente política.

Em Maputo, esta discussão adquire contornos particularmente urgente. A cidade possui um património arquitetónico e cultural profundamente híbrido, onde se cruzam heranças coloniais, práticas urbanas contemporâneas, memórias de resistência e uma intensa produção cultural quotidiana expressa na música, na oralidade, na arte urbana e nas formas de sociabilidade dos bairros. Contudo, como em muitas cidades africanas, existe uma distância significativa entre a vitalidade desta produção cultural e a capacidade institucional de a documentar, interpretar e mediar digitalmente. A ausência de infraestruturas digitais consolidadas no sector cultural, a fragmentação das políticas públicas e a escassez de quadros técnicos especializados fazem com que a digitalização do património permaneça episódica, muitas vezes dependente de projectos externos ou iniciativas pontuais.
Mesmo iniciativas recentes de digitalização de arquivos e introdução de experiências interativas em museus apontam para um potencial significativo, mas ainda sem articulação estratégica de longo prazo. Neste contexto, o risco não é apenas a ausência de digitalização, mas a sua implementação descoordenada, que pode gerar disparidade de narrativas.
Património Cultural na Era Digital: Autenticidade e Mediação Digital
As tecnologias digitais no campo do património cultural, incluindo modelação tridimensional, inteligência artificial, bases de dados digitais, meios audiovisuais, realidade aumentada e virtual emergem como ferramentas com potencial para apoiar a documentação, interpretação e conservação do património, bem como para ampliar o acesso e a participação. Contudo, estas tecnologias não devem ser entendidas como soluções neutras ou universais. As escolhas técnicas, estéticas e narrativas subjacentes à mediação digital influenciam directamente a construção de sentidos, podendo reforçar leituras consensuais, simplificadas ou orientadas para públicos externos, em detrimento da complexidade cultural e da pluralidade de vozes.
Nesta temática, a segunda edição da conferência propõe-se uma reflexão sobre as narrativas de património cultural na era digital, entendendo a mediação tecnológica como um campo multidisciplinar, com o objectivo não apenas explorar as potencialidades do digital, mas interrogar as condições em que estas tecnologias são mobilizadas, os regimes de autoridade que produzem e os seus impactos sobre a autenticidade, a participação comunitária e a continuidade das memórias colectivas.
Paralelamente, o património cultural tem adquirido um reconhecimento sem precedentes no âmbito dos objectivos de desenvolvimento sustentável, sendo cada vez mais reconhecido como um recurso estratégico para o desenvolvimento sustentável. Este enquadramento tem impulsionado debates multidisciplinares que cruzam as artes e humanidades, práticas criativas, bem como as ciências, tecnologias e engenharias. Dessa convergência emergem novas possibilidades para a reutilização adaptativa do património, bem como para processos de mediação digital capazes de promover formas mais amplas de envolvimento público.

Ao mesmo tempo, desafios contemporâneos como o impacto do turismo, as mudanças climáticas sobre locais patrimoniais, os conflitos armados, crises humanitárias e os megaprojectos colocam novas pressões sobre a protecção dos bens culturais e sobre a continuidade das práticas culturais. Este cenário levanta questões fundamentais como transformar memórias orais, práticas performativas em narrativas digitais sem as reduzir a representações estéticas ou a discursos homogéneos? Que estatuto de autenticidade é atribuído a testemunhos digitalizados e como são validados? De que forma as comunidades participam ou são excluídas dos processos de curadoria, circulação e legitimação dessas narrativas no ambiente digital?
Outras questões tornam-se igualmente centrais quais estratégias pós-crise podem ser adoptadas para apoiar a recuperação, resiliência, construção da paz e a cura social? Quias as estratégias concretas para alfabetização digital, mitigação de riscos associados à externalização de infraestruturas tecnológicas e à dependência de plataformas e financiamentos externos, que podem resultar na perda de controlo narrativo e na apropriação? Quem define as narrativas patrimoniais em ambientes digitais? E de que forma estas narrativas se articulam com desigualdades históricas e novas formas de poder algorítmico?
No seu conjunto, para além da temática central a conferência inscreve-se num debate mais amplo incluindo sessões de conversa sobre estratégias de reutilização de espaços urbanos e património construído e o futuro da gestão do património cultural e a digitalização. A discussão sobre reutilização adaptativa do património integra hoje agendas globais que vão desde as políticas sobre cidades sustentáveis até experiências internacionais de reabilitação urbana, onde as tensões entre preservação, mercado imobiliário e gentrificação colocam questões relacionadas com justiça espacial e direito à cidade.
Neste contexto, Maputo surge como um exemplo das contradições e possibilidades. Entre a inovação tecnológica e os riscos da dependência digital, entre a vitalidade das práticas culturais urbanas e a fragilidade das infraestruturas institucionais, a cidade evidencia desafios centrais do presente. Mais do que oferecer respostas, a conferência procura abordar os efeitos políticos, culturais e económicos dos processos de digitalização do património, evidenciando que as tecnologias digitais não apenas documentam ou difundem memórias, mas também condicionam os critérios de selecção, legitimação e circulação das narrativas patrimoniais. Nesse sentido, discutir a digitalização do património implica também discutir relações de poder, controlo sobre os dados culturais, desigualdades de acesso tecnológico e os modelos de desenvolvimento urbano que estas infraestruturas tendem a reproduzir ou reforçar.
A literatura produzida pelo ICOMOS, pela UNESCO e pelo ICOM tem alertado para os riscos de uma “tecnologização acrítica” do património, na qual a mediação digital tende a substituir em vez de ampliar a participação comunitária, transformando práticas culturais vivas em conteúdos digitalmente consumíveis, frequentemente descontextualizados das suas dimensões sociais, políticas e territoriais. Ao mesmo tempo, estes debates expõem tensões entre preservação, acesso, mercantilização cultural e soberania digital, sobretudo em contextos marcados por desigualdades estruturais e fragilidade institucional.
Em paralelo, a UN-Habitat, através da Nova Agenda Urbana e de relatórios sobre cidades inclusivas e sustentáveis, tem defendido a integração entre cultura, património e espaço urbano como dimensão estratégica do planeamento das cidades. No entanto, esta integração tende a operar dentro de quadros normativos globais que nem sempre dialogam com as especificidades institucionais, sociais e infraestruturais dos contextos locais, colocando em questão a capacidade destas agendas responderem às realidades urbanas sem reproduzirem modelos universalistas de desenvolvimento.
De forma complementar, o World Bank, nos seus relatórios sobre urbanização em África e economia criativa, tem promovido a digitalização, a inovação e as indústrias culturais como motores de crescimento económico urbano. Contudo, estas abordagens privilegiam frequentemente métricas de eficiência, competitividade e atractividade urbana, tendendo a secundarizar dimensões como justiça espacial, desigualdade tecnológica, precarização cultural e o direito das comunidades à definição das suas próprias narrativas patrimoniais.
Economia circular, urbanismo e património: leituras a partir de Maputo
A discussão contemporânea sobre cidades tem vindo a incorporar a lógica da economia circular como parte das agendas internacionais sobre sustentabilidade urbana, regeneração territorial e transição ecológica. Nesta abordagem, promovida por diferentes organizações multilaterais e programas urbanos globais, as cidades devem reutilizar infraestruturas existentes, reduzir desperdícios urbanos, regenerar espaços degradados e integrar sustentabilidade ambiental com planeamento urbano. Aplicada ao património cultural, esta perspectiva desloca os edifícios históricos e os espaços urbanos do campo restrito da conservação monumental para o domínio mais amplo das economias urbanas, da reutilização adaptativa e da regeneração territorial.
Contudo, a incorporação da economia circular no debate patrimonial exige uma leitura crítica. Em muitos contextos urbanos, particularmente no Sul Global, conceitos como “cidade criativa”, cidade inteligente”, “regeneração urbana” ou “economia circular” têm sido apropriados por agendas de competitividade urbana, branding territorial e valorização imobiliária, frequentemente produzindo processos de exclusão social, turistificação e gentrificação. Neste sentido, a reutilização do património pode funcionar simultaneamente como estratégia de preservação cultural e como instrumento de reconfiguração económica e espacial orientado para mercados urbanos globais.
É precisamente neste ponto que discutir estas questões em Maputo se torna particularmente relevante. A cidade apresenta uma condição paradoxal: possui uma intensa vitalidade cultural urbana, mas enfrenta profundas fragilidades institucionais, infraestruturais e digitais no campo da gestão patrimonial. Ao mesmo tempo, Maputo vive fortes pressões urbanas associadas à expansão imobiliária, reconfiguração dos espaços centrais, vulnerabilidade climática, desigualdades socioespaciais e dependência crescente de modelos externos de desenvolvimento urbano e tecnológico.
A crescente valorização económica da cultura e do património pode contribuir para novas formas de exclusão, sobretudo quando comunidades locais deixam de participar na definição das políticas urbanas e dos processos de transformação territorial.
Assim, discutir economia circular, património e urbanismo em Maputo não significa apenas adoptar discursos internacionais sobre sustentabilidade ou inovação urbana, mas interrogar criticamente de que forma essas agendas circulam, são apropriadas ou impostas em contextos africanos. Mais do que pensar o património como activo económico ou recurso turístico, torna-se relevante discutir como os processos de regeneração urbana, digitalização e reutilização patrimonial no espaço urbano.
Clima, e o futuro do património urbano em Maputo
Nos últimos anos, o debate contemporâneo sobre património cultural tem vindo a tornar-se inseparável das discussões sobre a crise climática. As decisões recentes das Conferências das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP), em particular a partir da COP28, têm vindo a reconhecer de forma progressiva a importância da cultura e do património nos processos de adaptação climática e de construção de resiliência. Este reconhecimento foi reforçado na COP30, com a integração de indicadores específicos relativos ao património cultural no âmbito do Global Goal on Adaptation. Contudo, apesar deste avanço normativo, o património cultural continua amplamente marginalizado nos principais mecanismos internacionais de financiamento climático, revelando uma contradição estrutural entre discurso e implementação. As políticas de adaptação permanecem predominantemente orientadas por infraestruturas técnicas, métricas económicas e modelos de gestão ambiental que tendem a subvalorizar as dimensões sociais, culturais e simbólicas do território.
Neste contexto, organizações como a ICOMOS e a IUCN têm vindo a alertar para a necessidade de integrar património cultural, paisagem urbana histórica e conhecimento local nas estratégias de adaptação climática. A própria abordagem da Historic Urban Landscape promovida pela UNESCO propõe ultrapassar modelos restritos de conservação monumental, defendendo leituras integradas entre património, ambiente urbano, ecossistemas e comunidades. Ainda assim, permanece uma tensão evidente entre estas recomendações internacionais e as realidades concretas das cidades africanas, onde fragilidade institucional, urbanização acelerada, desigualdade espacial e dependência financeira limitam a capacidade de implementação de políticas patrimoniais sustentáveis.

É precisamente neste ponto que Maputo adquire centralidade analítica. Enquanto cidade costeira altamente vulnerável, Maputo enfrenta simultaneamente erosão costeira, inundações cíclicas, pressão imobiliária, urbanização informal, degradação de infraestruturas históricas e ausência de políticas integradas de adaptação patrimonial. Neste cenário, o património deixa de ser apenas uma questão de memória ou preservação simbólica; passa a constituir também uma infraestrutura urbana vulnerável, directamente afectada pelas desigualdades ambientais e pelos modelos de desenvolvimento urbano adoptados.
A discussão sobre estratégias de reutilização urbana ganha, assim, uma dimensão particularmente crítica. Em muitos casos, discursos sobre regeneração sustentável, reabilitação urbana ou cidades resilientes são incorporados em agendas de competitividade territorial e valorização imobiliária que tendem a deslocar populações, mercantilizar centros históricos e transformar patrimónios culturais em activos económicos voltados para turismo, consumo urbano e projecção internacional das cidades. A questão central deixa então de ser apenas como preservar património em contexto de crise climática, mas também quem beneficia dos processos de regeneração urbana, quem define as prioridades de adaptação e quais memórias urbanas proteger.
Entre as ambições das “smart cities”, os riscos da dependência tecnológica e financeira e a vulnerabilidade crescente das infraestruturas urbanas, emerge a necessidade de questionar criticamente até que ponto os modelos globais de sustentabilidade urbana respondem efectivamente às realidades locais africanas. Neste enquadramento, o património não pode ser entendido apenas como herança cultural, uma vez que é também atravessado por dimensões políticas, ecológicas e económicas que influenciam diretamente os modos de produção e organização do espaço urbano, onde se confrontam diferentes visões sobre desenvolvimento urbano, soberania cultural, justiça climática e direito à cidade.
Ao mesmo tempo, o recente Pact for the Future reforça a necessidade de abordagens integradas entre tecnologia, cultura, sustentabilidade e justiça social. No entanto, permanece em aberto uma questão central: de que forma estas agendas globais podem ser apropriadas criticamente por cidades como Maputo sem reproduzir novas formas de dependência tecnológica, exclusão territorial ou subordinação às prioridades definidas por actores internacionais?
Entre a cultura entendida como direito colectivo, defendida pela UNESCO; a cultura como recurso económico promovido por World Bank; as agendas de cidades inclusivas defendidas pela UN-Habitat; os debates sobre soberania cultural e desenvolvimento urbano presentes na União Africana; e a emergência de formas de governação algorítmica das cidades, constitui-se um campo de tensões atravessado por assimetrias de poder que não são apenas discursivas, mas estruturais, e que condicionam aquilo que pode ser reconhecido como cultura, desenvolvimento e inovação. Que Cidades, são, então, possíveis projectar , e quais futuros urbanos?
PROGRAMA E CARTAZ DA CONFERÊNCIA





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