Texto: ALDA COSTA

A África Austral, região geográfica onde se integra Moçambique, conheceu movimentos de povos e culturas distintas de outras partes de África originando-se aí uma produção artística diferente e durante muito tempo pouco reconhecida. A ênfase e o apelo estético da escultura, principalmente a das sociedades da África Ocidental e Central, tornaram quase invisíveis outras expressões artísticas e a arte de esculpir que, no dizer de Weule[1], era simples e sóbria e apostava mais na utilidade do que em formas artificiais e fantásticas. Uma multiplicidade de objectos pequenos, pessoais e de uso doméstico eram produzidos como resultado das crenças, ideias e estilos de vida dos povos que habitavam a região. Pese embora a pouca atenção até aí prestada, no fim do século XIX, um número considerável de objectos foi seleccionado e recolhido na região, e principalmente na bacia do rio Zambeze, devido ao seu apelo estético formal. Desenhos dos objectos recolhidos constam do livro de Müller e Snelleman.[2] Alguns anos mais tarde, no início do século XX, na zona do rio Rovuma, Weule menciona a existência de figuras humanas (representações realistas), animais (representações com tendência para a estilização) e máscaras. Nesta zona destaca-se a escultura dos maconde quer pela abundância de exemplares quer pela qualidade artística que muito cedo lhe foi reconhecida. A antiga escultura da zona sul, comum a vários povos da região, inclui diversos utensílios com figuras esculpidas, bastões e figuras humanas. Esta produção escultórica mais antiga tem vindo a ser estudada com recurso às colecções que se constituíram e que têm ajudado a recuperar as múltiplas e relacionadas histórias da região.

A presença europeia e a experiência da colonização que se seguiu abriu caminho a uma produção artística envolvendo apropriações, trocas e novas direcções quer nas cidades quer nas zonas rurais. O artista africano e as suas práticas artísticas passaram a coexistir com um outro artista que surgia principalmente na cidade, utilizava novos métodos e processos de fazer arte, recorria a outros materiais e desempenhava um papel social diferente. Através de professores individuais, de instituições e de sociedades como o Núcleo de Arte[3], de cursos de ensino artístico que passaram a ser ministrados e, mais tarde, de outras oportunidades, um pequeno número de europeus vivendo na colónia e um número ainda muito mais pequeno de africanos aprendeu desenho, pintura, escultura. Foi um escultor, Silva Pinto (1904-1991)[4], o primeiro artista convidado pelo Núcleo de Arte (NA) para visitar a colónia e aqui realizar vários trabalhos que iam desde a produção de esculturas a projectos de monumentos e à decoração de edifícios públicos. Ainda em 1938 Silva Pinto foi o artista principal na exposição de escultura, aguarela, desenho, gouache e gravura realizada na cidade capital, promovida pelo Núcleo de Arte. Vinte trabalhos, entre bustos de índigenas e de personalidades da colónia, baixos relevos e esculturas de animais foram então apresentados. Nestes anos foram publicados alguns estudos[5] sobre a arte praticada pelos africanos e feitas algumas chamadas de atenção sobre as qualidades estéticas dessa mesma arte.[6] Para além da escultura produzida pelos maconde e por outros povos da zona, refere-se no sul de Moçambique a existência de esculturas de madeira reproduzindo figuras humanas (europeus ou africanos) e de esculturas de animais feitas a partir de madeira branda e muito apreciadas pelos turistas. Esta escultura conhecida por psikelekhedana continuou a ser praticada e tem vindo a desenvolver-se. Referência, entre outras expressões, merecia também o trabalho de ourives e torneiros da Zambézia. O actual Museu de História Natural possui, na sua colecção etnográfica, alguns dos exemplares mais antigos (primeiras décadas do século XX) da escultura praticada em Moçambique.

Escultura de Alberto Chisshano

O escultor Silva Pinto acabou por se fixar em Moçambique onde trabalhou como escultor, foi professor na Escola Industrial e orientou, com outros professores, cursos no Núcleo de Arte. Em 1941, na 2ª apresentação de trabalhos de alunos as esculturas presentes pertenciam a uma única expositora. O número de alunos do curso de escultura parece ter sido pequeno. A técnica da modelagem com gesso exigia espaço, materiais e recursos nem sempre disponíveis. Em 1943 ofereciam-se cursos livres de Artes Plásticas: desenho a carvão, pintura e escultura[7] sendo a mensalidade do curso de escultura a mais cara. Alguns anos mais tarde, em 1948, o curso de escultura tinha cinco alunos[8]. Um deles, José Lobo Fernandes (n.1921-?), participou em exposições, tem uma escultura num lugar público da capital[9], orientou o curso de escultura no Núcleo de Arte onde foi professor, entre outros, de Shikhani (1936-2010). Lobo Fernandes é também o autor do busto de Eduardo Mondlane existente na Sala dos Actos Grandes da Universidade Eduardo Mondlane (UEM)[10].

Uma escultura de Shikhani, um dos primeiros africanos negros a frequentar o Núcleo de Arte, datada de 1965 integra a exposição permanente do Museu Nacional de Arte em Maputo. Maria Alice Mealha (n.1925-?), que estudou escultura na Escola de Belas Artes de Lisboa, foi outra das escultoras que trabalhou no Núcleo de Arte, expôs na cidade e na África do Sul. Como Lobo Fernandes seguia escolas modernas de escultura. Em 1966 um dos seus trabalhos ganhou o 1º prémio de um concurso dos Caminhos-de-Ferro de Moçambique para o átrio da Estação da Beira. Outros artistas intervindo no meio local fizeram escultura: A. d’Alpoim Guedes, mais conhecido por Pancho Guedes (1925-2015), António Quadros (1933-1994), Augusto Cabral (1922-201?), Garizo do Carmo (1927-1997) João Paulo (1929-2012), Jorge Mealha (1934-2021), Silva Moura (n.1935-?). Alguns destes escultores também usaram a madeira mas foram as tradições locais de escultura em madeira, praticadas por artesãos e artistas, as que conheceram maior desenvolvimento, integraram temas sugeridos pelo poder colonial, expressaram preocupações sociais e culturais, deram corpo a preocupações modernas, traduziram propostas individuais. Nesses anos, o continente libertava-se da dominação colonial e os novos países africanos surgidos procuravam afirmar-se em termos políticos e culturais. A Tanzânia independente e a luta de libertação liderada pela FRELIMO influenciaram a produção artística dos maconde vivendo na Tanzânia e em Moçambique. A partir da década de 60 grandes mudanças aconteceram na arte dos maconde e novos estilos foram desenvolvidos e se deram a conhecer internacionalmente. É a chamada escultura maconde ‘moderna’ que ficou conhecida pela sua inovação e pelos seguintes tipos e estilos de escultura: ujamaa compacto, ujamaa não-compacto, shetani e ainda por esculturas em relevo e que foi objecto de estudo por parte de diversos investigadores[11]

No sul e principalmente nas cidades também se produziam mudanças que abriam espaço para os artistas africanos. Alberto Chachuaio, Alberto Chissano (1935-1994), Jorge Nhaca (1943-1997), Mundau Oblino Mabjaia (1940-2013), Naftal Langa (1932-2014), Paulo Come (1946-2000?), para mencionar apenas alguns, tornaram-se conhecidos, participavam em exposições, influenciavam e encorajavam outros a expressar-se através da escultura. Jorge Nhaca conquistou o Prémio de Escultura no Salão de Arte Moderna de L.M., em 1966, com “Sete Bichos”, trabalho que pertence actualmente à colecção do Museu Nacional de Arte.  Alberto Chissano fez a sua 1ª individual em 1967 no Salão da Coop e iniciou, a partir daí, o seu percurso profissional.

A Independência Nacional (1975) trouxe consigo mudanças radicais que propunham “uma sociedade nova”, “ um homem novo” e “uma nova cultura”. Multiplicaram-se as oportunidades para os que ansiavam afirmar-se como artistas e sucederam-se exposições colectivas de arte popular dando a conhecer novos nomes principalmente na escultura. O colonialismo, as tradições culturais até aí desvalorizadas, a luta de libertação, a independência, os novos valores que se defendiam alimentavam muitos dos trabalhos apresentados. Makukule (1956-198?) é, entre outros, um dos escultores que merece destaque neste período. Alegria Mussica, que teve oportunidade de realizar um estágio na Bulgária onde trabalhou com bronze e mármore, Dias Mahlate (n.1958), que em 1984 vai estudar escultura na Academia de Belas Artes de Dresden, Govane (n.1954), que está presente no Salão dos Escultores em 1986, Makamo (1946-2025), Muando (n.1958) são alguns dos escultores que nos anos 80 procuravam afirmação e caminhos próprios. Govane, em 1990, teve oportunidade de visitar o Zimbabwe onde, para além de expor o seu trabalho, orienta um workshop de escultura em madeira e toma contacto com a escultura em pedra aí praticada. Localmente, o desenvolvimento da escultura ressentia-se da ausência de instituições de educação formal, da falta de materiais, de equipamentos e de oportunidades.  Os projectos de monumentos incluem encomendas no exterior e contam com o envolvimento de arquitectos como José Forjaz (1936-2024) e Júlio Carrilho (1946 -2021), entre outros, e de alguns artistas.

Escultura em cerâmica de Reinata Sadimba, 2023 (Exposta na FFLC)

Alberto Chissano, que chegou a experimentar o mármore, e Naftal Langa participam em diversas exposições no país e no estrangeiro. Chissano ganha um Prémio na II Bienal de Havana em 1987. Celestino Tomás (n.1944), Miguel Valinge (n.1952), Nkabala Ambelicola (1930-?), Rafael Nkatunga, herdeiros de uma tradição escultórica desde há muito valorizada, e onde são reconhecidos diversos mestres, vêm reconhecido o seu trabalho que mostram em diversas exposições e também na III Bienal de Havana em 1989. Shikhani, a viver na Beira desde 1970, continua a fazer escultura embora tenha abraçado também a pintura. As suas últimas propostas de escultura, produzidas ainda na Beira, datam dos anos 90. Malangatana Ngwenya (1936-2011) que continua a desenhar e a pintar faz também escultura. Para além da escultura em metal que fez em 1983 para uma fábrica na Av.de Angola, a escultura em metal e cimento, de 20m de altura, para a Mabor de Moçambique, criada em 1988-89, é um trabalho marcante. Jorge Almeida (1942-2013) fotografou os diferentes momentos da sua construção. Bertina Lopes (1924-2012), Chichorro (n.1945), Eugénio de Lemos (1930-1995), Naguib (n.1955), Samate Machava (1939-2012), Victor Sousa (1952-2017) também fizeram escultura. A Eugénio de Lemos, em particular, se devem igualmente interessantes propostas de escultura. Uma delas é O pássaro que sonhava ser máquina ou a máquina que queria voar criada em 1993 para o jardim do Instituto de Formação das Telecomunicações de Moçambique em Maputo. É também das poucas propostas que conhecemos que é acompanhada de alguma documentação relativa à conceptualização e ao processo de trabalho. Existe uma maquete e um registo (imagens) de diferentes momentos da montagem no local.

O desenvolvimento da Escola Nacional de Artes Visuais, a funcionar desde 1983, a realização dos primeiros workshops internacionais de arte na região[12] e em Moçambique, a formação obtida no exterior por parte de alguns artistas, através de bolsas, os contactos além fronteiras por parte de outros produziram, a partir dos anos 90, propostas novas também na escultura. Para além da madeira, a pedra, o mármore, o metal, a argila e muitos outros materiais começaram a ser usados. Titos Mabota (1963-2017) é um exemplo desta tendência e as suas esculturas combinam diversos materiais. Bata (n.1958), Ndlozi (n.1970), Victor Sousa, Ídasse (n.1955) também se aventuraram na experimentação com outros materiais para fazer escultura. Reinata Sadimba (n.1945), mantendo-se fiel à argila, continua a surpreender-nos com a sua imaginação sem limites. Celestino Mondlane/Mudaulane (n.1972) explora criativamente a cerâmica abrindo possibilidades novas para a escultura. Lourenço Tsenane (n.1979), um dos seus alunos, segue, à sua maneira e entre outros interesses, esse caminho que atraiu novos seguidores como, por exemplo, Titos Pelembe (n.1988).

Um projecto visando transformar armas em objectos de arte ocupou vários artistas trabalhando no Núcleo de Arte mas não só. Gonçalo Mabunda é um desses artistas. A partir da experiência de trabalho com o artista e professor sul-africano Andries Botha que conheceu num workshop em Maputo, em 1995, as suas propostas têm vindo a desenvolver-se. Mas há outros artistas a mencionar como Hilário Nhatugueja (1964-2016), Kester (n.1966) ou Fiel (n.1972). Pekiwa (n.1977), filho do escultor Govane, herda a experiência do pai, a abertura e o interesse pelo trabalho com outros materiais, por novos processos artísticos. Simione (n.1973) faz o mesmo. O questionamento dos meios privilegiados de representação que caracterizou a arte do século XX e também do que se fazia localmente, marcou os percursos de vários artistas e a sua procura de uma expressão pessoal.

Escultura de Luís Santos

A formação em escultura em Cuba, Brasil e África do Sul, por exemplo, de Marcos Muthewuye (n.1972), Jorge Dias (n.1972) e Ivan Serra (n.1978) abre caminho a diversas ideias e propostas novas que exploram e procuram disseminar junto dos mais jovens. Desconstruir e reconstruir objectos ligados ao seu passado como fez Ivan Serra na escultura “A perda da inocência” apresentada em 2006, captar a realidade social quotidiana e trazê-la para a escultura, como faz Jorge Dias ou, como Marcos Muthewuye, procurando dialogar com a ‘tradição’ e a contemporaneidade. Nem todos eles continuam activos, alguns dos jovens que se iniciavam nesse tempo, como Tembo Dança (n.1980) ou Luís Muiéngua (n.1980), seguem outros caminhos mas novos nomes têm surgido. Resultado de diversas oportunidades de formação, local ou internacional, há cada vez mais artistas interessados em explorar a multiplicidade de meios e de linguagens ao seu dispor e para quem as fronteiras disciplinares fazem pouco sentido. Como o tema é escultura, vale a pena mencionar aqui o trabalho que Luís Santos (n.1993) vem produzindo.


*Texto escrito em 2006, revisto em 2007 para integrar o catálogo Juventude Uma Visão Artística: Arte tridimensional de Moçambique, Zimbabwe e África do Sul resultado de um workshop regional de iniciativa do MUVART realizado em Maputo em 2008 e novamente revisto, com pequenas actualizações, em 2025.


[1] Karl Weule, professor universitário e director substituto do Museu de Etnografia de Leipzig, chefiou em 1906 uma missão à então África Oriental Alemã. Descreveu e recolheu objectos da cultura material de diversos povos partilhando o sul da Tanzânia e o norte de Moçambique. Os resultados da sua missão foram publicados em livro em 1908. Em 2000 foi feita a tradução deste livro para Português por iniciativa do Ministério da Cultura de Moçambique.

[2] Müller, F.V. e Snelleman, J.F. (s.d.) L’industrie des Cafres du Sud-Est de l’Afrique. Leyden: Brill. Embora não se conheça a data da publicação, sabe-se que foi preparada em Roterdão entre Novembro de  1891 e Maio de 1892.

[3] O Núcleo de Arte foi constituído em Lourenço Marques (actual Maputo) com o objectivo de difundir a educação estética e de coordenar e promover o progresso da Arte. Os seus estatutos foram aprovados pela Portaria n.º  2:696 de 25 de Março de 1936.

[4] Jorge Arnaldo da Silva Pinto, que frequentara o Curso Especial de Escultura na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, veio para Moçambique em 1938 onde acabou por se fixar e viver várias décadas.

[5] Por exemplo Oliveira, N. de (1935) Arte Gentílica em Moçambique. Moçambique Documentário Trimestral n.º 3, Julho-Set., 33-64.

[6] Felisberto Ferreirinha foi um dos coleccionadores e um dos interessados pela arte africana e a ele se devem várias acções de divulgação entre 1931 e 1949, período em que viveu em Moçambique.

[7]Anúncio do Núcleo de Arte no Itinerário n.º 23, 3 de Janeiro de 1943, p.3.

[8]Notícias, 19 de Maio de 1948, p.3.

[9]Na Av. Armando Tivane, 1961, na ex-Sociedade de Estudos de Moçambique, onde funciona actualmente um sector da Escola Internacional de Maputo.

[10]O busto foi exposto no campus principal por ocasião da cerimónia de atribuição do nome Eduardo Mondlane à universidade pelo Presidente Samora Machel em 1 de Maio de 1976.

[11] Margot Dias (1973), Ricardo Teixeira Duarte (1987), Paulo R. Soares (1989) John Wembah-Rashid (1998), Gianfranco Gandolfo (2007), entre outros.

[12] O primeiro workshop internacional, Ujamaa Workshp I, realizado em Moçambique (Pemba) teve lugar em 1991, na sequência de outros organizados em diferentes países da região desde os anos 80 e inspirados no modelo dos Triangle Art Workshops, criado em 1982 em Nova Iorque. 


Biografia de Alda Costa

Nasceu em Pemba, Moçambique, em 1953. É formada em História (1976) e em Museologia tendo concluído (2005/2006) o Doutoramento em História da Arte com uma tese sobre arte moderna e contemporânea de Moçambique.

Trabalhou como museóloga no Departamento de Museus do Ministério da Cultura, onde chefiou entre 1986 e 2001, e com o qual mantém, até ao presente, colaboração. Foi Presidente da Comissão Instaladora do Instituto Superior de Artes e Cultura ISArC de 2007 a 2009.

Atualmente é Diretora de Cultura da Universidade Eduardo Mondlane em Maputo. A sua experiência profissional inclui ainda, entre outros domínios, o ensino e a planificação curricular. Entre as suas publicações contam-se manuais didáticos sobre história e ensino de história, artigos, capítulos e textos sobre museus, museologia e arte em livros, catálogos de exposições e publicações especializadas.


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