Várias têm sido as reflexões sobre os 50 anos da Independência nacional. Os recentes desenvolvimentos políticos em Moçambique forçaram a dar mais um passo na ideia de inclusão e reconciliação nacional, num processo que volta a destapar feridas que, na verdade, nunca chegaram a sarar, e que devolve a constante e inquietante questão da identidade. Que país é este? Quem são as pessoas deste país? Quais são as suas geografias e latitudes? Expressões como «do Rovuma ao Maputo» ou «do Zumbo ao Índico» parecem simplificar, no habitual cliché político, a complexa realidade do Ser e Estar moçambicano. Quantas pátrias e patriotas ficam esquecidos nesse cliché? E quem escutará essas vozes anónimas e invisíveis, a partir de onde estão e como estão?
Todas estas reflexões surgiram-me ao ver dois filmes produzidos por adolescentes dos distritos de Macossa, em Tete, e Gondola, em Manica, onde o país é abordado como raramente o vemos. O que mais me chamou a foi o alerta de que o mais importante era o processo de produção e não o resultado em si. E faz sentido. Pretendia-se, com o programa que capacitou estes adolescentes, ensiná-los a quebrar os muros criados pelas diferenças geracionais, os silêncios gerados por diferentes traumas, e colocá-los a participar nos processos de desenvolvimento local, sem se alhearem de tudo e de todos à sua volta. Ainda assim, sem desvalorizar o caminho, encantei-me com o destino, mesmo que, a meu ver, ainda seja longínquo. O que aquelas meninas e aqueles meninos fizeram foi criar um momento para reavaliarmos tudo o que pensamos saber sobre o ser moçambicano e sobre viver neste país. E fica a grande lição: quando há vontade e ferramentas, pode-se encontrar uma forma de libertar a depressão que habita a nossa história.
O filme «Ilha do Mato», realizado por alunos da Escola Secundária de Macossa, com idades entre os 14 e os 16 anos, apresenta uma abordagem em três perspectivas sobre as vivências de uma comunidade do interior de Moçambique: a guerra, a sexualidade e os saberes.
«Lá vêm os búfalos»

Uma mulher explica como, em 1972, chegou a guerra colonial a Macossa. Começaram por ouvir dizer: «Está a vir uma tempestade, lá vêm os búfalos». Depois, os búfalos transformaram-se em pessoas. Como escritor, é das melhores narrações que já ouvi sobre a invasão de um lugar e o início de uma guerra. Sobre tempestades, muitos já experimentaram e, nestes tempos de alterações climáticas, os moçambicanos vivem, ano após ano, algum tipo de desastre. Mesmo quando nos preparamos, há sempre uma força que rasga os tecidos e nos atinge colectivamente.
Já sobre búfalos, resta-nos, à maioria de nós, a imaginação: a poeira a levantar-se e a cobrir o horizonte, a terra a tremer, árvores e arbustos a ceder, o bradar do céu e o bramir da terra, o grito das primeiras vítimas — mulheres, crianças e homens de olhos assustados, sem saber como parar o animal enfurecido. O horror conhece-se a si mesmo. Mas como contá-lo aos outros?
Aquela mulher, sentada numa esteira, com uma criança a brincar ao lado, num ambiente de terra vermelha e tijolo queimado que denuncia a ruralidade áspera; o som ambiente que quase deixa adivinhar o cheiro do capim fresco, a poeira leve da brisa a roçar nos microfones que captam aquela voz numa língua estranha aos meus ouvidos, mas que fere e penetra no âmago; aqueles olhos negros que já viram muito e sabem que o que a boca diz nunca será toda a verdade. E o sorriso, talvez de nervoso, talvez de alívio por, finalmente, os netos terem encontrado tempo para perguntar sobre a sua vida, sobre a vida dos seus antepassados, sobre as origens daquele mundo onde hoje vivem.
É notável o contraste, as vozes que fazem as perguntas, em língua portuguesa, são de raparigas. E aquela mulher, já na casa dos 60, responde na sua língua, compreendida por nós apenas através de legendas nessa mesma língua portuguesa que chegou com a guerra de que nos falam.
«Aconteceu isso, isso, isso…»
E o que é “isso”? Menstruação. Nome impronunciável, impróprio, impuro, como as mulheres que a têm.

A primeira mulher a quem se pergunta sobre a menarca finge não entender. Fica pasmada, entra em bloqueio, recua imediatamente para o território do impronunciável, ainda mais na presença de um homem.
A segunda mulher, a mesma que nos falou dos búfalos e da tempestade, ri-se, mostrando uma boca de dentes partidos, incompletos, marcados pelo tempo. Uma boca que guardou muitas palavras, como “menstruação”.
“O que fez quando teve a primeira menstruação?”, pergunta a rapariga. “Quando isso aconteceu…”, responde a mulher. E já não havia retorno. Tinha de falar, para a menina, para as câmaras, e, viria a saber, para mim e para o mundo.
Naquela comunidade em Macossa, quando as mulheres menstruavam, eram separadas do espaço social. Eram levadas para o “mato”, onde recebiam banhos e outros tratamentos. Nesse exílio de purificação do corpo e também da terra, eram impedidas de contactar com homens. E os homens estavam proibidos de pisar aquele chão. Quem ousasse fazê-lo poderia ser acometido por uma doença terrível. A hérnia da vergonha, do vexame, por vezes até fatal. Da primeira à segunda menstruação, as mulheres só podiam banhar-se isoladas naquele espaço. Um manto para o sangue “maldito” que suja as mulheres, profana a terra e mata os homens. Bendita a sabedoria das matriarcas que detinham os remédios para salvar as mulheres e garantir o seu regresso ao convívio social, “limpas”.
Ouvir e ver estas mulheres a relatar as suas tradições coloca-nos perante um admirável mundo antigo, ainda presente, certamente, em crenças e práticas de várias regiões deste imenso país. Mas é a forma do relato que espanta e encanta. Ao rever estas cenas, ocorreu-me o texto de Ungulani Ba Ka Khosa e a mais célebre menstruação da literatura moçambicana, a de Damboia, que inundou um império inteiro, terra, rios, lagos, como uma praga anunciando o fim dos tempos para o reino de Gaza e o mau presságio para Ngungunhane. É tudo tão surreal e tão bruto que desafia as nossas referências do século XXI.
Por fim, importa notar que as duas mulheres que falam no vídeo são analfabetas e não se expressam em língua portuguesa. Já os protagonistas masculinos falam todos português. Isso diz muito sobre o seu tempo e sobre como, apesar dos esforços de alfabetização no pós-independência, não foi possível abranger a todos. Falamos de comunidades onde a vida se faz com muito pouco e onde a precariedade assume um significado difícil de imaginar para quem vive na cidade.
O programa DELPAZ, que permitiu a implementação deste laboratório de vídeo participativo, colocou alunos de escolas dos distritos de Tete e Manica a pensar as suas comunidades, a dialogar com os mais velhos, a contar — e recontar — a história dos lugares onde vivem, aprendendo lições que o ensino formal não alcança e que o cliché político nem sequer toca.
Fica agora o desafio da continuidade destas iniciativas e da sua expansão para outros lugares deste país, para além do Zumbo e do Índico, do Rovuma e do Maputo. É preciso contar histórias, desfazer mistérios e abrir os silêncios, para que os vazios da nossa história e das nossas narrativas não sejam preenchidos por equívocos.
O filme «Ilha do Mato»




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