Escrever é, antes de tudo, a capacidade de criar incêndios na mente de quem lê. Há na palavra uma espécie de magia que desperta a imaginação e dá corpo ao que, até então, era apenas pensamento difuso. Nesse processo, o autor não só organiza ideias, como também materializa uma visão do mundo, oferecendo ao leitor um espaço que pode ser habitado, sentido e, por vezes, questionado.
Entre imagens e sensações, certos autores tornam-se reconhecíveis pela forma singular como dispõem a linguagem em versos e estrofes que fazem nascer mundos no interior do leitor. Álvaro Taruma tem-se afirmado, naturalmente, nesse percurso.
Contudo, a surpresa emerge quando o poeta, até então circunscrito ao domínio da poesia, encontra no universo infanto-juvenil uma nova possibilidade de expressão: Moya e o Pequeno Gigante Solitário, obra em que o leitor depara-se com a metamorfose dessa mesma magia.
É através do diálogo entre pai e filho, Moya, que a obra faz da lagoa de Mwahulwane um espaço de transmissão de histórias, crenças e saberes ligados ao passado. Neste contexto, diria Walter Benjamin: «O narrador retira da experiência aquilo que conta: a sua própria experiência ou a relatada pelos outros.» É exactamente nessa partilha que Taruma integra onomatopeias como “duuu, duuu, duuu”, associada aos passos do peixe-boi; “treee, treee, treee”, ligada ao balançar das árvores; e “shuaaa, shuaaa, shuaaa”, referente ao movimento da água. Esses elementos introduzem ritmo, recriam a cadência da oralidade e aproximam o leitor da escuta de Moya durante o diálogo com o pai.
Dessa forma, a construção narrativa transita para uma dimensão em que as relações entre os seres ganham centralidade. As casas erguidas sobre o dorso dos elefantes e as travessias conduzidas por cascos de tartarugas traduzem-se em fabulações que acolhem o modo de ver a infância, onde a imaginação reorganiza a realidade e atribui novos sentidos ao que parece comum.
Essas escolhas deslocam a ideia de grandeza da força e do domínio para a forma como os seres se reconhecem e se relacionam. O isolamento do Pequeno Gigante (Inkulu) evidencia, de facto, como o medo e a aparência antecedem qualquer possibilidade de aproximação.
A sua figura assemelha-se à de crianças que crescem sob o olhar constante da diferença: aquelas cujo corpo, condição social ou deficiência faz com que sejam vistas como estando fora do esperado, como se não coubessem nas imagens que a sociedade aprendeu a reconhecer como normais. Por conseguinte, a presença dos animais mantidos por Inkulu deixa de ser apenas companhia e passa a funcionar como tentativa de preencher aquilo que o convívio humano lhe recusou oferecer.
É nesse modo de lidar com a ausência e com o encontro que a obra vai desenhando o seu próprio equilíbrio.
Não será esse equilíbrio também uma forma de mostrar que todo o olhar sobre o mundo já contém uma escolha? Essa questão parece prolongar-se nas ilustrações de Francisco Sepúlveda, que mantêm aberto o espaço entre palavra e imagem.
É, portanto, nesse movimento de permanência que a lagoa de Mwahulwane parece continuar para além das páginas, abrindo-se a outras vozes e ritmos. Não deixa de ser significativo que o mesmo nome ressoe noutros lugares da criação artística moçambicana, como atesta “Mwahulwane”, canção de Wazimbo.




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