Nasci em Nampula, mas não sei exactamente onde termina Nampula quando começo a escrever. Talvez termine no lugar onde começam as viagens ou então, nunca termine. As cidades que nos habitam pelo corpo, pelo cheiro, pelos sons, pela poeira e pelos saberes. Com o tempo, aprendemos a nomeá-las. Nampula chegou-me assim, primeiro como sensação e vida e depois, como geografia e memória. 

A partir desse lugar que escrevo. Não escrevo sobre Nampula, mas a partir de Nampula. Há uma diferença entre as duas coisas: uma cidade pode ser objecto de uma narrativa, mas também pode ser o lugar de onde se olha o mundo. Neste livro, escolhi a segunda possibilidade.

Apesar do nome da cidade aparecer no título do livro, Nampula não está sozinha. Com ela viaja a capital do país, Maputo, mas também cidades da Itália, Portugal e África do Sul. Apesar de serem mencionadas, as cidades não encerram o imaginário da narrativa, as vezes, são pretexto para inventar mobilidades de corpos, afectos, abandonos e as pequenas violências que interrompem sonhos.

O livro que vos apresento, Made in Nampula ou Jazz do Oriente nasceu desse movimento. “Made in Nampula” é origem, fabricação, pertença. “Jazz do Oriente” é desvio, mistura e improviso. Escrevi um livro arrumado em oito peças. Não quis decidir se eram contos, crónicas ou outra coisa. Há formas que, quando recebem demasiado cedo um nome, começam a obedecer ao nome, por isso, preferi o fragmento, um conceito aberto que caminha qual um peregrino aprendiz de filosofia peripatética.

Quero que o livro funcione como um amigo com o qual conversamos sobre algo que durante anos se aloja na memória, que seja a conversda cobre os amores que acabam sem uma frase final, ou as traições que em meio às altas expetativas que temos alteram a forma como olhamos para a vida ou as boas memórias musicais que trazem ritmo e melodia para a nossa vida.

A guerra e outros problemas políticos que vivemos em Moçambique e no mundo terminam nos calendários, mas não necessariamente nas pessoas. O trauma muda de forma, atravessa gerações, instala-se nos afectos, modifica a maneira como alguém ama, desconfia, espera ou foge. Por isso, quando escrevo sobre a intimidade, encontro inevitavelmente o colectivo. Uma escolha aparentemente privada pode ser a sombra de uma estrutura muito maior do que nós. O íntimo nunca é completamente privado. É talvez por isso que estas personagens me interessam, porque caem sozinhas, mas nunca caem apenas por si.

Escrevi o livro como quem faz um albmum musical. É um livro em que a vida é inventada pela dança. E nele, sugiro que o leitor leia e dance a música das palavras, da narração e dos corpos. A música que acompanha aquilo que não conseguimos dizer. Há momentos em que a frase sabe para onde vai e outros em que precisa de se perder para encontrar alguma coisa. Talvez por isso o jazz. Porque o jazz sabe que a liberdade também exige escuta.

Este livro não é para explicar Moçambique, mas para reafirmar que um país também se constrói através das suas narrativas, pois a narrativa move o tempo.

O livro está disponível no Brasil através da Nandyala Livros


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